marceneiro de deus

28/12/2009

Faz muito tempo que não escrevo. Curiosamente, desde que manifestei pela primeira vez o amor, as palavras passaram a repudiar-me e tornaram-se seres confusos e faltosos de brilho.

Tenho muito a dizer e suponho que estou a ponto de embaralhar a vida da leitora que me vier rogar qualquer nexo. A ela, privativamente, peço desculpas. Reconto nacos de uma história contra a qual se chocam as ondas do mar. Verbos presentes de uma eletroencefalografia.

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Sou marceneiro. Um hábil marceneiro. Não apenas desenho, como tenho sensibilidade para saber qual o melhor modelo, qual a melhor forma de execução do projeto. Sou capaz de apresentar, isso me afirmam os fregueses, soluções inovadoras com qualidade, design, tecnologia, rapidez e preços competitivos.

Tenho algum valor. E é preciso que eu o diga. Não sei ao certo por que razão. Há algo de especial no meu trabalho e dizê-lo não exatamente me enaltece. Enfim, você saberá se tem ou não algo a ver com isso.

É que sou bom ouvinte, presto atenção aos caprichos do cliente a fim de satisfazê-lo. Meu portifólio está disponível a quem o queira comprovar, como também o estão meus clientes e a satisfação com que lhes atendo.

Além do mais escrevo por ordens do psicólogo que frequento desde janeiro.

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Aos vinte anos deixo a casa de meu pai e levo minha mãe comigo. Alugo uma casa num típico pátio situado no número 49 da Rua da Páscoa, em Campo d’Ourique, Freguesia de Santa Isabel, casa em que vivo até o último sopro de minha vida.

Tenho três paixões, Leonor, Aurora e Palmira, e um amor, Judite. Judite de Sousa Figueiredo, minha companheira até o fim dos meus dias. A ela agradeço pelo carinho e pela sabedoria. Com ela aprendo a amar.

Judite é cantora de fado, fadista portanto. Uma vez escrevo-lhe um poema que creio copiar de um folhetim qualquer. Mando gravá-lo numa placa, que lhe ofereço como sinal de admiração:

Tem na garganta um não sei quê estranho,
Que perturba e  faz cismar:
É dor? É medo?Visões d’antanho?
Amor? Ciúme? É choro? É gargalhar?

Voz do fado – dizem – e eu convenho

Que ande na sua voz a voz do mar,
Onde Portugal se fez tamanho
E aprendeu a cantar e a soluçar.

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Aos trinta anos visito pela primeira vez meus primos brasileiros, em Natal, onde sou vítima de uma descarga elétrica. À época, de acordo com o boletim médico, enviado numa tarde de quarta-feira, tenho uma lenta melhora e devo retirar os aparelhos em breve.

Estou no hospital desde o dia 4 de dezembro. Sou submetido a uma avaliação eletroencefalográfica. No jornal, Judite lê, o marceneiro português teve uma parada cardiorrespiratória após ter sofrido uma descarga elétrica por ter tocado em um fio descapado no camarote Natal 2014, onde prestava serviço durante o Carnatal. Ele foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência [Samu] e internado no Hospital Promater. Desde então, como me informam os especialistas, tenho sérios problemas com a conjugação dos verbos. Um neurologista me aconselha, assim, por via das dúvidas, a utilizar o presente e a viver sob o imperativo do tempo atual, que sequer existe.

O  Relatório de Vistoria Técnica do  Corpo de Bombeiros aponta que o  camarote Natal 2014 realiza uma modificação na parte elétrica sem prévio aviso ao profissional responsável no dia do acidente. É constatado ainda que não estou em uso de qualquer Equipamento de Proteção Individual [EPI] no momento em que troco a instalação elétrica do camarote.

“Papai está com a sorte enguiçada”, escreve minha filha em seu diário.

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Pouco tempo depois do acidente, entro em contato com os Menonitas, um ramo dos Anabatistas, movimento que surge na Europa na época da Reforma. Escrevo também em cumprimento à grande comissão do Senhor Jesus: “lde por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” [Marcos 16: 15]. É a religião o que me restitui firmeza para seguir em frente.

Para nós menonitas, a igreja deve ser formada a partir de membros batizados voluntariamente. Mas isso não é tolerado pelo Estado e tampouco pela igreja católica.

O testemunho pessoal e a perseguição religiosa levam os anabatistas e a nova doutrina a diferentes países da Europa, surgindo igrejas inicialmente na Suiça, Prússia, Áustria e Países Baixos. Neste último, um dos grandes líderes anabatistas é Menno Simons [1496-1561], cuja influência sobre o grupo é tão profunda [moderada para alguns] que seus adversários passam a chamar aos anabatistas de “menonitas”.

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Creio na Bíblia como única autoridade de fé e conduta. Creio em Jesus Cristo como o único mediador entre Deus e os Homens. Creio nas necessidades da coversão e batismo voluntário. Creio na vida baseada nos ensinamentos de Cristo. Creio na missão salvadora de Cristo. Creio na volta iminente de Cristo para buscar o Seu povo. Sou um marceneiro de Deus. Se você precisar de móveis de madeira, basta proceder às palavras ou aos sinais para que eu venha ao seu encontro.

Santiago

16/12/2009

Prezados Professores, gostaria de tecer uma breve introdução a este texto que, formalmente, recebe o nome de trabalho, mas que, efetivamente, é uma viagem. Minha intenção é aqui realizar uma bricolagem, à maneira de um esboço selvagem, em que cada substância seja suplementar uma à outra. Michel Leiris, Leví-Strauss e Derrida me fazem companhia nessa pequena jornada silvestre a caminho de uma literatura antropológica cuja feição é, também, seu próprio assunto, cuja temporalidade, mítica, é simultaneamente periférica, reversível e inalcançável. Assim como numa corrida de tora, meu desejo não arde em direção a qualquer espécie de pódio. Meu anseio se resume a correr bem, pois a chegada desperta menos interesse que a corrida em si.

10/12/2009

um, dois, três

10/12/2009

Um dia a loucura bateu à minha porta e eu, sem acreditar que se tratasse mesmo dela e não de uma falsária, deixei-a entrar. A loucura, que mora nesta casa desde então, nunca se comportou enquanto tal, em momento algum. Não bate bem mesmo.

assim

07/12/2009

Se ela me diz assim, eu respondo, assim como se eu não sei o que é ter tua língua entre meus dentes, como, se eu não sei o que é ter teu nariz entre meus olhos, como, sem saber o que acontece, sem saber o quanto do teu é meu, como, sem se despir, como, sem se ferir assim.

04/12/2009

segunda linha

01/12/2009

Descobre-se que o texto a seguir bem poderia ser uma carta. Porém uma carta que, assimetricamente, possui destinatário sem possuir remetente. Uma carta só de ida, que é também uma confissão – um temor que é fascínio, não pelo desconhecido, mas pelo que sei sem exatamente saber. Descobre-se que o texto a seguir resulta de uma prática probatória, que põe à prova a prova científica através de uma feminilidade. Inutilidade útil. Um manifesto masculino. Uma força que faz de minhas palavras instantes miraculosos de um olhar que petrifica a si e que contém nesse porvir pedra o início de sua aspiração liberta.