03/08/2011

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Leitos com rodinhas são o meio de transporte dos insensatos, ela me disse, sem fazer caso. Sua loucura era incontornável. No dia em que lhe tomei esta foto, ela me contou que o vão do quarto, onde nos encontrávamos ela, o urso e eu, era a cópia fiel do oco da sua cabeça, onde vez ou outra se distinguia o som dos seus pés descalços no assoalho de madeira. Quero que você me fotografe assim, mirando o dia que deriva do jardim, um naco de vida à beira do caminho.

01/08/2011

ventres sagrados

01/08/2011

O rechonchudo Kurt Brown vinha adestrando seus harmônicos desde que lhe trocaram um violão numa chupeta. Num domingo sem cerimônias, mulheres vinho, homens licores, tudo transcorria sem traições, até a execução feroz de “Vamos Acender Isso”, uma especialidade ainda inédita do neném violeiro. “Dançando, saltando, dançando, girando”, ele cantava e a platéia anuía. “Vamos acender isso e deixar todos balançando”, Kurt bramia. “Vamos acender isso, penetre certeiro nesse sentimento adorável!”. Delírio. Foi quando, diante de uma amálgama legítima de acontecimentos cavilosos, atentei para a câmera fotográfica: proferida a última nota de um refrão inabalável, Kurt se entusiasmou e deixou escapar um rugido de tão cavernoso timbre que as calças do senhor Brown vieram abaixo, duplamente inescapáveis, às lentes e ao espelho da sala. A senhora Brown, dançando de uma perna só, e a sogra Brown, oblíqua por conta dos excessos, miraram-se então, pudoradas porém orgulhosas dos assombrosos frutos de seus ventres sagrados.