03.11.17

18/07/2018

Hoje é o dia. O mar cinzento assim que chego, dois meninos, um de cada lado. Dias nublados não trazem menos gente. Sentada ali sinto a brisa do vento que redobra meu furor. Temos sido mais ou menos quatro, quase os mesmos. Mari de costas para quem chega, Filipe de frente, Renato perto da horta, eu perto do banco. Capuano chega, tenho vontade de rir, ele vai cheirar toda essa farinha. Ele adentra o espaço, vê-nos, sorri um misto de sarcasmo e júbilo. Renata e Laura chegam. Renata entra no espaço. Escrever para ler. Estar. Junto só. Confiar que sim. Sim. Outro sim. Perto do chão. Escrever é pretexto. O deslizar da caneta muda de acordo com a ponta. Gosto da maneira desconhecida de nossa chegada, zigue-zague de corpos que se conectam, mais ou menos submersos em hoje, cheguei, eram cinco da tarde, a porta estava fechada. Ainda vai abrir? Vejo a luz que vem da janela. Talvez já tenha acontecido. É preciso esperar. Para além da porta. Há possibilidades infinitas nesses rituais simultâneos. Muitas elipses. Mari traz Nícolas, eles se conheceram há duas semanas, aqui mesmo, num encontro ao acaso. Você tem chiclete? Olho pra erika. Você tem chiclete? Me pergunto outra vez, mas não pergunto, nas bordas do espaço expositivo. Outra vez imaginações que não realizo. O renato volta do jardim. Chega uma criança vestida de melancia cuja mãe tira os sapatos. Chegam pessoas, a criança se aproxima da Erika. Sorrio para ela, com ela, sorrimos, enquanto a criança faz a festa, no duro, no puro desejo de durar, a sujar as mãos de farinha. Já faz dez quilos. Parece pouco. Ela quer por a mão. Tem curiosidade e medo. Vê cada detalhe. O chiclete, brinca com o chiclete. O pai diz, deixa aí, Helena, ela se chama. Eleonor, ela se chama. Gosto. O vestido dela é de morango, não, não, perdão, melancia. Olha nossa mão e diz que vai pegar mais poeira. Ela quer entrar dentro do Renato, pelo canto esquerdo. Gosto. Ela olha nossa mão, fala, adentra o Renato, metade do tamanho. Vai com a mão na cara de todo mundo e cabe inteira no buraco das minhas costas. Penso no mágico que parte a moça na caixa. São muitos fragmentos aqui hoje. Às vezes muda em questão de segundos e tenho que me reconfigurar inteira, o que cria pequenos solavancos no espaço, aonde chegam dois seguranças. Pisam com botas mais belicosas que as minhas, verdadeiros coturnos. Vão direto à Erika, deitada no colo da Mari. Dizem algo que não entendo. Penso em levantar, mas fico aqui. O que será que dizem? Algo relativo à ordem, talvez, mas o quê, exatamente? Vão embora, Erika permanece no colo da Mari. Acho que preciso do colo da Mari. Tudo está calmo, mas de um momento pro outro pode ficar tenso. Ao redor, pessoas exercitam a escrita. Trocam olhares. Escrevem deitadas, sentadas. Estranho ver alguém deitado no chão a fazê-lo. Uma garota adentra a sala e quando sai olha para nós – conecto, na cabeça dela, as folhas escritas ali, com estas, escritas aqui: as mesmas em instantes diferentes. Observo, sou observado. Estranho Centro este de corpos que riem, beijam e aqui estão, a se conceber em papel. Uns sussurram, outros conversam. De tudo há. Como em Los baños, só que em Los baños é mais tenso, estamos juntos, espalhados, e não nos conhecemos, cada desejo diferente, e tudo se mistura. Por exemplo, minha tristeza a este trabalho. Não julgo bem. Escrevo a ela, peço desculpas. Ela lê, não responde. Se soubesse da minha lua em câncer. Minhas orelhas quentes. Busco não olhá-la. Mas qual é o problema em olhá-la? Se a conexão entre nós é de fogo. O que estou fazendo aqui tão longe? O que falta? Ou não? O que me afasta? Devo apenas escutar meu corpo. Agora não é hora de ir aonde. Armado assim até os dentes, belicoso mais que os de coturnos. Devo antes soltar. Algumas armas. Não todas. Que importa? Importa ela. Agora e sempre. Desde que a conheci, na verdade. E por que mapeio os corpos do entorno com os olhos? Carregarei ainda a paranoia soviética, herança maldita arrastada de Cuba? Venho do estado de guerra. As lascas soviéticas deixadas naquela ilha – eu as sorvi. Provável que já andasse a ter com esses perversos pedaços. Agora, porém, à frente, não está o Estado. Nem a guerra. Haverá guerra possível numa criança que toca o chão e tateia a farinha e depois limpa as mãos no vestido de melancia? Tateio também. O chão mole. O pé chão. Onde a vida descansa depois daqui? Tenho vontade de deitar. Por que não? Porque ainda carrego a dureza em mim. Não quero ser capturada, mas esta obra gera uma demanda da qual fica difícil escapar. Essas palavras saem sem que eu saiba, antes da hora, o que serão. Isto que escrevo, é sob demanda. E tudo o que eu fizer aqui será sob demanda. Obra neutra, negativo e positivo se anulando. Não consigo nem me mover. O que sobra para mim aqui? Fazer ou não fazer? Se já fui capturado igualmente pelos dois lados. Há por onde dançar aqui? Com mortos e vivos assim presentes? O que sobra para nós? A presença do corpo ausente? Como posso estar tranquilo, se qualquer pensamento que eu tenha sobre a vida, a permanência, a melancia, será capturado aqui pelos opostos, pelo que se move e pelo inerte, pelo coração e pelo gesso? Me irrita, por exemplo, ser observado pelos dois que escrevem atrás de mim achando que estão criando alguma coisa a partir do meu movimento, mas só me aprisionam os já aprisionados pelo jogo da obra sem espaço. Só o enunciado, trazer um caderninho, o acordo de estarem outras pessoas com seus caderninhos, já é um saco. Só mais uma concordância de equilíbrio. Coisa sem crise, a crise aqui sou eu, capturado pela falta de crise. Cadê o sol? Sol sol sol sol sol. Está tudo entupido. O bate papo, o abraço, a soneca, tudo preso na própria soneca, abraço, bate-papo. Podemos nos juntar a eles, podemos só olhar, nada é proibido e tudo pode no espaço que nada pode. O que pode o gesso? Não está morto o corpo que perdeu a potência do vôo? Os desenhos daquela mulher, para onde vão? Cadê os caminhos? A obra sempre junto, não abre espaço. Não dá nem para falar. E esse cara aqui atrás, meio soltão, me olhando, de meia e tal, escrevendo uns bagulhos? Escrita-bolha, leitura-bolha, dança-bolha. Só pra criança é que não. Ao menos a Erika na farinha e a farinha nela começam a criar um corte. Quem sabe vaza sangue por ali. Água que seja. Talvez por aí flua algo. Em fogo, pode ser. Em vento. Em dança, bolo de gente, que irrompe e cria desequilíbrio! Inconstância. Mas logo se equilibra, de novo, e a morte legenda o cara que começa a ler, legendando a todos e a si mesmo. Parei. Se eu dissesse isso a qualquer um diriam, Candido, que dramático. Se o russo de Los baños lesse isso, diria com sotaque portunhol já paulistano, cara, tá esquentando muito, à toa. Diria ainda o que disse outro dia, se você sabe que vai morrer não pode existir nada mais simples do que viver. Se a morte é a referência, nada é tão complexo. Gostaria de pensar assim. Mas o branco também suja. Nossa sala jamais será limpa. Se antes queríamos limpeza, agora queremos o pó, Eleonor chamou de pó, e eu vejo pó também, sobre o qual Erika acaba de se deitar, no chão, descalça, à minha frente, de comprido, a escrever à entrada da nossa sala. Tenho fome. A esta altura a mãe e os demais já têm a cara toda de farinha. Hoje fecha mais cedo. Mas quem mede? Quem poderá dizer, deu tempo, não deu tempo? Tempo de quê? Tempo de quem? Não há muito tempo, um livro escorre de minhas mãos, e tudo em fluxo. Jogo fora as aspas e mergulho no canto esquerdo do verso terceiro, e na estrofe seguinte umidifico: é doce ver o torso da menina vã. Um dia, talvez, eu me redima, por ora devo minha jornada ao descobrimento de uma altivez. Afinal, somos coisa movediça e quando já não puder perceber, meus olhos ciscarão pela abertura da janela. Ali nos coloriremos e sorriremos outra vez da dobra do pescoço parado a diminuir a velocidade do pincel que entendeu que corria à toa. Dois passos atrás e a velocidade do tempo suspenso, sem interesse em concluir, libera o corpo da pressa, como o pincel que parou, refletido no corpo alheio. É pelo vão que vem a janela. Foi pelo buraco que resolvi desenhar o sapato. O buraco do sapato. A casa do pé. O pé. Enquanto. A mão. Enquanto. Afinação rara. Se ajustam no pulsar do movimento. Brotam de si. Roubam as palavras da boca e vêm a ser árvore, já que a palavra é o gesto de vir a ser (árvore). Tiro as meias e os sapatos para entrar no espaço. Vejo o revoar daquelas folhas. A meia, cheia de ar, ainda tem corpo dentro? Quantos não-corpos. Corpos-não. Corpos-mão. Deixam rastros. Se entregam. Ao chão. Lentidão para aproximação de corpos. O movimento é o que faz o tempo correr. O movimento de Sofia está hoje pela primeira vez. Lembro dos mortos-vivos que andam por aí há muito. Riem, eu também. Não dá para completar nenhum raciocínio. É tudo solto. Som, parede, chão, teto, pode tudo, tudo certo. Como dois e dois. Tudo. Me apetece cantar. Recomeçar, ao som do imaginário. Timbres, tonalidades que não vejo. No meio da dança ouço sussurros. Chego mais perto. Encosto meu ouvido. Reparo que há uma pequena fresta de luz. Sinto uma vibração. Agora ouço risos. Um poema é lido, as palavras são: amor, força, criação, sonho. Não coloco aspas. Texto nuvem não é fechado, desliza, desenha formas na poeira e se encaminha para onde o corpo leva. Escrever em estado de, poesia em estado de dança. Na sexta que de sexta é sempre outra. Exige prática, escutar o espaço. O verso do sentir. Puro estar estar estar. Contínuo irromper da forma. Por isso eu não reconheci ninguém. A equipe da segurança acaba de ser substituída, outra empresa contratada, a mesma que antes fazia a segurança do Hospital do Servidor, aqui do lado, e que agora é feita pela GCM, a mando do Dória, me contou o Arruda, chefe da segurança, que não conhecia o Centro Cultural até três dias atrás. Até quando estar? Como escrever a interação desses corpos que dançam ali no chão, enquanto um violino desafinado busca expressão? Enfrento meus demônios, sem exceção das vísceras. Assisto a tudo que isso evoca. Assisto aos corpos que agora se entrelaçam – ela ali no meio de tudo. Quero ir. Entrar nas tranças. Nem reparei, mas sinto com a pele dos pés o chão que agora piso. Será que consigo? O coração acelera. Reencontram-se os corpos do jardim suspenso. Uma e outra vez. Sorriem. A pele do corpo a encostar na pele do chão. Nem otimista nem pacífico. Ele não é feliz. Helena eleonor vem me avisar que vai embora. A porta da cozinha se abriu. As palavras me faltam. Hoje eu dão saltos. Deixam aqui uma epígrafe: o ser humano pode fazer o que quer, não pode é querer o que quer. A gente não quer desligar o projetor. A gente não quer sair daqui.

Grupo de estudos, programa performativo em O duro desejo de durar, exposição na segunda mostra do programa de exposições do Centro Cultural São Paulo. Escrevem Alan Rodrigues Athayde, André Capuano, Erika Kobayashi, Filipe dos Santos Barrocas, Laura Gorski, Mariana Viana, Nícolas Candido, Raquel Santos, Renata Cruz e Renato Jacques.

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dia vinte e um

18/07/2018

Está consolidada a cena como lugar de experimentação. Hoje as propostas são dadas assim, Laris cochicha uma proposta a Lilian [que então vai até a varanda, fica de costas para nós. Seu tronco pende, ela segue de costas para nós, em pouco tempo um barulho se ouve, não se entende o que é, vem, mas não está lá, ah!, é a unha dela, arranhando o chão de cimento. Ela vem vindo, o som com ela, até a pele de trás das pernas pregar no vidro], André cochicha uma proposta a Laila [que então se torna um ser circunspecto, limitado e ligeiro, que dá sobressaltos, puxões e chega a gritar, depois balbucia. Sua postura é desequilibrada, sua figura fica entre patética e divertida, mas não sai do lugar], Renato cochicha uma proposta a Bárbara [que no interior de um círculo dança a lua cheia que passou], Filipe cochicha uma proposta a Fabi [que vai até o fim da varanda do outro lado, nos sentados na varanda de cá, e vem caminhando lentamente, no escuro, olhar na sombra, enviesado, vem lentamente, chega ao vidro, leva o indicador ao vidro, toca por inteiro o vidro e diz, cheguei], Lúcia cochicha uma proposta a Hamaya [que está numa pose de joelhos, o tronco inclinado para a frente, os dedos semicerrados. O banheiro com a porta entreaberta, a luz acesa, o barulho do exaustor. Ele então percorre variações desse tema], Aline cochicha uma proposta a Mari [que abre a porta, um sorriso engraçado, meio besta, ela fecha a porta do banheiro e refaz o sorriso, sai, volta, o sorriso, ela vai até um ponto preciso da parede, em que há um dente em direção à porta, e dança xifópaga de sua sombra na parede. Quando ela se inclina para a frente, a sombra do seu tronco está ligada ao seu quadril, como um grande cocozão. Ela abre a porta e vai embora], Paula cochicha uma proposta a Laris [que vai até o canto da sala, se cola ao canto e vai deslizando até o chão de maneira lenta e forçosa, não parece nada bom, ela chega ao chão, e de repente dispara numa corrida quadrúpede a gritar pelo espaço da sala, saindo pela varanda e desaparecendo atrás da cortina], Lilian cochicha uma proposta a André [que vai para a varanda de lá, nós na de cá, se senta no banco lá de frente para nós, solfeja um eee que vai decaindo conforme sua cabeça completa um giro lateral, faz de outro eee que vai decaindo conforme sua cabeça completa de maneira levemente diferente um giro lateral. Ele se levanta, vai até o parapeito, olha para baixo e solfeja novamente um eee em direção à rua. Se deita no banco e conforme dança solta o eee e então tenta suicídio], Laila cochicha uma proposta a Renato [o público numa varanda, eu na outra, a sala escura entre, eu me torno um ser que não é apenas a soma de cadeira e humano, mas uma outra coisa feita de cadeira e pessoa, apareço por trás da cortina, mirando ressabiado as pessoas, me assento no chão, minha alma se vai, a buscar outra cadeira para fazer outro ser que lentamente adentra o quadro, e assim por diante, até que de repente minha alma se vai de uma vez por todas e eu-não-mais-esse-ser apareço e desapareço], Bárbara cochicha uma proposta a Filipe [que apaga todas as luzes, fecha as cortinas, põe-nos deitados no chão a sentirmo-nos como se estivéssemos numa gincana de noite do pijama, prestes a brincar de mia-gato. No escuro não o vemos, toca Roberto Carlos, À distância], Fabi cochicha uma proposta a Lúcia [que vai até a varanda e dança suavidade], Hamaya cochicha uma proposta a Aline [que faz uma cena itinerante na qual vamos todos seguindo-a por todo o espaço], Mari cochicha uma proposta a Paulinha [que vai até a lateral da varanda que dá para o apartamento do casal com o bebê. Pela janela aberta vê-se um quadro que também pode ser uma fotografia, um grande espaço cinza que bem poderia ser o mar, um negrume alongado no meio que bem poderia ser um navio. Paulinha se aproxima do chão e dança].

As cenas das conversas cochichadas dois a dois durante as quais dávamos e recebíamos as instruções foram momentos sublimes da proposta.

Ao final Key nos dá duas direções: guardar o que você fez hoje – algo pode acontecer com isso – e pegar para si uma das proposições como feitas e passar a semana com ela. Pode até esquecer isso e vir para cá na semana que vem, mas se quiser pode ir mexendo nisso. Sigo com as cadeiras?

16/12/2017

No lugar sem-nome. O carrinho da faxina. Os banheiros. O bebedouro. Aquele homem liminar adentra o banheiro. Vento, sol vermelho. Estou de bem com as minhas pernas. Dançando. Vejo o homem, a bermuda dele suja de terra na bunda. Pequenas certezas queimadas de sol – uma garota de pernas bicolores. Eu mesmo sentado ao sol do fim da tarde, alongando-me, um sujeito tira fotos, depois pede ao Ernesto que lhe tire uma foto. Ernesto o dirige, me dá aqui a mochila, vai ali, assim, abre os braços, espirituoso, trocam sorrisos, obrigado. Lá vem Gabriel. Ele é igual à mãe. Quando cheguei, Filipe estava a fotografar A polícia vai, a polícia vem, de Dora. Sangue de comunista, escreveram na pintura dela. Filipe me contou que viu escrito no pó branco, Lula nunca mais, em resposta ao meu recorrente Fora Temer. Disse que esse é o nível mais baixo da publicidade. Que não queremos isso. Arruda hoje afirmou que as urnas eletrônicas são perfeitamente adulteráveis e que mesmo que votássemos nas pessoas certas, elas nunca seriam eleitas. Ele me perguntou se eu tenho parente ou conhecido preso. Me disse que tem um primo que foi brincar de fazer sequestro. E as famílias desses homens presos, como ficam, ele me pergunta. Contei a ele que bebo, que fumo, tabaco e maconha, ele riu, aí me contou que outro dia deu cinco mangos para um amigo comprar um baseado. Ele próprio não bebe nem fuma. Eu lhe digo que é bom conversar com ele e que me sinto levemente terrorista em distraí-lo, o chefe da segurança do Centro Cultural, que pelo menos enquanto isso podemos estar em perigo. Nada disso, ele diz, converso com você com um olho no peixe outro no gato. Então você faz muitas coisas ao mesmo tempo, isso é raro. Especialmente em homens, ele diz. Você vai para lá ou para cá, eu lhe pergunto. Ele vai em direção ao interior, vou na direção oposta, para o terraço, soltar um pouco de fumaça e caminhar até o fundo, espreitar o pátio, tirar a camisa, me alongar, escrever miudezas. Quando eu voltar eles já estarão lá, jogados no gesso em pó, apressados pela ansiedade portuguesa do meu amigo. Dou sete goles d’água, para dar sorte. Passo pelo Arruda, vou virar massa. Aí sim, ele diz. Me sento ao lado de Denise-a. Acho graça do menino a espirrar, perdido em seu brinquedo. Os três emitem certa tristeza. Mari me olha. Tiro os sapatos, adentro o espaço, desenho no chão com os pés e vou arrancando do caderno as folhas com os meus escritos dos últimos dias, me empolgo, arranco também estas. Me aproximo deles. Leio algo. Mexo-me neles. Mari a levitar Erika peixe. Filipe entre o comprido e o minúsculo. Sei que viramos a esfinge do Grupo de Estudos quando sou devidamente engolido pelo chão em escombros, donde surge o bicho que aqui vive, a quimera cega e lasciva em cuja estranha casa uma mulher e sua filha se refugiam em júbilo contra o mundo de nosso senhor. Gosto que os pés vão para você, a Luara me diz, gosto de como seu rosto se encaixa neles.

13/12/2017

Hoje eu não escrevi uma palavra sequer. Dançamos a escrita-fantasma, Erika, Mari e eu, por duas horas e meia – sensação térmica de meia. Entremeados na poeira branca, trocamos de pele. O atrito esfoliante, suporte, cuidado. Sem se dar conta, a mão adentra a terra que guarda enterradas folhas de papel e dá ao corpo de ler. Pedras. Erika nos aparece das cinzas. Sobrevivente mágica. Os gestos passam por nós, os outros, duram o tempo que desaparecem. Fotografias espontâneas. Denise chega, se senta ao lado de Denise-a. Espirro giro num arco pelo chão até os olhos dela a rir. Riem. Rio. Viramos o Grupo de Estudos. Ela se junta a nós no momento em que estamos a pegar nas mãos areia, que cai devagar, ampulheta sobre o corpo que então engole Denise. Ouve-se a segurança a chamar o parceiro no rádio e dizer que aqueles dois rapazes de boné ao fundo do terraço estão fumando. Um trio adentra o espaço. Uma garota se senta ao lado de eu-o e fica a olhar nosso contorno ruinoso, maçaroca a rolar aos pés de um microfone engessado. Eu toda vez que vejo a garota lhe sorrio um sorriso de ente. A barba em pó. Ela sorri de volta um olhar entre vidrado, tranquilo e desapareço. Um rapaz está a ler das folhas que vai encontrando. O que eles querem é interação, ele diz, este espaço é aberto, ao que Mari sorri. Obrigada por hoje, Erika ensina que acabamos de viver um crescimento, a expansão das experiências de vida que se deram nesse intervalo de praticamente um mês sem experimentar a força macia do nosso movimento.

10/12/2017

Hoje vamos moldar a Denise. Filipe acaba de deitar sua máscara mortuária no chão sobre um monte de pó branco, à saída do espaço. Um par de técnicos está a desligar as lâmpadas que cobrem o espaço. A cada lâmpada que se vai apagando, o mesmo vai se transformando – os corpos em gesso ganham volume, se destacam no escurecido. Mari está de volta, passou as últimas semanas em castelhano, está feliz em português, no qual a segurança grita conosco que não podemos mudar o banco de lugar. O meu sangue sobe com uma abordagem dessas, a Mari diz. É verdade, não precisava falar desse jeito – lhe explicamos que estamos aqui a trabalhar e num sorriso amarelo a graça se esvai. Derramo café sobre o caderno. A equipe de segurança colocou uma faixa de isolamento na lateral do espaço a ver se inibe os casais apaixonados. Mas Mari e eu sabemos que se trata de gesto preguiçoso. Além disso, somos impertinentes. Vamos até lá e arrancamo-la. Gostamos dos casais. Nova conversa com Arruda, o segurança que me contou a treta do Dória colocar a GCM no Hospital do Servidor, onde, por isso, ele não trabalha mais. Arruda demora duas horas de casa até aqui. É um homem sensível. Antes, passava todo o tempo a olhar a multidão. Agora ele o aproveita a ler. Lê quatro páginas no caminho, não à maneira corrida. Toma tempo a meditar cada passagem. Passa por Aristóteles, Platão… Ele disse que, agora que sabe que pode, vai botar algumas ideias no papel e trazê-las para cá. Disse que todos os dias ao chegar vem averiguar se está em ordem o espaço. Ele faz vídeo-aulas de mecânica, informática, e também lê um pouco de espanhol. Estou diante do meu outro. Em posição quase idêntica estamos. Ele tem os escritos-pedra, eu os escritos-água. Entra uma mulher, depois um rapaz. Ela vira a cabeça em movimentos bruscos a cada descoberta. Ele fotografa. Neste momento, parece ter notado a sobreposição de nossas presenças – eu ele eu ele. Nossos outros envelhecem conosco. O duplo da Erika engordou, sua bunda caiu um pouco. Mari-outra também envelheceu. Apenas Filipe-outro permanece jovem? Cadê Denise que não chega? O fotógrafo registra a máscara mortuária a brotar do branco em pó. Arruda me disse que vem aqui e se perde a imaginar o que estarão a pensar esses nós-outros. Ele olha Mari-outra e diz, aquela ali está no alto de uma colina observando a paisagem. Uma toalha de piquenique ao lado, acrescento. A imaginação é infinita, concluímos. Você vai anotar isso, ele me pergunta. Digo que sim. Ele abre um sorriso. Aqui não precisamos adivinhar a vida das pessoas, como fizemos no Santana, aqui temos tempo, criamos tempo de nos encontrar com elas. Esta cozinha é um fantasma, foi demolida e não existe mais, a não ser aqui, por meio dessa existência estranha. Um dia o vento correu e bateu com força aquela porta, uma criança passou por ali a correr. Um dia correu água por aqueles canos, ao abrir da torneira. Um dia correu eletricidade entre aquelas tomadas, pelo clique do interruptor. Hoje a própria cozinha é eletricidade, arranjo de luz e sombra. Bem de perto, a grade de pixels é tremeluzente, vibra com a cidade e os automóveis ininterruptos lá fora. Mari está a conversar com meus escritos-pedra, ela chega a transcrever alguns. Ela chama minhas palavras de despudoradas e concluímos que de fato o são. Minha fala é o que já sei, meus escritos não: são tudo o que ignoro. Conto a ela a resolução dos ridículos coágulos de neurose que vertiam de mim, o celular, a mensagem equivocada… Denise chega. É hora de fazer Denise-outra.

10/12/2017

Como se tivesse vindo a vontade na hora. O que acontece na hora. Sem ensaiar. Eu não chamaria outra pessoa. 24.11.17. De volta ao Centro Cultural São Paulo, depois de três semanas. Tudo se passou, temporal, espacial, existencialmente. Denise está a ler o livrinho amarelo. Mariana e Erika não vêm. Mari está no Uruguai, Erika eu não sei, deve estar fazendo mágicas alquímicas, percorrendo campos de chá – quero fazer essas coisas que ela faz, quero ver essas coisas que ela vê. Hoje quem está conosco é o José, ele é de Santo André, acaba de chegar ao CCSP e nunca havia estado aqui. Um casal adentra o espaço a sorrir. Nossa obra agora conta com a presença de microrganismos fúngicos que tomam a forma de uma nuvem negra semelhante a um novelo de pelos – junto a duas manchas no rodapé que parecem manchas de café. As faxineiras olham para mim, eu para elas, lhes sorrio, elas de volta. Carol também veio, ela tem cólica e está a ler a Desumanização de Walter Hugo. Outro casal adentra o espaço, hoje é o dia do casal. “Olha o tamanho desta cabeça, cabe o meu braço inteiro”; “Eu tenho gesso em casa, dá para fazer umas coisas assim, você fica parado lá”. A Erika, afinal, vem – chega mais tarde. Cá estamos, de volta às nossas sextas-feiras, ao Grupo de Estudos. Vou para o terraço observar o pátio, a ver se acontece alguma coisa. A sombra do pombo lá embaixo é a mais nítida de todas, ele está a centímetros da sombra. A minha é um borrão, já que estou a uns sete metros dela. Faz um dia róseo de sol. Pego uma pena de pombo na grama. No terraço oposto há agora uns toldos que dão asas, debaixo dos quais eu fumaria um baseado. Num dia como este, a transparêncio-reflexividade dos vidros do CCSP ganha vida e aquela alegre bruxa arquiteta que projetou este lugar se regozija em seu leito. Vejo Filipe ao longe. Apreendo seu tamanho entre o polegar e o indicador, dá meio centímetro. Hoje o dia está tão ralo, mas tão ralo que nem uma rusga de potência se depreende do chão cujos poderes conhecemos. A não ser pela chegada da Erika, de relance, a falar ao telefone. Filipe está mais próximo. Dois centímetros entre o polegar e o indicador. Tiro a camisa, faz calor. Em São Paulo é como ficar nu, no Rio a nudez é a roupa das pessoas. Em Belo Horizonte é outra coisa. Filipe se deita na grama. Adolescentes profanam o pátio com seu frisbee-sem-poder, um dia realmente sem graça. E essas coreografias, esses clichês de movimento. Filipe segue deitado na grama. Erika já deve estar no espaço a esta altura. Vou para lá, pelo caminho das formigas. Que sumiram. Estranho, a grama inclusive já está a fechar a trilha. Medida de segurança? Delas? Nossa? Será que aqui andam a censurar as formigas também? A trilha abandonada, de todo modo, me leva ao Filipe, deitado na grama, eu de pé aos seus pés. Ele, a sorrir, agora mede todo o comprimento do meu palmo. De volta ao espaço. No caminho estive a pensar nas presenças que se repetem aqui e nas que não se repetem. Quais persistem, quais não. E ao chegar, encontro, em roda com Erika e Denise, o rapaz que esteve conosco no dia da cerimônia do chá. Vocês são um grupo, ele pergunta, sim, um grupo de estudos. Ele é bonito, doce, seu cabelo escuro encaracolado, seus olhos são grandes e atentos e suas bochechas estão constantemente coradas. Ouço Erika a falar de produtores artesanais de chá e me lembro do diário de Anne Frank, que passei a tarde de ontem na Casa do Povo a ler. Me surpreendi com as sagacidades dessa garota de treze anos a dobrar três vezes o professor de matemática. Um pai e um filho passam reto em direção ao terraço e logo voltam e vão embora. Rede Concepcionista de Ensino [?!] é o que está escrito no uniforme do menino que, sério, chama o pai, “Vem”. Que tipo de rede será essa? Erika e o jovem das bochechas seguem debatendo o trabalho dela com chás. Filipe fotografa os fungos. Ontem, em Sangue, Flip nos convidou para um groove no palco e depois sangrou sua existência ali, conosco em cena. Um boy empertigado passa com sua super câmera pendurada no pescoço. Tantas câmeras por aí e a compulsão fotográfica de Rodrigo. Palavras cujo significado eu sei sem exatamente saber. Espero que a Denise esteja registrando essa conversa sobre chás, pois estou distante o suficiente para ouvir, mas não o bastante para compreender. Um amigo me disse que sou tergiversador. Disse que, em termos de filhos, eu crio ideias, preconceitos e expectativas, e que a realidade está aí para romper o véu das ideias. Os monoteístas são assim, eu lhe respondi, acreditam na Realidade única, só deles, e com maiúscula. O resto, creem, é pura e simplesmente ideia. São perigosos os monoteístas. Por que você voltou, pergunta Erika a Samuel. Por você, ele diz. Erika, como Anne, tem admiradores. Ela nos coloca uma questão, como você se chama, não você, o outro, como se chama? Chama o quê? O seu outro, como ele se chama? Joe, eu digo, inspirado no Blade Runner de ontem à noite. Não, ela insiste. Quando você se refere a ele, como você o chama? Acho que chamo de ‘meu duplo’, por quê? Por que eu digo ‘o molde do Filipe’, mas o da Mari eu chamo de Mari e o meu chamo de ela. O que Samuel tem vontade de fazer no espaço? Samuel Tem vontade de mudar a projeção, projetar outras coisas além desta imagem. Erika rouba um chumaço de folhas do caixote de passarinhos. A Frase lá dentro diz “conte a história do seu último animal de estimação”. Trem bobo feito o dia. Alguém olha e diz, “era uma vez um cachorro chamado Chocolate”. Leio este texto para o Filipe, ele me lê o seu. Bons encontros ao menos. Para ele, para todos, o mesmo dia choco, estranho, sem gravidade.

05/11/2017

A tristeza é um momento de suspensão causado pela supressão das certezas quaisquer. Vou tentar resumir os coágulos de neurose que estão a verter de mim: – meu celular não funciona, isso deixa triste uma pessoa muito importante. Falta dinheiro (e vontade, é preciso dizer) para comprar um novo. Meu pai vai ver se não há, entre os amigos, alguém que tenha um aparelho sobrando. O corredor lateral do espaço expositivo acaba de se tornar vestiário. – Escrevi para a G., a contar da ideia mirabolante que tive de estabelecer com a S. um processo criativo “autoetnográfico”. Ela me respondeu, disse para conversarmos, fiquei tão empolgado que lhe respondi “– Claro!”, incorrendo na gafe-mor de usar esse adjetivo, padrão racista no interior mesmo da língua. Depois disso ela não respondeu e eu fiquei bolado. – E aí fui ler um breve texto de um direitista a esculachar uma suposta esquerda jovem elitista que anda agora a falar de “tempos sombrios”. Como de costume, quase por natureza, vesti a carapuça e fiquei a duvidar de mim. Pergunto: isto não passa de elitismo? Arte não-elitista é a que não é feita por uma elite? Tudo o que a arte pode fazer é “reproduzir” seu meio de origem? Duas mulheres pedem licença para se sentar conosco – o que viram lhes pareceu de ser visto e se sentam e tiram os sapatos e eis que – cena espontânea: Filipe e Mariana fazem corpo de espaço e tudo se instaura. Sob a existência deste lugar, pela beleza dos olhares vou até o microfone inaudível e conto em silêncio as minhas mágoas. Estou melhor, a presença de vocês… faz sentido. Erika traz consigo, num pote de vidro, nosso pó-cinza arqueográfico. Já estamos dentro do espaço, nós e as nossas visitas. Erika vai fazer-nos a cerimônia do chá – a sua cerimônia. Papel é guardanapo – copo americano é xícara, mas o modo como ela conduz aquele caneco espichado de bambu… os tradicionalistas ficam bolados com ela. Ela diz ao segurança que não ligará o fogo – a água esfria, ela liga o fogo. Mágico: estamos na cozinha.

24/10/2017

Falar na hora é mais do coração – criar na hora é o melhor caminho, ao invés de ensaiar. Depende da pessoa, do que, culturalmente, ela gosta. A proposta de hoje é ler para alguém. Mas ler o quê? Pensei, melhor escrever o que eu vou ler – mais fresco, mais vivo, você não acha? Acho. Eu sou um pedaço de uma obra de arte não-individual. Imagina o que isso quer dizer? Não. Quer dizer: “obra de arte que pega ônibus”; quer dizer: “esta obra é um bicho de quatro cabeças e a voz que estás a ouvir é a de um ser que não sou eu”. Deixa para lá. Palhaço com buzina reta (2007). Você já ouviu falar nesse palhaço? Você seria esse palhaço? – Um encontro, uma interação inesperada. Qual é mesmo a diferença entre a arte e a vida? Você tomaria um remédio para dormir? Eu não toparia porque eu sou muito agitado e tremo muito – é interessante, mas eu não conseguiria. De todo modo, deve ser um mistério – estar dentro dessa roupa. Jhonata. Minha arte é quando tento entender o ser humano – colocar-me no lugar de outras pessoas. Alguém te olhando e pensando se você existe ou não. – Sinceramente, existe diferença? O sonífero, esse eu toparia, é mais plausível para mim – tirando a oportunidade de proporcionar isso às pessoas. – Faço engenharia, mas quero sair do mesmo: me interesso por filosofia, arte. Estou meio de saco cheio desse início do curso, ainda não posso fazer nenhuma matéria que não envolva cálculo. É quando eu paro para observar as pessoas que eu me sinto um artista – eu crio. Culturalmente, eu gosto de ouvir, “repete, o rádio estava baixo, me dá licença” – acho que atrapalhei o segurança. Culturalmente, eu sou do campo, da roça, gosto de ouvir e ler coisas do sertão, da natureza. Se eu pudesse, voltava para lá hoje. O problema é a diferença entre São Paulo e uma cidade de três mil habitantes. Falta trabalho, o padrão de vida é outro, mas eu sei que a qualidade é melhor. Eu tenho um tio que passou dois dias em São Paulo e nunca mais voltou, e uma irmã que só compra sal e mais nada, o restante é tudo da roça dela – e também não viria morar aqui jamais. Imagino que nós, como seres humanos, nesse universo em expansão, cada um de nós é uma obra de arte. Porque o ser humano gosta de ser observado, de ser visto, seu brinco, sua barba. O ser humano é a obra de arte mais importante – porque ele é visível. As pessoas são vivas, o modelo está parado. O modelo dá ideia de que alguém esteve ali, a pessoa não, a pessoa não esteve, a pessoa está. Quem era Mona Lisa? Era ela? Era ele? Era o pintor? Você faria esse trabalho? Não. Imagina, ficar todo esse tempo parado. E palhaço dá medo, imagina alguém te chuta, te xinga e você aguentando, parado, sem falar nada. Pensa você dentro de uma escultura dessa, ouvindo, sem dar um pio… O segurança se livrou de mim, não deu nem tempo de perguntar seu nome. Erika e Mari estão dentro do espaço. Um homem está a ler o texto que escrevi sobre a v. da chefe do Filipe. Trazer maisena na semana que vem. No terraço, um namorado a alisar os seios da namorada – toque suave e desinibido. Pende um fio da árvore a cortar o cinza do céu. Não tem diferença nenhuma – cotidiano ou não-cotidiano. Isso tem toda uma relação com a arte, a arte do sentir, do dia-a-dia, cada dia de um jeito. A arte é isso – conseguir se transformar. Você se sente uma obra de arte? Acho que sim – sou muito relacionada com a música, tudo o que estou cantando e tocando transmite uma parte de mim. Não. Não sei explicar. Para você fazer parte de uma obra assim, ser o protagonista, você tem que ser muito forte, eu não teria essa força – todos têm seus pontos fracos. Todo mundo se deixa levar pelo que está sentindo – palhaço me assusta. E seria muito assustador ser o que me assusta, ser o meu oposto. Esse sim, eu faria, é mais tranquilo, dormir, o outro é assustador, esse é mais tranquilo… Pensando bem, é assustador – dormir diante do público, sem interação nenhuma, uma peça quase-morta, sem noção, a sonhar. Carla. Hoje não tem sol, hoje não tem sombra para invocarmos a dona-do-poder. Eu até que a tenho visto por aí, mais tranquila – sinto falta do seu poder transformador. Pode ser que sua latência tenha algo a ver com o que o Ricardo nos contou, que Adelino foi despedido na quarta-feira. Pegaram ele bêbado em serviço. Será difícil encontrá-lo? E no caminho de volta, os namorados a sarrar gostoso, mão na bunda e tudo mais. Um certo exibicionismo. As pessoas se divertem a olhar a cena. Mari encontra um amigo que acaba de passar por mim.

24/10/2017

Quadrúmanos.

24/10/2017

O eu fora, o todo dentro.