desvario

28/10/2010

Este blog estamírico é também um crustáceo e, por adição de certos produtos químicos, depõe suas impurezas no fundo de uma linguagem que data da primeira época da humanidade. Sintáticas em desvario.

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felizes

27/10/2010

Com efeito, parecem os homens absolutamente não terem percebido o poder do amor, que se o percebessem, os maiores templos e altares lhe preparariam, e os maiores sacrifícios lhe fariam. Tentarei, portanto, iniciar-vos em seu poder, e vós o ensinareis aos outros. Mas é preciso primeiro aprender a natureza humana e as suas vicissitudes. Com efeito, nossa natureza outrora não era a mesma que a de agora, mas diferente. Em primeiro lugar, três eram os gêneros da humanidade, não dois como agora, o masculino e o feminino, mas também havia a mais um terceiro, comum a estes dois, do qual resta agora um nome, desaparecida a coisa; andrógino era então um gênero distinto, mas tanto na forma como no nome comum aos dois, ao masculino e ao feminino. Depois, inteiriça era a forma de cada ser, com o dorso redondo, os flancos em círculo; quatro mãos e as pernas o mesmo tanto das mãos, dois rostos, semelhantes em tudo, sobre um pescoço torneado; a cabeça sobre os dois rostos opostos um ao outro era uma só, e quatro orelhas, dois sexos, e tudo o mais como desses exemplos se poderia supor. E quanto ao seu andar, era também ereto como agora, em qualquer das duas direções que quisesse; mas quando se lançavam a uma rápida corrida, como os que cambalhotando e virando as pernas para cima fazem uma roda, do mesmo modo, apoiando-se nos seus oito membros de então, rapidamente eles se locomoviam em círculo. Eis por que eram três os gêneros, e tal a sua constituição, porque o masculino de início era descendente do sol, o feminino da terra, e o que tinha de ambos era a lua, pois também a lua tem de ambos; e eram assim circulares, tanto eles próprios como a sua locomoção, por terem semelhantes genitores. Eram, por conseguinte, de uma força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham; mas voltaram-se contra os deuses. Zeus então e os demais deuses puseram-se a deliberar sobre o que se devia fazer com eles, e embaraçavam-se; não podiam nem matá-los e, após fulminá-los como aos gigantes, fazer desaparecer-lhes a raça – pois as honras e os templos que lhes vinham dos homens desapareceriam – nem permitir-lhes que continuassem na impiedade. Depois de laboriosa reflexão, diz Zeus, – “Acho que tenho um meio de fazer com que os seres humanos possam existir, mas parem com a intemperança, tornados mais fracos. Eu os cortarei a cada um em dois, e ao mesmo tempo eles serão mais fracos e também mais úteis para nós, pelo fato de se terem tornado mais numerosos; andarão eretos, sobre duas pernas. Se ainda pensarem em arrogância e não quiserem acomodar-se, de novo, eu os cortarei em dois, e assim sobre uma só perna eles andarão, saltitando”. Logo que o disse pôs-se a cortá-los em dois; a cada um que cortava mandava Apolo voltar-lhe o rosto e a banda do pescoço para o lado do corte, a fim de que, contemplando a própria mutilação, fosse mais moderado o homem. Apolo torcia-lhes o rosto, e repuxando a pele de todos os lados para o que agora se chama o ventre, ele fazia uma só abertura e ligava-a firmemente no meio do ventre, que é o que chamam umbigo. As outras pregas, numerosas, ele se pôs a polir, e a articular os peitos, com um instrumento semelhante ao dos sapateiros quando estão polindo na forma as pregas dos sapatos; umas poucas ele deixou, as que estão à volta do próprio ventre e do umbigo, para lembrança da antiga condição. Por conseguinte, desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria metade e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um ao outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral, por nada quererem fazer longe um do outro. E sempre que morria uma das metades e a outra ficava, a que ficava procurava outra e com ela se enlaçava; e assim iam-se destruindo. Tomado de compaixão, Zeus consegue outro expediente, e lhes muda o sexo para frente – pois até então eles o tinham para fora, e geravam e reproduziam não um no outro, mas na terra, como as cigarras; pondo assim o sexo na frente deles fez com que através dele se processasse a geração um no outro, o macho na fêmea, para que no enlace, se fosse um homem a encontrar uma mulher, que ao mesmo tempo gerasse e se fosse constituindo a raça, mas se fosse um homem com um homem, ou uma mulher com uma mulher, que pelo menos houvesse saciedade em seu convívio e pudessem repousar, voltar ao trabalho e ocupar-se do resto da vida. É então de há muito tempo que o amor um pelo outro está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza, em sua tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana. Cada um de nós, portanto, é cortado de um só em dois; e procura então cada um o seu próprio complemento. Por conseguinte, todos os homens que são um corte do tipo comum, o que então se chamava andrógino, gostam de mulheres, assim como também todas as mulheres que gostam de homens é deste tipo que provêm. Todas as mulheres que são o corte de uma mulher não dirigem muito sua atenção aos homens, mas antes estão voltadas para as mulheres. E todos os que são corte de um macho perseguem o macho. Dizem alguns, é verdade, que aquelas e estes são despudorados, mas estão mentindo; pois não é por despudor que fazem isso, mas por audácia e coragem, porque acolhem o que lhes é semelhante. Quando então alguém se encontra com aquele mesmo que é a sua própria metade, então extraordinárias são as emoções que sentem, de amizade, intimidade e amor, a ponto de não quererem por assim dizer separar-se um do outro nem por um pequeno momento. E os que continuam um com o outro pela vida afora são estes, os quais nem saberiam dizer o que querem que lhes venha da parte de um ao outro. A ninguém, com efeito, pareceria que se trata de união sexual, e que é porventura em vista disso que um gosta da companhia do outro assim com tanto interesse; ao contrário, que uma coisa quer a alma de cada um, é evidente, a qual coisa ela não pode dizer, mas adivinha o que quer e o indica por enigmas. O motivo disso é que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo; é, portanto, ao desejo e procura do todo que se dá o nome do amor. Anteriormente, como estou dizendo, nós éramos um só, e agora é que, por causa da nossa injustiça, fomos separados pelo deus; é de temer então, se não formos moderados para com os deuses, que de novo sejamos fendidos em dois. O Amor nos dirige e comanda. Que ninguém em sua ação se lhe oponha – e se opõe todo aquele que aos deuses se torna odioso – pois amigos do deus e com ele reconciliados descobriremos e conseguiremos o nosso próprio amado, o que agora poucos fazem. É assim que nossa raça se tornaria feliz, se plenamente realizássemos o amor, e o seu próprio amado cada um encontrasse, tornado à sua primitiva natureza. E se disso fôssemos glorificar o deus responsável, merecidamente glorificaríamos o Amor, que agora nos é de máxima utilidade, levando-nos ao que nos é familiar, e que para o futuro nos dá as maiores esperanças, se formos piedosos para com os deuses, de restabelecer-nos em nossa primitiva natureza e, depois de nos curar, fazer-nos bem-aventurados e felizes.

funda

27/10/2010

Hoje eu sou um nômade cujo corpo em espaço algum se acomoda e, por isso mesmo, está em toda parte; sou o contrabandista propagando em segredo alguma substância indesejável; um subversivo arrancando seu vigor de seu próprio embaraço, daquilo, precisamente, que o real não permite o prazer de esquecer, a saber, que é o desejo quem ocupa o posto de comando. Hoje eu me entreguei àquilo que é mais forte, que me ultrapassa e, concomitantemente, me funda.

melhor

27/10/2010

Hoje eu li que só um homem pode aspirar a ter algum conhecimento da vida, daquilo que lhe constitui a substância: o poeta, pois ele está situado no coração do drama que se desenrola entre esses dois pólos: objetividade-subjetividade; pois ele os exprime à sua maneira, que é o padecimento, do qual ele próprio se alimenta e do qual, quanto ao mundo, é o porta-veneno ou, se preferirem, o porta-voz. Mas há vários modos de ser poeta. Empunhar uma pluma ou um pincel não é necessariamente o melhor.

fronteiras

27/10/2010

Como os insetos e os batráquios, estou sujeito a uma variação contínua da forma sem, contudo, perder a unidade do nome. Nesta cidade sempiterna, a meio caminho entre o urbano e a roça, cada um de nós é a própria redefinição das fronteiras.

tudo

26/10/2010

Tantos assuntos que tão melhores mistérios, que nada chega nunca a tanto, a tal ou qualquer ponto. Hoje eu andei por aí, até me colorir de vermelho e fazer das tripas coração. Sem história, fui um sempre estar. Lá dentro do meu oco passei fins inteiros de semana e quis, por que, mudar tudo.

deforma

25/10/2010

Todos os dias eu desisto de escrever e hoje eu me suicidei. Não gosto de escola, detesto selvageria adestrada e tenho horror à espécie discípulo. – “E esses dedos limpos?” – protestou a biblioteca – “A manchar meus livros empoeirados?” Hoje desvendei vários crimes. Nem um criminoso. Defendi simultaneamente opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas. Usei a lógica contra a lógica e repudiei a moralidade em nome da moralidade. Hoje eu induzi conscientemente a minha própria inconsciência. Meu conteúdo, uma mera variação da minha deforma.

mundo

22/10/2010

Hoje eu retomei meu romance – abri a cortina, esqueci a ambigüidade do verbo e matei o que cumpri. Com e sem início, meio e fim, aderi meus impulsos nervosos às paisagens que se me apresentaram [ausentes] e liguei meu cérebro na tomada. Agradeci a Deus pelo sopro e me deitei por sobre o peso de haver vivido vinte e seis anos e ter, de todos eles, nem um.

Hoje eu adentrei um naco trevoso do meu coração. Não, é impossível; é impossível transmitir a sensação vivida de qualquer momento da nossa existência – aquilo que constitui a sua verdade, o seu sentido – a sua essência sutil e penetrante. É impossível. Vivemos, como sonhamos – sozinhos.  Que diferença faz, o que as pessoas sabem ou deixam de saber? Às vezes temos esses clarões de percepção súbita. Não que eu goste do trabalho. Prefiro me entregar à preguiça e ficar só pensando em todas as coisas que podem ser feitas. Não gosto do trabalho – ninguém gosta – mas gosto do que o trabalho proporciona – a oportunidade de se encontrar. A sua própria realidade – para você, não para os outros – que nenhum outro jamais terá como conhecer. Os outros só enxergam a mera aparência, e jamais sabem.

Imagens irresistíveis criam apego pelo mundo.

aventuras

21/10/2010

Hoje eu me senti livre e, por conseguinte, inexato, um ser de pura forma, sem profundidade e sem entendimento. Hoje eu inventei objetos até então ignorados, manipulei certas frases, fiz delas assunto, e depois me dei respostas sem pergunta. Hoje eu fui um homem prudentemente pendente.

Em termos pictóricos, Deus.

Aqui no Bandeirantes, nessa Avenida Novara, 585, um homem anuncia: alguma coisa útil a meu respeito é que sou gravemente confuso, pois na festa que é o meu juízo, minhas opiniões privadas trajam fatos desvairados; alguma coisa inútil a meu respeito é que, durante o sono, minha alma se liberta do corpo e deambula à vontade, encontrando outros espíritos e envolvendo-se em aventuras.

nós

19/10/2010

Um tempo na academia. Um tempo no celular. Mas sempre o banco. Eu preciso entender melhor o que vocês fazem. Encontrar Bertha e retomar o diário do nosso amor. Viabilizar o projeto sua casa sua varanda e mudar de vida. Passear com o Tommy, trabalhar e dizer que é desrespeitoso pegar o que é dos outros. Curar uma separação amigável e aceitar que há um mundo diferente para cada um de nós.

As teorias me fritam. Que medo. Que trauma.