24/11/2009

     Há dois anos eu trabalhava no Departamento de Preservação do Central Park quando recebi, numa quarta-feira úmida, a notícia mais absurda que já me fora dedicada. Eu acabava de ganhar o maior prêmio já pago pela loteria do Estado de Nova Iorque. Os tagarelas do The New York Times corriam a notícia de que um jardineiro acabara de adquirir nada menos que 128 milhões de dólares. Na verdade, o cheque que recebi correspondia a pouco mais da metade desse valor, descontados todos os impostos. Não importa, um homem que trata de jardins não pode gostar de jornais.

     Desde então, fatos doidejados me acompanham em meu quotidiano. Descobri que um homem com dinheiro na algibeira se torna refém de suas fantasias.

     Mudei-me para o Recife, onde se encontravam meus parentes mais queridos, e me tornei, ainda na capital pernambucana, o maior paisagista do século XXI. Nessa cidade projetei vinte e quatro jardins públicos, trinta e dois privados. Entre os espaços públicos, sete tiveram o pedido de tombamento feito pelo laboratório de paisagismo da Universidade Federal de Pernambuco ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

     Eu concebia o jardim do Palácio do Campo das Princesas, quando pela primeira vez experimentei a revelação de minha consciência mais íntima numa estrutura espacial ao ar livre, construída e projetada por mim. A primeira vez que olhei para aquele jardim perfeito pensei, aí estou eu, minha própria sensibilidade inserida em uma micropaisagem de contexto próprio!

     Depois de alguns trabalhos, deduzi que esses espaços poderiam ter uma função edificante. Na praça de Casa Forte, construída na campina do antigo engenho Casa Forte, desenvolvi o primeiro jardim pós-moderno brasileiro. Num espaço composto por três lagos, destaquei a vegetação de regiões específicas da América com espécies da Mata Atlântica e Amazônia e até plantas tropicais de outros continentes.

     Na praça Euclides da Cunha, que assim denominei em homengem ao escritor de Os Sertões, tracei passeios e gramados em forma de elipse com um canteiro central dedicado às cactáceas. Essa família botânica sempre me levantou o vôo da imaginação com suas plantas pouco usuais, adaptadas a ambientes extremamente quentes e áridos. Seus caules expandidos em estruturas suculentas verdes perenes contendo a clorofila necessária para a vida são como musas insinuantes para o meu gênio criativo.

     Minha vida seguia na companhia dos jardins paisagísticos, quando, aos trinta anos, me tornei a primeira contratação do Real Madrid para a temporada. Nem goleiro, defensor ou meio-campo, tampouco atacante. Nada disso. Eu era um jardineiro de excelência.

     Tudo isso ocorreu na época do controverso treinador Juande Ramos. No período em que treinava o Tottenham, ele visitou uma vez o terreno do Arsenal. Ramos ficou tão impressionando com a relva do Emirates Satdium que fez questão de conhecer o responsável pela qualidade do retângulo de jogo. Eu estivera meses antes na Inglaterra prestando assessoria ao clube baseado em Holloway, no insípido norte de Londres. Já não sabia mais como despender todo aquele dinheiro quando certa tarde, lendo desnecessidades derivadas da Internet, compreendi que o único clube a ganhar a Premier League sem perder nenhuma partida merecia um gramado sem precedentes.

     Na temporada seguinte meu grande objetivo foi, assim, colocar a relva do velho Bernabeu em condições perfeitas.

     Concluído o trabalho, voltei a Recife e decidi retomar uma atividade há muito abandonada: a fotografia.

18/11/2009

poesia concreta

15/11/2009

Um dia pressenti [sou um personagem que gosta desse ator que lhe copia a consistência]. Nesse dia pensei [meu referente se tornou o amor]. Apressado pelas novidades, toquei pela primeira vez com os pés o chão [acabara de voltar de uma viagem a São Paulo e havia prometido a Pamela que meu texto não possuía sequer uma referência]. Enquanto isso um homem de locução viciada afirmava pelo rádio que [há três mulheres numa fotografia] todas elas têm o mesmo sorriso [que presumo ser o meu próprio]. Naquele dia fui alvo de um abalo sísmico [minhas placas tectônicas fizeram mudar de lugar].