de pele

20/07/2011

Por falar em sonhos, essa noite eu sonhei que assumia, sob os holofotes de uma cerimônia triunfal, um cargo público de prestígio. Só que eu era mulher. Só que eu era a Amy Winehouse, trajando um vestido deleitoso, amparada por um casaco de pele.

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deus

08/07/2011

Chegou o dia de são joão, o santo que perdeu a cabeça depois de negar o amor de salomé, a púbere que uma vez rejeitada, dançou pela decapitação do homem que preferia deus.

rosto

08/07/2011

No metrô há os que se cortejam pela reflexão do vidro, numa contradição espelhada em que o outro me olha do meio do nada e, se ouso mirá-lo de frente, eis que enrubesce e me vira o rosto.

jóias

08/07/2011

Hoje pela manhã, a caminho do trabalho, um mendigo bêbado e bem encerado, estirado na sarjeta, bradou quando mirei-lhe os olhos liquefeitos, “pede a bênção, meu filho! cada um carrega a cruz que merece. Quem não tem cão, caça com gato, eu só carrego as minhas jóias”.

cozinha

08/07/2011

Outro dia lembrei da história que você me contou faz tempo, de umas primas suas que tinham uma casa no topo de uma montanha tão alta, mas tão alta que um dia, do sofá, elas viram entrar uma nuvem pela porta da sala e sair pela cozinha.

saudade

08/07/2011

Hoje ultrapasso a alvorada num comboio rumo ao belo horizonte. Amanhã quem sabe não me acontece encontrar as figuras impreteríveis que se tornaram imagens da minha saudade.

ciclope cego

06/07/2011

O ciclope morava no mar alto de um farol e acendia as noites com seu monolho mágico. Solitário, rodeado de suas minúcias quinquilharias, levava uma vida sossegada, até o dia em que decidiu livrar das garras das gaivotas um peixinho escarlate. Encerrados cada qual em seu mundo, um farol longínquo e um aquário clausurado, ambos se tornam meta imagens um do outro. Certa noite vem uma tempestade e as metáforas se transformam. Terror e desvario, a maré irrompe às janelas, a noite se tinge de fogo e o ciclope perde a visão. Moral da história: o mar para o peixe vale um ciclope cego.

de-vista

06/07/2011

No dia do primeiro momento da origem do mundo, o terceiro planeta do sistema solar consistia estritamente em humanos. A Terra era uma lisura esférica abarrotada de homens e mulheres cuja reprodutibilidade geométrica, naquele dia, encontrou seus limites demográficos. A vida tornara-se irrealizável. Alguém então montou o ombro do confrade e declarou assim, “- a começar de hoje, vocês aí originarão árvores, vocês pássaros e vocês aí peixes”, e assim por diante ratearam-se as existências humanas entre as várias modalidades de vida. Desde então e por isso mesmo, todos os entes são gêneros humanos, pois providos de sujeito. Desde então a natureza das coisas é indefinidamente pronominal: lucra condição de eu quem capta ponto-de-vista.