segundo dia de montra

05/03/2016

[…] 08.12.15. Centro Cultural São Paulo. Montra, segundo dia. Samantha conta que trabalhou como facilitadora na exposição da Marina Abramović. Concentração, aprofundamento, método. Dois dias sem falar, sem comer, a chá e mel. À noite uma salada. Hoje ela vai experimentar seu Humanatura. É a primeira vez que ela o faz. São 14:30. Ela também quer fazê-lo à noite. Sobre a mesa um novelo de lã vermelha com cujos fios ela alinhava vinte pedaços de papel com trechos de livros de escritoras mulheres que ela transcreveu com aquela fonte que imita máquina de escrever. Não há razão de ser lã, mas há razão de ser vermelha. Sangue. Vai ser bem contraditório, vocês vão ver. Enquanto ela se prepara eu vou tomar café com João Batista. Voltamos, ela já está pronta, com uma espécie de roupa de época, uma anágua ou algo parecido, tudo meio branco meio transparente. Uma rosa vermelha cobre sua boca. Tchau, gente, até mais, e prontamente ela adentra um modo performance. Ela se posiciona por algum tempo atrás do vidro da nossa sala, que dá para o corredor. Duas tiras de pano vermelho lhe escorrem pelas mãos. Os diversos pedaços de papel pendurados nos fios de lã vermelha. Um segurança passa, chega bem perto dela e lhe diz algo que não ouço. Ela então passa a se movimentar, tempo lento. As pessoas passam apressadas, contraste. Filipe tira algumas fotos, analógicas. Uma moça numa cadeira de rodas elétrica começa a seguir Samantha, elas adentram o mesmo ritmo. Ao fundo uns caras treinando break. Ela dá meia volta, um homem alto se aproxima e de algum modo compreende que deve escolher um dos trechos, ela lhe venda com a tira vermelha os olhos. Num canto três adolescentes, sentados no chão, assistem vidrados a um vídeo no computador. Eles nem se dão conta de que atrás deles há uma figura estranha, de outro tempo, do tempo de Eça de Queiroz, Machado de Assis. Samantha caminha lentamente até um dos pátios do CCSP, onde num dos cantos fica o café e onde há uma escada vermelha que dá para o enorme terraço gramado de verde. Já é a quarta pessoa para quem ela lê um dos seus trechos. Acaso, texto, signo, oráculo. A moça sorri, agradece, e se vai. Duas mulheres passam reto. Já são sete pessoas. A voz dela lendo para a pessoa o trecho se perde no alvoroço sonoro deste lugar. Oito pessoas. Um sujeito adentra uma conversa com ela tirando-a de seu estado performativo, ela parece explicar-lhe algo. Desta vez é ele quem lê o trecho escolhido, não ela. De longe tenho a impressão de que ele a corteja. O jeito como ele para de pé, a posição das pernas, assimétricas, uma esticada a outra dobrada. Ele vai embora. Ela vai e volta. Faz um gesto em direção às pessoas, que passam reto, dentre eles um tagarela compulsivo, desses que se dirigem ao vento. Nove pessoas. Ao meu lado alguns pallets de madeira, com almofadas, onde um casal deitado se atraca, parecem estar na sala de casa. Onze pessoas. Quero pedir à Samantha os trechos que ela escolheu. Samantha sobe a escada. Para no meio. Uma linda foto que o Filipe não faz porque está conversando com uma amiga que ele encontrou e para quem está a explicar o que é o Montra. Treze pessoas. A pessoa escolhe o trecho, ela o lê, uma espécie de adágio oracular para as próximas horas ou dias. Subo os degraus e passo por ela, me sento ao final da escada. Ela vem até mim, escolhe um. Escolho. Virgínia Wolf. Orlando. Os vários de que somos feitos, como pratos empilhados na mão de um garçom. E ela segue seu lento caminhar pelo gramado do terraço. Uma cena, o verde, o sol, ela de branco com seus trechos vermelhos. Os papeis esvoaçam no vento. Tem gente que passa reto, tem gente que não, tem gente que passa reto mas volta logo em seguida. Filipe está sentado ao meu lado a ler o primeiro dos textos do Montra. Imprimi 20 cópias, dei uma a ele outra à Samantha. As demais deixei sobre a mesa da nossa sala. Quinze pessoas. Lá longe percebo uma garota que olha para nós e depois para a figura de branco. De longe eu percebo sua atenção, mesmo distantes somos todos especialistas em rostos. Filipe é a décima sexta pessoa. Clarice Lispector. Bom é ser inteligente e não entender. Descoberta do mundo. Dezoito. Por fim, ela volta à sala e desce por completo do estado, terminou. Ali ao lado os três adolescentes seguem vidrados na tela do computador […]

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