27/10/2009

tornam

24/10/2009

Decorro de uma exatidão urgentemente inevitável, de um momento genuinamente único, porque gosto de você. Ontem furei um sinal ortográfico, sem querer. Meu propósito era ligar, nas suas vistas, o sujeito ao predicado. Através daquilo que faço. Queria escrever seu nome, seu telefone. Queria atinar pra você no Maleta. Queria lhe beijar com uma frase. Devorar-lhe com duas ou três palavras. Queria colorir seu útero de azul.

Quando um pouco varonis as palavras, frouxas se tornam.

23/10/2009

idéia

19/10/2009

No tempo em que me tornei um oral writer, tive a polêmica idéia de publicar um ensaio que, ao fim, trazia não suas referências bibliográficas, mas suas preferências bibliográficas. Alguns chegaram a me acusar de um uso traumático de artimanhas medievais que eu teria supostamente aprendido ao longo desses anos passados como aluno frente ao caderno, ao que tentei replicar anunciando a tese que desenvolveu minha avó durante seus tempos de escritora, a saber, aquela que anuncia que a cabeça explica coisas que o eu não compreende.

Ainda nessa mesma época, decidi habitar um olhar antropológico perante a incidência no espaço por parte da Internet. Criei um blog, eumeiodofim, que me ensinou o risco que se corre de não se dizer coisa com coisa. O risco de acreditar que eu, ao contrário do que me diz o outdoor de uma universidade qualquer, não sou o que faço, mas sim, faço o que sou. O risco de ser lúcido e incompreensível.

Hoje você virou uma fotografia que me ordenou que queimasse todo o resto, incluindo as diversas letras estabelecidas. Suas opiniões são agora somente as da lembrança e jamais as da similitude. No mundo dos objetos apenas uma fotografia reinventada, uma fantasia que não emite nenhuma opinião, nenhuma hipótese de pesquisa ou de tratamento.

E como eu tivesse que atender às eficácias mortuárias de senhores pareceristas, alguns de boa mãe, outros nem tanto, ousei dizer vez ou outra a respeito de um efeito textual que vim a chamar de mudança climática, uma espécie de ato falho contínuo que estaria a indicar que o limite do traço é a idéia.

que quadrado

19/10/2009

Texto leve de partes pesadas – em cada frase uma teoria. Em cada silêncio um elemento a ocupar o vazio de uma porta aberta à interpretação. Explico-me, figuras concebidas como conjuntos independentes, dispostos uns em relação aos outros. Frases reutilizadas, fragmentos justapostos de paisagens provavelmente desenhadas in loco. Orações anotadas e, posteriormente, transferidas para a composição sem levar em conta as diferenças de escala. Figuras plantadas umas ao lado das outras como estátuas. Um método de composição assimilado tão perfeitamente que se tornou praticamente um modo de pensar. A mim, como a Poussin, falta maleabilidade, doçura do efeito que causa o movimento da composição, falta-me unidade. O texto aparece assim como uma organização em segundo grau de organizações já presentes em cada detalhe. Cada figura é tão cuidadosamente pensada quanto o todo; cada uma coloca um problema do mesmo nível que a totalidade do quadro. Dissonâncias que se traduzem num enriquecimento prodigioso da sensibilidade.

para a sua chegada

16/10/2009

I’m the secret beyond the door.

Talvez uma coisa qualquer. Talvez o horror. Mas esse horror vale mais do que a constatação fria e desencantada de que não existe nada e que nada pode existir porque a imagem da palavra é uma superfície sem profundidade.

I’m the secret beyond the door.

Aconteci de nascer depois dos campos [de extermínio], depois de Hiroshima. E isso é irreversível. Homem reformatado, um sobrevivente das sociedades pós-industriais, a habitar um corpo que perdeu o lastro de seu peso.

I’m the secret beyond the door.