03.12.15. Montra primeiro dia. Encontro João Reynaldo, amigo da Júlia, que eu já conhecera na casa dela. Poeta, cata papeis na rua. Filipe explica algumas coisas. O espaço impõe limites. O que quer dizer Montra. João. Mariana. Rosa. Júlia. Filipe. João. Renato. Thaisa. Apresentam-se. Tiago. Rodrigo. João Batista, ator e performer. Eu, escritor, antropólogo. Sínteses propostas pelo Filipe. Thaisa, apropriadora de imagens. João Reynaldo apresenta seu trabalho. Ele pratica corrida e cata papeis ao longo do caminho e carrega consigo papeis, caso lhe ocorra escrever. Papeis. Em geral arrasados singularmente pelo tempo sobre os quais ele escreve e ou desenha, a máquina. Ele pensa em migrar para o bordado. Ponto por ponto, ele bate a máquina. Desenha com a máquina de escrever. Só vendo. Um artista da máquina de escrever. Digigrafia sobre papel maltratado e sujo. Papel lixa usado. Máquina de escrever portátil. Filipe sugere que ele a carregue até aqui. Maíra chega. Samanta se apresenta, arte e educação, letras, performance. Uma performance para agora: escritoras feministas. Trechos. Retratos de violência contra mulheres. O espaço se impõe. Estamos todos em volta de uma mesa e uma passagem de som que vem lá de baixo abafa quase completamente nossas vozes a discutir a própria arquitetura do CCSP. A concepção política deste lugar. Um espaço sem vergonha. Bolhas expostas. Pessoas sempre muito diferentes. Uma diversidade que, fora daqui, só existe nas universidades, diz Tiago. Esses vidros, que nos refletem e ao mesmo tempo transparecem todo o lado de lá. Essas pessoas dançando para todos os lados, sem vergonha. As pessoas públicas, das que fala Luiz Telles, um dos arquitetos deste espaço. Tiago comenta sua impressão de que as pessoas parecem estar o tempo todo procurando algo aqui. Maíra diz que o CCSP foi um grande atrativo para estar no Montra. Filipe conta que entende o livro de artista enquanto espaço expositivo móvel. Ele se apresenta. Traz consigo O corpo neutro, que acaba de ficar pronto. O som da passagem de som segue a abafar tudo o que estamos a dizer. Mariana vai apresentar seu trabalho. Ela nos mostra h-o-r-i-z-o-n-s. Mariana Meloni. Seu livro, de artista, são sobreposições de horizontes impressos em papel vegetal. As imagens, semitransparentes, se transfundem umas nas outras. Horizontes sobrepostos em papel vegetal. Com o barulho, subimos até a parte de cima do CCSP e nos sentamos sobre aqueles bancos cujas superfícies são pedras lisas e irregulares, sabe? Agora podemos nos ouvir. Tiago nos mostra seu trabalho, uma grande sátira dos editoriais de moda. Sheila Ribeiro é a intérprete modelo desses ensaios que surgem enquanto comentários de obras de dança. Em um deles ela faz caras, bocas e gestos típicos das fotografias de moda, caracterizada como um segurança, terno preto, gravata e rádio na mão. No lugar do texto as imagens. Comentários no lugar da crítica. Moda não comercial. Grife de mendigo. Tiago fala do mero efeito criado pela presença do fotógrafo e da modelo no espaço público. As pessoas podem optar por estar ou não dentro da obra, ele diz. Um lugar criado que produz resposta. Todos são fotógrafos hoje em dia. Tiago critica a fixação estética da obra de Pierre Verger enquanto o que é a Bahia. Ele conta seu interesse em atentar para a própria forma do corpo do fotógrafo cuja preocupação é simplesmente obter a melhor imagem da festa mais clichê de Salvador. Há uma foto de um fotógrafo a se contorcer ridiculamente em busca de uma “boa foto”. Tiago sustenta o lugar da fotografia. Tiago Lima. Ele conta que chegou à fotografia para se dar um lugar fora da imagem, mas que as coisas mudaram de lugar depois que ele experimentou a interferência do seu fazer no espaço público, depois que ele incluiu o próprio fotógrafo na cena. Algumas pessoas lhe perguntavam por que, na mesma festa clichê, ele não estava fotografando o que era para ser fotografado? E o que deve então ser fotografado? Pigmento azul sobre escada. Pó sobre um objeto. Matéria. Pessoas subindo e descendo a cascata. Rodrigo Arruda. Folhas de ouro de 24 quilates ao longo de um rio formado pela água de uma mangueira. A topografia determina a forma do rio. Ouro, água. Um fio de tela, desamarrado e reamarrado. Fios de argila de menos de 1mm alinhados no centro de uma mesa branca comprida de 6 metros. Há muitos preconceitos acerca da argila, ele diz. Argila, ouro e fios de tela – tela de pintura. A tela que se torna fio, entre a matéria e a linha. Filipe me apresenta por fim. Como vocês podem ver, ele está sempre a trabalhar, ele diz. Eu tento explicar meu trabalho e convido a todos a compartilhar textos comigo […]