30/08/2010

jacques

30/08/2010

Escrevo por um desconsolo do qual seu último e-mail me acordou. Evidente, tanto pra mim quanto pra você, que minha prática acadêmica [ainda – talvez] está distante das exigências de um projeto ao qual impõe seu tempo a dinâmica do mercado. Essa experiência me foi contudo imensamente útil. A partir dela cheguei a conclusões valiosas a respeito do meu próprio fazer. É difícil vender uma mão de obra a cujos itens falta o mérito da objetividade, seja ela estatística, conceitual. Eu trabalho com a comunicação, porém trabalho com a comunicação enquanto “um equívoco bem sucedido”. Medito através das palavras para atribuir-lhes, cientificamente, poesia. E o que tentei fazer com meus textos, talvez sem muito êxito, foi despertar o andamento do trabalho para possibilidades imprevisíveis, suscitar alguma reflexão que gerasse, ainda que de maneira oculta, bons frutos, inspirar movimentos sutis que não entrassem necessariamente em evidência, mas que estivessem por ali, invisíveis e ao mesmo tempo concretamente potentes. Tentei, com prazer, produzir alguma coisa proveitosa. Não sei se superestimamos meus conhecimentos. E não sei o quão valiosos poderiam ser numa nova oportunidade. Talvez possamos partir de proposições menos pretensiosas para não haver sustos. Enfim, estou à disposição para novos projetos, para novas conversas, novas trocas de idéias, e além do mais estou com saudade. Um abraço honesto. Jacques.

29/08/2010

Québec

29/08/2010

Este texto é a tradução livre [mas não tão livre assim] de uma outra tradução, que realizei para um texto de Léa Perez. Do português para o inglês para o português.

Sincretismo religioso e cultura nomádica na contemporânea sociedade brasileira

Léa Freitas Perez

Introdução

Múltiplas formas de organização são as condições tramadas pela história do Brasil, marcada e modelada pela pluralidade de seus códigos e registros culturais. Em outras palavras, multiplicidade é um estado inerente ao modo de ser e estar da sociedade brasileira.

Nossa estrutura social é irredutível a uma unidade global, fixa, imutável. Jean Duvignaud assinala que “o Brasil é uma nação, seus habitantes alegam ser brasileiros, mas a diversidade de grupos e laços entre eles não está baseada em uma visão geral, que seria duplamente abstrata e imprecisa. Nesse país a experiência coletiva é resistente a reduções. Sensualidade e paixão conformam todos os tipos de troca, da violência à delicadeza – fato que frequentemente desafia esquemas estatísticos demasiadamente classificatórios”. [1992: 7, 8].

E isso funciona? Manifestamente sim. Mas como?

O que faz do Brasil o Brasil, seguindo as palavras de Roberto DaMatta [1986], é um sincretismo religiosamente complexo, mesclado de nomadismos culturais correntes – uma força que arranja elementos distintos e paradoxais para compor uma sociedade, um mecanismo que mistura diferenças e distinções – um simultâneo vetor de movimento, plasticidade e  composição.

Os brasileiros não são apenas profundidades religiosas como têm também uma variedade de crenças e práticas ao seu dispor. Trata-se de uma religiosidade dionisíaca – selvagem, irracional, indisciplinada –, uma religiosidade festiva, carnal, antes vivida dramaticamente e coletivamente, do que sentida na solidão profunda de um único e mesmo sujeito.

Nossa religiosidade e nossa sociedade são inerentemente desajuizadas. Trata-se de um laboratório primaz de sincretismo nômade [nomadismo sincrético], especialmente nos domínios festivos. No Brasil, expressões festivas, religiosas, efervescentes, arranjam e tornam possíveis espaços de sociabilidade nos quais diferenças são trazidas juntas e figurações sociais ganham cena.

A sociedade brasileira, de feições plasticamente cambiantes, não pode ser analisada através de conceitos congelados.

Por isso, inevitavelmente, este pequeno texto experimenta em suas dobras a sutileza dos fatos que menciona ao passo que enxerga seu país de modo naturalmente interpretativo, pois que aberto, obstinado em escapar de soluções apáticas, rumo a sabedorias mais vistosas.

Para ser generoso frente a esse país intrincado parece não haver outro caminho à compreensão senão tornar-se poeta. Nas acuradas palavras de Roger Bastide, “não há prescrições conceituais para o sociologista que estuda o Brasil”. Para adentrar tal veracidade precisamos “encontrar conceitos cujo estado material possa fluir com relativa facilidade, possibilitando a descrição interpenetrada dos fenômenos de fusão e ebulição, cuja conformação se dá numa realidade viva em perpétua transformação” [1957: 15, 16].

Sincretismo religioso e nomadismo cultural são conceitos tais. Não significam uma mistura plana e confusa de elementos caóticos e indiscriminados a possibilitar movimentos randômicos de um lado para o outro. Praticamente sinônimos, estes termos refletem um modus operandis que pertence à ordem da simultaneidade. Múltiplas combinações, nunca idênticas e tampouco imersas e imiscuídas num todo indistinto. The cards remain cards though. Quem tem a autoridade, a escolha de conectá-las e jogar, é o dono do jogo.

Primeiras Pegadas

Nossos jornais estão repletos de anúncios de feiticeiros e bruxos de inúmeros tipos, que prometem alegria aqui e agora. Estabelecimentos onde se compram os mais inacreditáveis produtos mágicos…

Este monólogo se chama aproximação, foi escrito no dia 27 de agosto de 2010, e sua ascendência remonta diretamente ao pensamento mítico de uma mulher chamada Léa Perez.

Meu nome é Wilson, mas o pessoal da firma me chama de Martins. Sou inteligente, brasileiro e sincrético. Sou um nômade cultural. Eles me chamaram aqui pra dar um depoimento breve, geral. Então vamos aí. Eu trabalho numa boutique transnacional dedicada às magicâncias. Nossos clientes vão, desde notáveis diretores de novelas, passando por ilustres locutores de programas religiosos, eminentes membros da bancada evangélica no Congresso Nacional, até célebres atletas de Cristo. O jornal que eu li hoje está empanturrado de magos e bruxos dos mais variados. E lá fora, na rua, promete-se a felicidade aqui e agora. O nome dos meus filhos eu escolhi com base em consultas numerológicas e meu divertimento predileto é visitar espaços diferentes de culto religioso. Tem aos montes. Terreiro afro, igreja evangélica, pentecostal, centro espírita, templo esotérico, seita etc. Mas eu gosto mesmo é de festa. Por isso que eu gosto dos carismáticos da igreja católica, dos padres cantores, das missas-espetáculos. Eu sou gente, e acho que isso são manifestações culturais. Laços sociais, como dizem os entendidos. Até onde eu vejo, não tem mais tradição. A memória está vazia. Mas a sensibilidade está repleta. Pessoalmente, eu acho os grandes sistemas meio aborrecidos. A exclusividade é ortodoxa demais e eu gosto de pequenos agrupamentos, sem contorno fixo. É bom transitar sem contradição. Participar leve. Fluido. Mas ainda sim uma participação coletiva. É bom estar junto. Dia desses li uma frase que eu não entendi muito bem, mas achei tão bonita que até decorei. É assim, “uma comunhão de sentimentos promovida sob a influência da exaltação geral, ou seja, no seio de uma assembléia que esquenta uma paixão comum”. Bonito, não? Assim até parece que a experimentação do mundo é um espetáculo festivo, um investimento passional transitório. Acho que a vida seria melhor se não precisasse de objetivo, de finalidade. Chega de intenção. Não há o que explicar, nem o que interpretar. Nesse universo sem centro a minha alma se salvou no dia em que nasceu e o cotidiano bem que podia ser uma festa. Pra mim o afeto é estético, a razão é sensível e o Brasil é um laboratório. Outra coisa que eu li outro dia, “o sincretismo é estruturalmente a tradução ou o correspondente religioso do fenômeno mais geral da civilização brasileira, que é ela mesma sincrética”. “Civilização brasileira” é o máximo. Pronto, é isso. Pode cortar.


BASTIDE, Roger. Brésil. Terre des contrastes. 1957. Paris, Hachette; DaMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? 1986. Rio de Janeiro, Rocco; DUVIGNAUD, Jean. “Avant-Propos”. FREYRE. Gilberto. Terres du sucre. 1992. Paris, Gallimard; LEACH, Edmund. Cultura e comunicação. 1978. Rio de Janeiro, Zahar Editores; MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. vol. VII. (1933-1960). 1977-1978. São Paulo, Cultrix/Editora da USP; MAUSS, Marcel. As civilizações: elementos e formas. Ensaios de sociologia. 1981. São Paulo, Perspectiva; MOTTA, Roberto. Le métissage des dieux dans les religions afro-brésiliennes. 1993. Religiologiques. Le métissage des dieux. Montréal, Université du Québec.