marceneiro de deus

28/12/2009

Faz muito tempo que não escrevo. Curiosamente, desde que manifestei pela primeira vez o amor, as palavras passaram a repudiar-me e tornaram-se seres confusos e faltosos de brilho.

Tenho muito a dizer e suponho que estou a ponto de embaralhar a vida da leitora que me vier rogar qualquer nexo. A ela, privativamente, peço desculpas. Reconto nacos de uma história contra a qual se chocam as ondas do mar. Verbos presentes de uma eletroencefalografia.

****

Sou marceneiro. Um hábil marceneiro. Não apenas desenho, como tenho sensibilidade para saber qual o melhor modelo, qual a melhor forma de execução do projeto. Sou capaz de apresentar, isso me afirmam os fregueses, soluções inovadoras com qualidade, design, tecnologia, rapidez e preços competitivos.

Tenho algum valor. E é preciso que eu o diga. Não sei ao certo por que razão. Há algo de especial no meu trabalho e dizê-lo não exatamente me enaltece. Enfim, você saberá se tem ou não algo a ver com isso.

É que sou bom ouvinte, presto atenção aos caprichos do cliente a fim de satisfazê-lo. Meu portifólio está disponível a quem o queira comprovar, como também o estão meus clientes e a satisfação com que lhes atendo.

Além do mais escrevo por ordens do psicólogo que frequento desde janeiro.

****

Aos vinte anos deixo a casa de meu pai e levo minha mãe comigo. Alugo uma casa num típico pátio situado no número 49 da Rua da Páscoa, em Campo d’Ourique, Freguesia de Santa Isabel, casa em que vivo até o último sopro de minha vida.

Tenho três paixões, Leonor, Aurora e Palmira, e um amor, Judite. Judite de Sousa Figueiredo, minha companheira até o fim dos meus dias. A ela agradeço pelo carinho e pela sabedoria. Com ela aprendo a amar.

Judite é cantora de fado, fadista portanto. Uma vez escrevo-lhe um poema que creio copiar de um folhetim qualquer. Mando gravá-lo numa placa, que lhe ofereço como sinal de admiração:

Tem na garganta um não sei quê estranho,
Que perturba e  faz cismar:
É dor? É medo?Visões d’antanho?
Amor? Ciúme? É choro? É gargalhar?

Voz do fado – dizem – e eu convenho

Que ande na sua voz a voz do mar,
Onde Portugal se fez tamanho
E aprendeu a cantar e a soluçar.

****

Aos trinta anos visito pela primeira vez meus primos brasileiros, em Natal, onde sou vítima de uma descarga elétrica. À época, de acordo com o boletim médico, enviado numa tarde de quarta-feira, tenho uma lenta melhora e devo retirar os aparelhos em breve.

Estou no hospital desde o dia 4 de dezembro. Sou submetido a uma avaliação eletroencefalográfica. No jornal, Judite lê, o marceneiro português teve uma parada cardiorrespiratória após ter sofrido uma descarga elétrica por ter tocado em um fio descapado no camarote Natal 2014, onde prestava serviço durante o Carnatal. Ele foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência [Samu] e internado no Hospital Promater. Desde então, como me informam os especialistas, tenho sérios problemas com a conjugação dos verbos. Um neurologista me aconselha, assim, por via das dúvidas, a utilizar o presente e a viver sob o imperativo do tempo atual, que sequer existe.

O  Relatório de Vistoria Técnica do  Corpo de Bombeiros aponta que o  camarote Natal 2014 realiza uma modificação na parte elétrica sem prévio aviso ao profissional responsável no dia do acidente. É constatado ainda que não estou em uso de qualquer Equipamento de Proteção Individual [EPI] no momento em que troco a instalação elétrica do camarote.

“Papai está com a sorte enguiçada”, escreve minha filha em seu diário.

****

Pouco tempo depois do acidente, entro em contato com os Menonitas, um ramo dos Anabatistas, movimento que surge na Europa na época da Reforma. Escrevo também em cumprimento à grande comissão do Senhor Jesus: “lde por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” [Marcos 16: 15]. É a religião o que me restitui firmeza para seguir em frente.

Para nós menonitas, a igreja deve ser formada a partir de membros batizados voluntariamente. Mas isso não é tolerado pelo Estado e tampouco pela igreja católica.

O testemunho pessoal e a perseguição religiosa levam os anabatistas e a nova doutrina a diferentes países da Europa, surgindo igrejas inicialmente na Suiça, Prússia, Áustria e Países Baixos. Neste último, um dos grandes líderes anabatistas é Menno Simons [1496-1561], cuja influência sobre o grupo é tão profunda [moderada para alguns] que seus adversários passam a chamar aos anabatistas de “menonitas”.

****

Creio na Bíblia como única autoridade de fé e conduta. Creio em Jesus Cristo como o único mediador entre Deus e os Homens. Creio nas necessidades da coversão e batismo voluntário. Creio na vida baseada nos ensinamentos de Cristo. Creio na missão salvadora de Cristo. Creio na volta iminente de Cristo para buscar o Seu povo. Sou um marceneiro de Deus. Se você precisar de móveis de madeira, basta proceder às palavras ou aos sinais para que eu venha ao seu encontro.

Anúncios

Santiago

16/12/2009

Prezados Professores, gostaria de tecer uma breve introdução a este texto que, formalmente, recebe o nome de trabalho, mas que, efetivamente, é uma viagem. Minha intenção é aqui realizar uma bricolagem, à maneira de um esboço selvagem, em que cada substância seja suplementar uma à outra. Michel Leiris, Leví-Strauss e Derrida me fazem companhia nessa pequena jornada silvestre a caminho de uma literatura antropológica cuja feição é, também, seu próprio assunto, cuja temporalidade, mítica, é simultaneamente periférica, reversível e inalcançável. Assim como numa corrida de tora, meu desejo não arde em direção a qualquer espécie de pódio. Meu anseio se resume a correr bem, pois a chegada desperta menos interesse que a corrida em si.

10/12/2009

um, dois, três

10/12/2009

Um dia a loucura bateu à minha porta e eu, sem acreditar que se tratasse mesmo dela e não de uma falsária, deixei-a entrar. A loucura, que mora nesta casa desde então, nunca se comportou enquanto tal, em momento algum. Não bate bem mesmo.

assim

07/12/2009

Se ela me diz assim, eu respondo, assim como se eu não sei o que é ter tua língua entre meus dentes, como, se eu não sei o que é ter teu nariz entre meus olhos, como, sem saber o que acontece, sem saber o quanto do teu é meu, como, sem se despir, como, sem se ferir assim.

04/12/2009

segunda linha

01/12/2009

Descobre-se que o texto a seguir bem poderia ser uma carta. Porém uma carta que, assimetricamente, possui destinatário sem possuir remetente. Uma carta só de ida, que é também uma confissão – um temor que é fascínio, não pelo desconhecido, mas pelo que sei sem exatamente saber. Descobre-se que o texto a seguir resulta de uma prática probatória, que põe à prova a prova científica através de uma feminilidade. Inutilidade útil. Um manifesto masculino. Uma força que faz de minhas palavras instantes miraculosos de um olhar que petrifica a si e que contém nesse porvir pedra o início de sua aspiração liberta.