terceiro dia de montra

06/03/2016

[…] 10.12.15. Centro Cultural São Paulo. Montra, terceiro dia. Os textos que deixei na mesa continuaram lá. Vou dando-os a cada um. Alguns a lê-lo. Samantha a agarrar gizes com barbante. Filipe a convidar-nos para o jantar de lançamento d’O corpo neutro, que será na minha casa. Ao fundo se ouvem vozes de pessoas, uma música do Criolo, um segurança a falar ao rádio. Já nos acostumamos a esta balbúrdia sonora. Dispomos agora de uma televisão, onde Mariana nos vai mostrar Heterotopia I. Uma paisagem rural, uma rampa de madeira, a câmera estática, a princípio. Uma rampa, um objeto esperando presença de algo que lhe sobrescorregue, mas nada acontece. Então o quadro inicia um passeio muito lento à direita. A rampa vai ficando para trás. Pelas cores da claridade o pôr do sol se aproxima. De repente, de uma linha vertical em diante, a imagem desfoca, de um jeito estranho, e os elementos no quadro perdem realidade. A paisagem borra, os contornos todos espalhados. Saquei. É a superfície de um espelho o que a câmera encontra em seu caminho. Um espelho que reflete as cores infindáveis do pôr do sol, mas o modo como a câmera capta o reflexo faz a imagem esvoaçar, lindamente, como um filtro. Então o quadro segue seu caminho, até ultrapassar o limite do espelho, a partir do qual a imagem se normaliza e a paisagem retoma suas definições, até encontrar finalmente um segundo pôr do sol, o “original”, agora de contornos nítidos. Fim. Mariana conta que Heterotopia I tem por inspiração Outros Lugares, de Foucault, e foi feito durante o Festival de Arte Serrinha. Rodrigo pergunta por que ela não recorreu ao looping, ao tempo sem fim. É que há um segredo aqui, ela responde, que uma vez revelado dá cabo à narrativa. Filipe menciona a engenhoca desenvolvida por um amigo a partir de um motor de batedeira, que roda lentamente e faz fotografias circulares de metros e metros. Mas a organicidade do movimento da câmera, executado manualmente por Mariana, é uma virtude desse trabalho. Gesto. Corpo. Olhar. Lá fora segue tocando Criolo. Agora ela nos mostra Penetrações, de 2012, feito no contexto de um coletivo de vídeo dança, o Grupo É. Penetrações, brechas de luz solar, água e corpos intermitentes. Penso em como a dança está sempre a desestabilizar e dificultar o discurso verbal, falado, falo isso. Mas o que você leu no Penetrações, Filipe me pergunta, ele parece estranhar que um estudioso da dança encontre dificuldades para significá-la. Eu li a luz, respondo, e minha atenção se volta para Rosa e João Reynaldo a conversar coisas que não ouço. Os limites da minha audição os limites da minha escrita. Dança. Ouvido. Agora é Rosa quem nos vai mostrar seu trabalho. Eu gosto da tevê, ela diz. Em casa ela deixa a tevê ligada com imagens na tela, como um porta-retratos. É o suporte onde ela gosta de mostrar seus trabalhos. Tevê caixa de luz. Não tenho vontade de imprimir, por isso a tevê é o suporte que eu uso. Rosa nos explica que alguns trabalhos seus são imagens produzidas com scanners, outros com máquinas de xerox. Imagens cuja complexidade é, em alguns casos, serem registros da própria luz da máquina, e não reproduções de outras imagens. Ela nos mostra uma foto de um ponto de ônibus em frente ao Teatro Municipal. Era noite e ela voltava do Anhangabaú quando encontrou aberto o painel de luz do ponto de ônibus, sem publicidade alguma dentro, simplesmente aberto. Já estava bonito sem o trabalho lá, ela diz. O que ela fez então foi inserir uma de suas obras no painel de luz, onde estaria o cartaz publicitário, e fotografá-la, em meio à paisagem urbana noturna. Nó de luzes. Numa outra foto a disposição de três séries de imagens numa parede. Foi tirada no dia da sua defesa de mestrado. São as imagens como ela as exibiu para a banca. São séries que exploram a ideia da cópia e fazem da reprodução transformação. Num caso, por meio de uma máquina de xerox, copia-se uma imagem e depois a cópia, e depois a cópia da cópia, e assim por diante. Ao final a imagem a desaparecer em branco. Noutro caso o procedimento é semelhante, porém com movimento. Noutro em zoom constante. Algumas imagens trazem as marcas do próprio vidro do scanner. Ou do dedo sujo de Rosa. Uma presença, um gesto, o vidro que se interpõe. Memória. Imperfeições em primeiro plano. Cópia. Aura. O trabalho é sobre essa diferença, diz João Reynaldo, diferença que se faz presente a cada repetição. A série evidencia isso. Rosa conta que, no limite, seu projeto é atear fogo a um scanner ao passo que este registra a luz da chama que por fim o engole. Scanner ao fogo, registrando em imagens a luz de seu próprio derretimento. Fotografar a luz. Ela conta que já não trabalha mais com cores, pois a luz não tem cor. A luz aqui se apresenta em escala de cinza. Me faz lembrar de algumas fotografias minhas de antigamente. Rosa também faz carimbos, esculpidos em borracha. Ela também cria módulos. Modular faz parte do seu trabalho. Ela pira com suportes e neste momento está a olhar ao redor em busca de lugares onde possa inserir algo seu. Passamos a pensar em voz alta o espaço expositivo de que dispomos aqui. Os emblemáticos vidros do CCSP, uma longa discussão acerca do uso deste espaço. A dança. Vidros que se fazem espelhos. Espelho janela do ego. Aqui, alguém diz, ao menos é só uma janelinha. Patrícia se apresenta, artista em relação, arquiteta contextual. Há alguns anos seu trabalho é derivar caminhadas em conversas com o espaço. Grafite sobre caderno é seu tipo de apresentação preferido. Pessoa. Espaço. Caderno sobre madeira. Criar problemas para lugares aparentemente resolvidos. Caminhar relações que geram espaço. Uma residência que fez no Bixiga há um tempo atrás. Três meses de perambulações pelo bairro. Derivas que deram em obras e, ao final, uma exposição, um grande mapa urbano-afetivo. De obsessões. De sons. De espaços. Patrícia também é máquina de escrever em papeis que se vão encontrando. Ela também são carimbos esculpidos em borracha ou cortiça de rolha. Pessoas que fazem carimbos e catam papeis e escrevem neles a máquina. Transformadores de papel de pão em máquinas de escrever coincidências. A arte para ela é o erro. Penso no livro Lines, de Tim Ingold, que ainda não li. Patrícia me mostra um triângulo tatuado em sua pele. As linhas do triângulo ligam três pintas suas, ela me explica. Impressão indelével da residência que ela fez no Bixiga. Os demais artistas que participaram da residência fizeram o mesmo, comum acordo, tatuaram linhas que ligam pintas e formam constelações na pele. Artistas são como pessoas. Chega Tiago. Mestre em dramaturgia. Direção. Palavra. Voz. Ele nos solicita uma leitura em voz alta de alguns trechos de Jean-Luc Lagarce. Rodrigo lê o prólogo de Apenas o fim do mundo. Depois Filipe, João Batista e Rosa leem um bom trecho de História de amor. Um som surdo e repetido faz fundo. Está ótimo, diz Patrícia. A interação dos três. Conforme leem, interpretam, vivem essa história de amor, os três vão criando uma cumplicidade aqui e agora, em meio às reverberações sonoras de uma passagem de som. Dois homens, Primeiro e Segundo. E uma mulher. Imagens. Outros lugares. Alguns textos meus. Leveza. Ironia. Tudo o que você quiser de volta. E outra vez a barulheira nos expulsa da sala […]

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