auto retrato

25/05/2010

férias

22/05/2010

Eu estou bem, doutor.
[silêncio]
E qual seria, então, a razão da consulta?
É minha literatura.
O que tem ela?
Voltou a fumegar. Está tossindo feito um cachorro.
[silêncio]
Desde quando está assim?
Desde que lhe repreenderam as últimas cabriolas.
[silêncio]
Come bem?
Muita fruta, muito leite. Qualquer cachaça.
Divertimento, tem tido?
Menos. Trabalha em demasia.
 
[O doutor rabisca qualquer coisa.]
 
Aqui está.
O que é isso?
Prescrição médica para fins desanuviantes.
Um mês de férias?!

linguagem

21/05/2010

O motivo da noite anterior foi meu companheiro de apartamento, que, claro, não se encontrava. Mal sabe ele que tanto falamos do que não sabemos a seu respeito. Está tocando Nouvelle Vague. De ontem em diante vivo num apê kitsch. As classificações aquietam o coração. Hoje segui os conselhos de Bertha. Saquei minha vara de pescar e da varanda mesmo fiz a feira. Amanhã preparo uma sopa de tolice cuja fórmula me transmitiu o vendedor de ovos cósmicos. Três sujeitos adentram uma padoca. Eu, pão de queijo e café. Eles, cachaça e conhaque. Hoje distingui meu nome numa ficha técnica acompanhado da honrosa alcunha de colaborador. Hoje a ressaca me acordou sem laranjas. Tomei três copos d’água, lavei a louça da noite passada e voltei para a cama. Estou lendo o que parece ser o primeiro romance de Machado de Assis, Ressurreição. Ainda não sei no que vai dar essa trama. Aguardo ansiosamente algum acontecimento surpreendente. Está tocando Norah Jones. Hoje eu errei por muito o cálculo da circunferência da Terra e levei três meses para completar o percurso para o qual previra três dias. Hoje, como Barthes, morri atropelado por mim mesmo. Enviei a G’ogan a seguinte mensagem: uma parte do corpo que te defina hoje agora, a qual ele respondeu: cu. Os ruídos seguem tornando-se linguagem.

19/05/2010

Flusser

19/05/2010

Hoje aprendi que a entropia é uma tendência a situações cada vez mais prováveis. Que a imagem é uma superfície significativa na qual as idéias se inter-relacionam magicamente. Que a magia é a existência no espaço-tempo do eterno retorno. Que a realidade é tudo contra o que esbarramos no caminho à morte, portanto, aquilo que nos interessa. Que o rito é o comportamento próprio da forma de existência mágica. Que o significado é a meta do signo. Que o signo é o fenômeno cuja meta é outro fenômeno. Hoje aprendi que a cultura ocidental é tudo o que se perde da lembrança quando fechamos o livro. O restante é do que a agente se lembra. Hoje aprendi que a fotografia é sempre uma metade. Da outra metade se encarrega o olhar. Enquanto isso, vagueiam as palavras pelas superfícies do mundo.

Jane Fonda

19/05/2010

Hoje renunciei à administração das palavras. O limite da história é a resistência do corpo. Onde estará Nanda Ortiz? Eu preciso lhe contar que o governo de São Paulo tirou do papel trinta e um novos trens. Preciso lhe dizer que G’ogan enviou-me hoje a seguinte mensagem: uma palavra que te resuma hoje e agora, a qual respondi: Jane Fonda, seja você quem for, é preciso dormir uma hora.

[Não, eu não estou bêbado]

19/05/2010

A varanda me deleita com a rua. Os passantes não ousam olhar para cima, não se dão conta do sujeito que lhes vela a imanência. Um tipo negro, uniforme cor de safira, sibila uma melodia, sei que vou morrer não sei a hora. Um par gracioso de gaiatas desliza à procura das especiarias têxteis do Bom Retiro. Um sofá velho passeia numa carroceria. Os objetos se deslocam. Bertha me relata o mito do trecho de trama que, prodigiosamente, se transfigura numa calça prega-marreco, um forro de escabelo e um filme de faroeste. Tudo isso na duração de um tabaco. Hoje aderi a um movimento em prol da irresponsabilidade perspicaz, quase impalpável. Rebeldes imperceptíveis.

reassemblage

18/05/2010

Resumindo, um entusiasmo fora do comum. Depois de dois meses veementemente minimalistas, sem forma nem conteúdo, uma suspeita diante desses móveis enormes que são uma cama e um armário. Para o meu eterno desajuste qualquer conformidade é um custo. Hoje, ao passo que beirava o surrealismo etnográfico, deparei-me com a análise química de um pesquisador sobre a composição de um corpo humano: ferro o bastante para fazer uma unha, açúcar o bastante para uma xícara de café, magnésio suficiente para tirar uma fotografia, e assim vai – valor de mercado: 25 francos. Deparei-me também com um verbete para o variável símbolo rouxinol, que começa assim, exceto em casos especiais, isso não tem nada a ver com um pássaro [: 151]. Hoje inferi que para um cabaço de 26 anos eu já raciocinei demais. Ando propenso à prática. Não deixo de estudar contudo. Hoje Papito e eu conversávamos sobre passar meu trabalho às mãos de um editor. Tenho uma música do Eddie na cabeça. Desequilíbrio. Hoje alguns colegas e eu apresentamos um seminário sobre um filme chamado Reassemblage, durante o qual me transfigurei em Trihn T. Mihn-ha. Hoje, meditando a vinculação com o observador, com o público, com os olhos que concebem acontecimentos extraordinários, que dispõem criaturas em transe, que entoam fados, Nita se lembrou de um trecho de Borges: ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas […] eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não seja de alguém, nem sequer do outro, mas da linguagem ou da tradição. Bertha me indagou, que é isso, “Trihn T. Mihn-ha”? Nanda Ortiz repetiu-me mais que devia, “– Vem, vamos morrer só depois”. Hoje dei ouvidos à música de um Coletivo Dinamite e agradei muitíssimo.

18/05/2010