music television

30/04/2010

Trajo preguiça. Meu ponto de vista é um desastre. A gostosona da repartição bamboleia o bandão de lá para cá. Eu esboço uma escrita cinematográfica. Confissões surrealistas. As moças da cantina debatem a atuação gordalhona do fenômeno na noite anterior. Um aborrecido em suspensão. Estou mal humorado. Aguardo a notificação de que não, os móveis não vêm; os móveis jamais virão; desabrigado outra vez! Bertha ganhou uma samambaia. Eu quero uma samambaia. O Galo sopeou o Santos e Goulard me impeliu a uma breve adulteração do post anterior. Hoje presenciei sucessivamente um mesmo videoclipe. Composição exata como um golfinho sorrindo para mim do meio do mar roxo. Hoje constatei a programação da viradela cultural. Pachorra só de ver. São treze mil e uma atrações em dois dias. Uma para cada obeso dessa cidade. Cansei de escrever, pode desenhar? Eu concedo a uma parte do que pratico o estatuto arriscado de arte e creio que, ao invés de um delito, isso não passe de um sobressalto. Uma mera questão de acolhimento. No centro histórico da página reciclada me deparei com um fio da sua sobrancelha de Helena. Faz algum frio, é hora de me agasalhar e aprender a só ser. Falta mais de uma hora para o início da aula e eu tenho vontade de fazer absolutamente nada. Quanta gente torpe. Admiro a surpreendente capacidade que meu corpo tem de fazer duas três mil coisas ao mesmo tempo. Cartier-Bresson era budista. Ando querendo ser também. Bertha acaba de solucionar em dois palitos um problema que teria me consumido uma canoa. Hoje conheci um companheiro de sala muito bacana. Fotógrafo, inteligente e cineasta. Divulguei a ele o íntimo propósito de me tornar uma espécie de colaborador profissional. Um perito em cooperações artísticas. Pouco me interessa a autoralidade da elaboração criativa. Quero ocupar processos. Preciso confessar que adoro as vinhetas da Music Televison. Hoje me encantei com as traquinices de Geraldo de Barros.

Geraldo de Barros

30/04/2010

homem

28/04/2010

Dia alheio. Um pouco entornado. Dia à espera do dia seguinte. Extremistas de modo geral são chatos. Mas é essencial permitir-se vez ou outra o luxo de ser radical. Francamente, que se dane o resultado. Time retranqueiro é muito deselegante. Eu sou absolutamente contra. O futebol burocrático me mortifica. Ouvi de um professor recentemente, depois que a seleção canarinho de oitenta e dois perdeu a copa, o burocracismo se acomodou e o mundo então sobrou pior. Quero ver Galo e Barcelona! Hoje comprei um presente em agradecimento a Maitê e à grandeza do seu coração. Um sabonete de guaraná e um aromatizante de bergamota. Amanhã, se o céu não desmoronar, é dia de mudança. Bertha segue enchendo os olhos de ilustrações. Nanda Ortiz segue fartando as cucas de perguntas. Hoje no metrô a garotinha interrogava seu progenitor, “– Papai, por que você é homem?”.

renda

27/04/2010

planeta

27/04/2010

Hoje visitei uma terra farta de margaridas de papel, “ela foi sarcástica. Ele se intimidou […] ai de quem não rasga o coração”. Ontem os presságios de Nanda Ortiz se tornaram reais e me vi a converter minha insonolência em palavras outra vez. El tercer cigarillo del insomnio se quemaba en la boca de René sentado en la cama […] se apartó poco a poco, pensó que la noche iba a ser larga y se puso a escribir. Ainda assim consegui acordar cedo. Completei a missão bilhete único de estudante e dentro em pouco estarei economizando uma fortuna com transporte. Além do mais volto a custar meia entrada. Falei com Bertha ao telefone. A virulência abrandada da vacina deixou-a de cama. Hoje visitei as Casas Bahia. Subornei a escrivaninha mais fajuta que encontrei. Setenta e nove arraiais. Amanhã um caminhão recolhe alguns moveis numa casa da Pampulha e os escolta até o Bom Retiro. Quantas vezes eu já escrevi “me mudo tal dia”. Hoje comi em demasia. Quinta-feira tio Ronald contou que tenho sangue judeu. Vai ver que ainda dou certo na vida. Sábado Fabian contou uma história a respeito das funções cerebrais. A natureza segue autenticando a poesia. Eu sigo sendo parte do planeta.

folgada

27/04/2010

Hoje sonhei que lecionava à sobrinha que não tenho os paradoxos do pensamento ocidental. Eu principiava com uma imagem. Como determinar o comprimento de uma cobra? Muito provavelmente em nem um só momento de sua vida uma cobra se espicha inteiramente de uma extremidade a outra, e nem eu ousaria espichá-la para medir-lhe a extensão. O sentido da ciência é a desidratação do objeto, afinal é preciso dessecar para lograr o saber. Somente através de uma adulteração de seu modo próprio de ser é que se pode verificar, tendo por base uma escala fixa, a extensão de uma cobra. É preciso abrir com uma história. Estes textos, cujo substrato é notadamente minha própria existência, são capazes de alterar contudo o estatuto da minha vida. As palavras se valem daquilo que alteram. No ônibus, o sujeito detrás de mim está fulo da vida com tal Denílson, “– Falei pra ele não contar pro papai. Cabaço”. Hoje o locutor metroviário mudou o tom, “– Tente entrar depois do sinal pra você ver o que acontece”. Pelé acaba de chamar Gisele Bündchen de folgada.

27/04/2010

carne é osso

27/04/2010

Estranho-me. Belo Horizonte proporcionou acontecimentos suntuosos. Tenho medo do que ignoro. Vejo-me amanhã defronte a este mesmo diário, alta noite, a escrever, “casa nova, hoje fiz isso e aquilo”. Vontade de falar com Bertha. Portugal começa a se transformar no único país europeu que, com efeito, me apeteceria não apenas conhecer como vir um dia a habitar. Sábado à noite, antes da folia, ocasionamos Fabian, Liddy, Bertha e eu certa demora pelo terraço da Escola de Biologia. Nalgum momento, Fabian nos revelou que não tinha lá grande afeição por uma tela que restava largada num cafundó sombrio. Tratamos de buscá-la. Tanto dissemos de sua estranha beleza que ela se fez familiar. Terminou a noite metida numa parede aparecida. Uma gaiata acaba de me interrogar, “– Você não tem medo?”. O medo é o tema de hoje. É preciso ler Michael Taussig. Acabo de assistir Crônica de um Verão, trajando o olhar de outro. É que após sugerir a Fabian essa fita, acabei consumindo parte dela à procura de suas possíveis impressões. Amei o filme. Com os meus e com os olhos dele. Num dado momento, Mary Lou apanha a seguinte pergunta, “– Porque reduzes  tudo a ti?”. No sábado, pela manhã e casualmente, acompanhamos Bertha e eu A Mulher Invisível, que por um triz não chamou minha atenção, senão por um sutil estratagema. Ao decidir-se terminantemente pela fantasia, personificada por uma amante invisível, Pedro é por ela arrastado, literalmente pelo braço, à real concretude de sua felicidade por vir – uma amante de carne e osso.

arte rupestre

25/04/2010

Revolvendo Belo Horizonte. Tudo em quatro dias. Há aqui um próprio de lá. O projeto de mestrado começa a ganhar um corpo saboroso. As questões me agradam. Hoje almocei com Mama-ô-mama e maquinamos, para diversificar, um bate-papo no encalço dos pendores atemporais das novas gerações, que de acordo com ela, seguem extraviando as insinuações cronológicas dos fatos. Comentamos Bob Dylan e seus andamentos desajustados. Marcelo Camelo, Tom Zé e Macaco Bong assinam a trilha sonora de hoje. Também não agüento essa mania danada de falar tão sério, de parecer tão sério, de ser tão sério, de amar tão sério, de sorrir, de chorar, de brincar tão sério. Escrevo numa cômoda poltrona instalada no meio de um corredor do BH Shopping. Daqui a pouco visito Vó Tetéia, que é muito mais pós-moderna do que eu. Ela tem um aparelho eletrônico de última geração alojado no peito. Eu, na melhor das hipóteses, tenho um barbeador elétrico. Voltei a fotografar. Talbot, em poses totêmicas, serviu-me de modelo. Os projetos se propagam. Hoje à noite me encontro com Michelangelo e Madalena, meu casal predileto. Madalena me proporcionará um relato hilariante a respeito de brocas, martelos e parafusos. Goulard, particularmente, vai gostar muitíssimo. Cambiei o diário. O anterior expirou. Faço uso do primeiro presente que Bertha me deu, um caderno gracioso que ela mesma fabricou, com páginas craft. Havia algumas frases dispersas rabiscadas nele. Deparei-me também com alguns desenhos ancestrais. Arte rupestre. Tudo ligado. Pensamentos são ocasiões. Nanda Ortiz me relata um mito recentemente instaurado. Atualizado, ele se resume em uma frase, “– René, faz o seguinte, dá uma cagada, toma um banho, e some daqui”.

parafuso zoado

23/04/2010

Nossa, minha mãe é muito mal-humorada. Quero ser avó, mas agora não. Minha filha não sabe nem tirar o carro da garagem, vai ser mãe? Tive que ligar pro meu pai hoje. Eu entalei o carro na garagem. Você acredita? É triste morar sozinha e ser burra. Falei, pai, pelo amor de deus, vem tirar o carro. Eu já tinha arranhado o carro dele antes. Umas três vezes por mês eu uso o carro dele, pra fazer compra pesada pra casa. É tristeza. Peguei o carro e vim parar aqui. Já tinha arranhado mês passado, o carro entalou, eu já liguei, pai, vem tirar o carro. Eu sou a pessoa que mora sozinha mais dependente. Nunca fui tão dependente do meu pai e da minha mãe igual agora que eu moro sozinha. Terrível. Na casa do meu pai que tinha furadeira, martelo e prego. Se quiser pregar um quadro tem que ir lá pedir. Olha isso, que tristeza. É engraçado. O povo fica rindo, as pessoas que vêem. Saiu de casa, mas ainda é uma menina. E eu lá, com aquela cara de junky. E eles não deixam a gente pegar na furadeira. Eles têm uma coisa com a furadeira que você não pode. Neguinho não vai deixar a filha encostar na furadeira dele. Eu vou comprar uma furadeira aqui pra casa. Vamos furar essa casa toda. Eu vou destruir. Mas é isso, morar sozinho é essa dádiva, consertar privada estragada, chuveiro queima. Semana passada queimaram todas as lâmpadas aqui de casa. E aqui nem tem escada. Tem que botar o banco em cima do banco e tirar o lustre. E tudo tem lustre. Os parafusos todos zoados.