30/09/2010

humano

30/09/2010

Hoje eu incinerei um cão junto ao morto para salvaguardar o longo trecho até Mictlan. Serpentes aladas e ventos canivetes, Mictlan fica a norte. Resta sob os cuidados de um casal de deuses vermelhos que habitam uma casinha sem janelas. Ossos são sementes de gente e transas interessam mais que gêneros. Substância óssea com sangue sumo de pica deífica é tipo ser humano.

genuíno

28/09/2010

Hoje eu passei o dia velando tele fonemas, espelhando metáforas da solidão e descolorindo as paredes da minha alma. De repente, no centro desse absurdo, eu me olhei no espelho, e a minha boca era a boca de meu pai. Restei mudo, andar ilhado, e apanhei um avião para o Brasil. Eu conheci a solitude no dia em que inteirei quinze anos. Eu jogava basquetebol. Todo mundo se lembrou do meu aniversário, menos a minha mãe. Mar sem ilha, ser minha própria filha. Vez por outra eu frequento o desamparo, ouvindo Miles, Baker. Nunca se sabe a hora em que o galo canta. Bicho descomparado, feito o silêncio que sobra depois… Tudo cessa. Desde menina, que o sol não vinha. E eu lendo maçãs no escuro. Primeiro veio a cor, depois a imagem da tartaruga. Na meninice, eu achava que meu pai não me amava. Certa madrugada eu lhe aprontei uma armadilha. Pai, te amo. Entregue ao sono, ele não respondeu. Eu sinto que não nasci ainda. Fantasias da arte. Às vezes sonho uma casa abandonada. Lembro de uma vez, em Barão Geraldo, numa casa, com cinco mulheres, eu não sabia cozinhar nada. Fiz um chuchu, olhei pra ele, e bradei, mundo, o que eu vim fazer aqui? Merda. Apartamento. Escrever dá conta. Eu era acanhada, a gaiatinha veio e puxou o meu cabelo. A multidão é o resíduo do isolamento. Ninguém pra me ajudar. Eu atacada de gripe, e nenhuma pessoa pra me fazer um chá. Quarto de hotel. Festa de família. Uma música que eu adoro. Quando eu me separei, passei dois anos enxergando tons de cinza e castanho. Levei dois anos pra voltar a ver as cores. Foi numa manhã de pipas. Um azul escuro, genuíno.

simples

26/09/2010

A divindade das diminutas coisas, das pequenas consistências em cuja imprevisibilidade se encontra o impulso que está, por um triz, apartado da violência pura e simples.

corpo

26/09/2010

O pensamento do meu corpo.

Os mitos indígenas são nascentes insinuantes, falam de um estado do ser em que os corpos e os nomes, as almas e as afecções, o eu e o outro, se interpenetram, mergulhados em um mesmo meio em que subjetividade e objetividade são a mesma e única coisa. Um meio em que a comunicação distingue, operando diferenças positivas. Os outros foram o que somos, semelhança inaugural que devolve objetividade intrínseca às coisas ditas não objetivas. Algo que mistura bem o que um dia separamos mal. 

Os espíritos deixam de operar distintividades singulares. A comunicação redefine seu estatuto e torna-se condição mais que necessidade. Ela é, está, faz. As compreensões se tornam todas, de saída, objetivas. A comunicação é inaugural e dispõe para funcionar a diferença. A objetividade, inaugural, nasce do nascer do próprio corpo.

criação

26/09/2010

Ontem larguei o lap aberto em público, e a tela ficou lá, fazendo parte do espaço. Uma página pela metade e um roteiro. Coreografias do cotidiano. Um drama bailado, movimentação melódica para os arranjos do dia-a-dia. Uma cena: o sujeito e a escrivaninha, some books, luz pouca e laptop. O texto que ele registra transa com o cenário e as palavras proporcionam costumes que excedem os limites da representação. Texto e dança se suplementam na tradução da reciprocidade impressa pelo processo de criação.

tela

26/09/2010

Ouvindo Arctic Monkeys, pensando no dia em que eu tiver trinta e cinco anos de trabalho. Pensando que eu deveria pendurar um quadro por semana na parede da escrivaninha. O que há de mais colorido aqui é o fundo de tela.

completo

25/09/2010

Hoje eu levei comigo o computador e saí por aí, datilografando material in lócus. A certa altura aumentei o som e depois morri à procura de um tom para o meu trabalho de parto. Fui ficando claro, tomei corpo. Ao meio dia o juízo se apropriou da vontade e o proscênio se apossou da platéia. O seu olhar me causou dúvida. Mas eu gostei. Não é ruim, é só difícil. É novo pra mim, portar máscaras para conservá-las sem préstimo. É como ter amantes dispersos na platéia, exposta como eu, por uma luz que jamais se dissipa por completo.

nome

25/09/2010

Uma etnografia fantasma de contornos surrealistas.

Minhas botas estão enlameadas, meu cabelo está comprido, minhas unhas estão sujas. Mas eu aprecio esta imundice, na qual tudo o que eu amo se torna tão puro e distante.

Uma espécie de ciência [que esqueceu seu nome].

coesia

24/09/2010

Poesia concreta encontradição barroca

                          [brincar sério]

No século XVI, assinala Duvignaud, “a aventura do capital e da produtividade econômica é clandestina, mas a obrigação de optar por um dos mundos possíveis está contida implicitamente na vida cotidiana”.

Nesse conflito, nessa mutação, se situa a estranha explosão do imaginário e da festa que tomou o nome de ‘barroco’.

Um tempo em que as normas estabelecidas se esvaziam de sua substância, em que os modelos éticos ou culturais se dissolvem, em que o desejo – impreciso, vago, infinito – transborda os objetos que até então esgotava, para realizar-se em uma frustração irreprimível de que são depositários momentâneos o artista, o príncipe, o místico, o amante. Surge então uma paixão alucinante que atormenta as formas.

O barroco é o ponto de vista por entre uma fissura.

Consagrar emoção à pedra, à forma, aos sons, é o ato inverso àquele que conduz o cálculo econômico que mede a rentabilidade pela quantidade de trabalho investido nas coisas produzidas. Constitui, provavelmente, sua veemente refutação. O ato barroco é um sacrifício inútil: desvaloriza as coisas para injetar-lhes emoção.

“Uma corrente dionisíaca que longe de começar pela imitação das formas conhecidas e culturalmente instituídas, se lança ao mundo, à natureza, ao cosmos, em busca de formas […] a vida está aqui na terra e a materialidade das coisas é uma festa”.

Num mundo de objetos compráveis, interpõe-se um cujo valor não se dá através de uma economia de mercado. O ataque está feito, uma brecha encontrada.