13/12/2017

Hoje eu não escrevi uma palavra sequer. Dançamos a escrita-fantasma, Erika, Mari e eu, por duas horas e meia – sensação térmica de meia. Entremeados na poeira branca, trocamos de pele. O atrito esfoliante, suporte, cuidado. Sem se dar conta, a mão adentra a terra que guarda enterradas folhas de papel e dá ao corpo de ler as pedras. Erika nos aparece das cinzas. Sobrevivente mágica. Os gestos passam por nós, os outros, duram o tempo que desaparecem. Fotografias espontâneas. Denise chega, se senta ao lado de Denise-a. Espirro giro num arco pelo chão até os olhos dela a rir. Riem. Rio. Viramos o Grupo de Estudos. Ela se junta a nós no momento em que estamos a pegar nas mãos areia, que cai devagar, ampulheta sobre o corpo que então engole Denise. Ouve-se a segurança a chamar o parceiro no rádio e dizer que aqueles dois rapazes de boné ao fundo do terraço estão fumando. Um trio adentra o espaço. Uma garota se senta ao lado de eu-o e fica a olhar nosso contorno ruinoso, maçaroca a rolar aos pés de um microfone engessado. Eu toda vez que vejo a garota lhe sorrio um sorriso de ente. A barba em pó. Ela sorri de volta um olhar entre vidrado, tranquilo e desapareço. Um rapaz está a ler das folhas que vai encontrando. O que eles querem é interação, ele diz, este espaço é aberto, ao que Mari sorri. Obrigada por hoje, Erika ensina que acabamos de viver um crescimento, a expansão das experiências de vida que se deram nesse intervalo de praticamente um mês sem experimentar a força macia do nosso movimento.

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10/12/2017

Hoje vamos moldar a Denise. Filipe acaba de deitar sua máscara mortuária no chão sobre um monte de pó branco, à saída do espaço. Um par de técnicos está a desligar as lâmpadas que cobrem o espaço. A cada lâmpada que se vai apagando, o mesmo vai se transformando – os corpos em gesso ganham volume, se destacam no escurecido. Mari está de volta, passou as últimas semanas em castelhano, está feliz em português, no qual a segurança grita conosco que não podemos mudar o banco de lugar. O meu sangue sobe com uma abordagem dessas, a Mari diz. É verdade, não precisava falar desse jeito – lhe explicamos que estamos aqui a trabalhar e num sorriso amarelo a graça se esvai. Derramo café sobre o caderno. A equipe de segurança colocou uma faixa de isolamento na lateral do espaço a ver se inibe os casais apaixonados. Mas Mari e eu sabemos que se trata de gesto preguiçoso. Além disso, somos impertinentes. Vamos até lá e arrancamo-la. Gostamos dos casais. Nova conversa com Arruda, o segurança que me contou a treta do Dória colocar a GCM no Hospital do Servidor, onde, por isso, ele não trabalha mais. Arruda demora duas horas de casa até aqui. É um homem sensível. Antes, passava todo o tempo a olhar a multidão. Agora ele o aproveita a ler. Lê quatro páginas no caminho, não à maneira corrida. Toma tempo a meditar cada passagem. Passa por Aristóteles, Platão… Ele disse que, agora que sabe que pode, vai botar algumas ideias no papel e trazê-las para cá. Disse que todos os dias ao chegar vem averiguar se está em ordem o espaço. Ele faz vídeo-aulas de mecânica, informática, e também lê um pouco de espanhol. Estou diante do meu outro. Em posição quase idêntica estamos. Ele tem os escritos-pedra, eu os escritos-água. Entra uma mulher, depois um rapaz. Ela vira a cabeça em movimentos bruscos a cada descoberta. Ele fotografa. Neste momento, parece ter notado a sobreposição de nossas presenças – eu ele eu ele. Nossos outros envelhecem conosco. O duplo da Erika engordou, sua bunda caiu um pouco. Mari-outra também envelheceu. Apenas Filipe-outro permanece jovem? Cadê Denise que não chega? O fotógrafo registra a máscara mortuária a brotar do branco em pó. Arruda me disse que vem aqui e se perde a imaginar o que estarão a pensar esses nós-outros. Ele olha Mari-outra e diz, aquela ali está no alto de uma colina observando a paisagem. Uma toalha de piquenique ao lado, acrescento. A imaginação é infinita, concluímos. Você vai anotar isso, ele me pergunta. Digo que sim. Ele abre um sorriso. Aqui não precisamos adivinhar a vida das pessoas, como fizemos no Santana, aqui temos tempo, criamos tempo de nos encontrar com elas. Esta cozinha é um fantasma, foi demolida e não existe mais, a não ser aqui, por meio dessa existência estranha. Um dia o vento correu e bateu com força aquela porta, uma criança passou por ali a correr. Um dia correu água por aqueles canos, ao abrir da torneira. Um dia correu eletricidade entre aquelas tomadas, pelo clique do interruptor. Hoje a própria cozinha é eletricidade, arranjo de luz e sombra. Bem de perto, a grade de pixels é tremeluzente, vibra com a cidade e os automóveis ininterruptos lá fora. Mari está a conversar com meus escritos-pedra, ela chega a transcrever alguns. Ela chama minhas palavras de despudoradas e concluímos que de fato o são. Minha fala é o que já sei, meus escritos não: são tudo o que ignoro. Conto a ela a resolução dos ridículos coágulos de neurose que vertiam de mim, o celular, a mensagem equivocada… Denise chega. É hora de fazer Denise-outra.

10/12/2017

Como se tivesse vindo a vontade na hora. O que acontece na hora. Sem ensaiar. Eu não chamaria outra pessoa. 24.11.17. De volta ao Centro Cultural São Paulo, depois de três semanas. Tudo se passou, temporal, espacial, existencialmente. Denise está a ler o livrinho amarelo. Mariana e Erika não vêm. Mari está no Uruguai, Erika eu não sei, deve estar fazendo mágicas alquímicas, percorrendo campos de chá – quero fazer essas coisas que ela faz, quero ver essas coisas que ela vê. Hoje quem está conosco é o José, ele é de Santo André, acaba de chegar ao CCSP e nunca havia estado aqui. Um casal adentra o espaço a sorrir. Nossa obra agora conta com a presença de microrganismos fúngicos que tomam a forma de uma nuvem negra semelhante a um novelo de pelos – junto a duas manchas no rodapé que parecem manchas de café. As faxineiras olham para mim, eu para elas, lhes sorrio, elas de volta. Carol também veio, ela tem cólica e está a ler a Desumanização de Walter Hugo. Outro casal adentra o espaço, hoje é o dia do casal. “Olha o tamanho desta cabeça, cabe o meu braço inteiro”; “Eu tenho gesso em casa, dá para fazer umas coisas assim, você fica parado lá”. A Erika, afinal, vem – chega mais tarde. Cá estamos, de volta às nossas sextas-feiras, ao Grupo de Estudos. Vou para o terraço observar o pátio, a ver se acontece alguma coisa. A sombra do pombo lá embaixo é a mais nítida de todas, ele está a centímetros da sombra. A minha é um borrão, já que estou a uns sete metros dela. Faz um dia róseo de sol. Pego uma pena de pombo na grama. No terraço oposto há agora uns toldos que dão asas, debaixo dos quais eu fumaria um baseado. Num dia como este, a transparêncio-reflexividade dos vidros do CCSP ganha vida e aquela alegre bruxa arquiteta que projetou este lugar se regozija em seu leito. Vejo Filipe ao longe. Apreendo seu tamanho entre o polegar e o indicador, dá meio centímetro. Hoje o dia está tão ralo, mas tão ralo que nem uma rusga de potência se depreende do chão cujos poderes conhecemos. A não ser pela chegada da Erika, de relance, a falar ao telefone. Filipe está mais próximo. Dois centímetros entre o polegar e o indicador. Tiro a camisa, faz calor. Em São Paulo é como ficar nu, no Rio a nudez é a roupa das pessoas. Em Belo Horizonte é outra coisa. Filipe se deita na grama. Adolescentes profanam o pátio com seu frisbee-sem-poder, um dia realmente sem graça. E essas coreografias, esses clichês de movimento. Filipe segue deitado na grama. Erika já deve estar no espaço a esta altura. Vou para lá, pelo caminho das formigas. Que sumiram. Estranho, a grama inclusive já está a fechar a trilha. Medida de segurança? Delas? Nossa? Será que aqui andam a censurar as formigas também? A trilha abandonada, de todo modo, me leva ao Filipe, deitado na grama, eu de pé aos seus pés. Ele, a sorrir, agora mede todo o comprimento do meu palmo. De volta ao espaço. No caminho estive a pensar nas presenças que se repetem aqui e nas que não se repetem. Quais persistem, quais não. E ao chegar, encontro, em roda com Erika e Denise, o rapaz que esteve conosco no dia da cerimônia do chá. Vocês são um grupo, ele pergunta, sim, um grupo de estudos. Ele é bonito, doce, seu cabelo escuro encaracolado, seus olhos são grandes e atentos e suas bochechas estão constantemente coradas. Ouço Erika a falar de produtores artesanais de chá e me lembro do diário de Anne Frank, que passei a tarde de ontem na Casa do Povo a ler. Me surpreendi com as sagacidades dessa garota de treze anos a dobrar três vezes o professor de matemática. Um pai e um filho passam reto em direção ao terraço e logo voltam e vão embora. Rede Concepcionista de Ensino [?!] é o que está escrito no uniforme do menino que, sério, chama o pai, “Vem”. Que tipo de rede será essa? Erika e o jovem das bochechas seguem debatendo o trabalho dela com chás. Filipe fotografa os fungos. Ontem, em Sangue, Flip nos convidou para um groove no palco e depois sangrou sua existência ali, conosco em cena. Um boy empertigado passa com sua super câmera pendurada no pescoço. Tantas câmeras por aí e a compulsão fotográfica de Rodrigo. Palavras cujo significado eu sei sem exatamente saber. Espero que a Denise esteja registrando essa conversa sobre chás, pois estou distante o suficiente para ouvir, mas não o bastante para compreender. Um amigo me disse que sou tergiversador. Disse que, em termos de filhos, eu crio ideias, preconceitos e expectativas, e que a realidade está aí para romper o véu das ideias. Os monoteístas são assim, eu lhe respondi, acreditam na Realidade única, só deles, e com maiúscula. O resto, creem, é pura e simplesmente ideia. São perigosos os monoteístas. Por que você voltou, pergunta Erika a Samuel. Por você, ele diz. Erika, como Anne, tem admiradores. Ela nos coloca uma questão, como você se chama, não você, o outro, como se chama? Chama o quê? O seu outro, como ele se chama? Joe, eu digo, inspirado no Blade Runner de ontem à noite. Não, ela insiste. Quando você se refere a ele, como você o chama? Acho que chamo de ‘meu duplo’, por quê? Por que eu digo ‘o molde do Filipe’, mas o da Mari eu chamo de Mari e o meu chamo de ela. O que Samuel tem vontade de fazer no espaço? Samuel Tem vontade de mudar a projeção, projetar outras coisas além desta imagem. Erika rouba um chumaço de folhas do caixote de passarinhos. A Frase lá dentro diz “conte a história do seu último animal de estimação”. Trem bobo feito o dia. Alguém olha e diz, “era uma vez um cachorro chamado Chocolate”. Leio este texto para o Filipe, ele me lê o seu. Bons encontros ao menos. Para ele, para todos, o mesmo dia choco, estranho, sem gravidade.

05/11/2017

A tristeza é um momento de suspensão causado pela supressão das certezas quaisquer. Vou tentar resumir os coágulos de neurose que estão a verter de mim: – meu celular não funciona, isso deixa triste uma pessoa muito importante. Falta dinheiro (e vontade, é preciso dizer) para comprar um novo. Meu pai vai ver se não há, entre os amigos, alguém que tenha um aparelho sobrando. O corredor lateral do espaço expositivo acaba de se tornar vestiário. – Escrevi para a G., a contar da ideia mirabolante que tive de estabelecer com a S. um processo criativo “autoetnográfico”. Ela me respondeu, disse para conversarmos, fiquei tão empolgado que lhe respondi “– Claro!”, incorrendo na gafe-mor de usar esse adjetivo, padrão racista no interior mesmo da língua. Depois disso ela não respondeu e eu fiquei bolado. – E aí fui ler um breve texto de um direitista a esculachar uma suposta esquerda jovem elitista que anda agora a falar de “tempos sombrios”. Como de costume, quase por natureza, vesti a carapuça e fiquei a duvidar de mim. Pergunto: isto não passa de elitismo? Arte não-elitista é a que não é feita por uma elite? Tudo o que a arte pode fazer é “reproduzir” seu meio de origem? Duas mulheres pedem licença para se sentar conosco – o que viram lhes pareceu de ser visto e se sentam e tiram os sapatos e eis que – cena espontânea: Filipe e Mariana fazem corpo de espaço e tudo se instaura. Sob a existência deste lugar, pela beleza dos olhares vou até o microfone inaudível e conto em silêncio as minhas mágoas. Estou melhor, a presença de vocês… faz sentido. Erika traz consigo, num pote de vidro, nosso pó-cinza arqueográfico. Já estamos dentro do espaço, nós e as nossas visitas. Erika vai fazer-nos a cerimônia do chá – a sua cerimônia. Papel é guardanapo – copo americano é xícara, mas o modo como ela conduz aquele caneco espichado de bambu… os tradicionalistas ficam bolados com ela. Ela diz ao segurança que não ligará o fogo – a água esfria, ela liga o fogo. Mágico: estamos na cozinha.

24/10/2017

Falar na hora é mais do coração – criar na hora é o melhor caminho, ao invés de ensaiar. Depende da pessoa, do que, culturalmente, ela gosta. A proposta de hoje é ler para alguém. Mas ler o quê? Pensei, melhor escrever o que eu vou ler – mais fresco, mais vivo, você não acha? Acho. Eu sou um pedaço de uma obra de arte não-individual. Imagina o que isso quer dizer? Não. Quer dizer: “obra de arte que pega ônibus”; quer dizer: “esta obra é um bicho de quatro cabeças e a voz que estás a ouvir é a de um ser que não sou eu”. Deixa para lá. Palhaço com buzina reta (2007). Você já ouviu falar nesse palhaço? Você seria esse palhaço? – Um encontro, uma interação inesperada. Qual é mesmo a diferença entre a arte e a vida? Você tomaria um remédio para dormir? Eu não toparia porque eu sou muito agitado e tremo muito – é interessante, mas eu não conseguiria. De todo modo, deve ser um mistério – estar dentro dessa roupa. Jhonata. Minha arte é quando tento entender o ser humano – colocar-me no lugar de outras pessoas. Alguém te olhando e pensando se você existe ou não. – Sinceramente, existe diferença? O sonífero, esse eu toparia, é mais plausível para mim – tirando a oportunidade de proporcionar isso às pessoas. – Faço engenharia, mas quero sair do mesmo: me interesso por filosofia, arte. Estou meio de saco cheio desse início do curso, ainda não posso fazer nenhuma matéria que não envolva cálculo. É quando eu paro para observar as pessoas que eu me sinto um artista – eu crio. Culturalmente, eu gosto de ouvir, “repete, o rádio estava baixo, me dá licença” – acho que atrapalhei o segurança. Culturalmente, eu sou do campo, da roça, gosto de ouvir e ler coisas do sertão, da natureza. Se eu pudesse, voltava para lá hoje. O problema é a diferença entre São Paulo e uma cidade de três mil habitantes. Falta trabalho, o padrão de vida é outro, mas eu sei que a qualidade é melhor. Eu tenho um tio que passou dois dias em São Paulo e nunca mais voltou, e uma irmã que só compra sal e mais nada, o restante é tudo da roça dela – e também não viria morar aqui jamais. Imagino que nós, como seres humanos, nesse universo em expansão, cada um de nós é uma obra de arte. Porque o ser humano gosta de ser observado, de ser visto, seu brinco, sua barba. O ser humano é a obra de arte mais importante – porque ele é visível. As pessoas são vivas, o modelo está parado. O modelo dá ideia de que alguém esteve ali, a pessoa não, a pessoa não esteve, a pessoa está. Quem era Mona Lisa? Era ela? Era ele? Era o pintor? Você faria esse trabalho? Não. Imagina, ficar todo esse tempo parado. E palhaço dá medo, imagina alguém te chuta, te xinga e você aguentando, parado, sem falar nada. Pensa você dentro de uma escultura dessa, ouvindo, sem dar um pio… O segurança se livrou de mim, não deu nem tempo de perguntar seu nome. Erika e Mari estão dentro do espaço. Um homem está a ler o texto que escrevi sobre a v. da chefe do Filipe. Trazer maisena na semana que vem. No terraço, um namorado a alisar os seios da namorada – toque suave e desinibido. Pende um fio da árvore a cortar o cinza do céu. Não tem diferença nenhuma – cotidiano ou não-cotidiano. Isso tem toda uma relação com a arte, a arte do sentir, do dia-a-dia, cada dia de um jeito. A arte é isso – conseguir se transformar. Você se sente uma obra de arte? Acho que sim – sou muito relacionada com a música, tudo o que estou cantando e tocando transmite uma parte de mim. Não. Não sei explicar. Para você fazer parte de uma obra assim, ser o protagonista, você tem que ser muito forte, eu não teria essa força – todos têm seus pontos fracos. Todo mundo se deixa levar pelo que está sentindo – palhaço me assusta. E seria muito assustador ser o que me assusta, ser o meu oposto. Esse sim, eu faria, é mais tranquilo, dormir, o outro é assustador, esse é mais tranquilo… Pensando bem, é assustador – dormir diante do público, sem interação nenhuma, uma peça quase-morta, sem noção, a sonhar. Carla. Hoje não tem sol, hoje não tem sombra para invocarmos a dona-do-poder. Eu até que a tenho visto por aí, mais tranquila – sinto falta do seu poder transformador. Pode ser que sua latência tenha algo a ver com o que o Ricardo nos contou, que Adelino foi despedido na quarta-feira. Pegaram ele bêbado em serviço. Será difícil encontrá-lo? E no caminho de volta, os namorados a sarrar gostoso, mão na bunda e tudo mais. Um certo exibicionismo. As pessoas se divertem a olhar a cena. Mari encontra um amigo que acaba de passar por mim.

24/10/2017

Quadrúmanos.

24/10/2017

O eu fora, o todo dentro.

15/10/2017

Me viro, bunda na terra vermelha, pés para o alto e uma perspectiva misteriosa do Centro Cultural, um recorte escheriano para dentro do qual mergulha o voo de uma ave vira-lata. Ao fundo, bem à esquerda, dois breves trechos de uma igreja mesogótica, um ser antigo surgindo detrás de chatos jovens. Um homem surge no terraço oposto, carrega um saco, parece poderoso, ele nos vê a olhá-lo, aponta-nos algo, ergue o braço, sorrio, Mari se vira a ver o que é, o homem tampa a orelha – um chamado. Erika vem, Filipe se vai. Erika tem as mãos sujas de gesso. Um canteiro – flores por vir. Erika – está descalça. A grande nuvem – vai e vem, como a polícia. O segurança surge, tudo se dissolve. Me viro para a avenida que dá numa serra enevoada pela distância, presença gigante, a ver-nos de outra era. Do buraco sai um decalque de floresta. Erika se deita de barriga através do banco. Os pés suspensos. O papel na terra. Terra.

15/10/2017

Quando começa a chover uma garrafa vazia cai no chão. Os fugitivos adentram o prédio e vêm durar conosco. Senta aqui, não pode. É passagem, este corredor precisa estar desbloqueado. Senta aqui, não pode. Encostar na parede. Sai andando. Pingam micro-gotas, metade do céu está claro, o sol nas suas costas. Volta ao lugar do acontecimento. Percebe a força escondida aqui embaixo. Nada parece saber a vibração potencial deste lugar. E nossos fiéis são discretos, todos trabalhadores, de uniforme, a empurrar em carreata seus carrinhos de limpeza. Uma mulher, um homem e Adelino, o índio de fala fácil em cujos dizeres seus colegas estão sempre interessados. Já não chove de todo. Aos pés uma trilha consolidada de formigas. Você se levanta para segui-las e vê sua sombra projetada na parede lá, alma discreta, quando, de repente, ela!, instaurada, a sair do banheiro, a dona-do-poder. Veio aproveitar os cursos d’água e lançar palavras aos passantes, depois do que ela caminha calmamente até o centro da cena, leva a garrafa à boca e ao inclinar a cabeça te olha no olho. Depois se vai, sem norma. Adelino entretém sua colega, você segue as formigas.

15/10/2017

Um diário entregue aos poucos. Um polvo gigante para um porco gigante. O meu avô era fascinado pelo pênis do porco. Filipe quer fazer o herói do rock, eu não sei se é por aí, acho que tem algo de imprescindível nesses cadernos, a Mari descobriu algo na materialidade do gesso – “eu acho que o meu maior interesse é a dança, e isso não é óbvio”. Você faria a dança de hoje? Faria.