desfazer

01/09/2014

Sabemos que a divisão cartesiana permitiu aos cientistas modernos tratar a matéria como algo morto, e o corpo, em oposição à mente, tratá-lo enquanto matéria. Assim, o pensamento jamais poderia se dar noutro lugar que não na mente, que uma vez separada do corpo teria a tarefa de controlá-lo. Nos tempos do movimento romântico, marcado pelo lirismo, pela subjetividade, pela emoção, em contrapartida à objetividade e à razão preconizadas pelo Iluminismo, a pintura, a escultura e a música se uniam à poesia na reivindicação do privilégio de serem criados por procedimentos irracionais, procedimentos que não apenas prescindiriam do intelecto, como estariam ameaçados por este. Com isso, tanto filósofos, de um lado, quanto artistas, de outro, por meio da refutação mútua de suas, assim tornadas, antagônicas diligências, faziam mais que reiterar a divisão cartesiana, afundavam-se nela de modo a deixar para a posteridade marcas ultra persistentes de uma relação preconceituosa que ajudavam a construir, e que até hoje nos causa trabalho desfazer.

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