22/04/2016

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17.12.2015. Centro Cultural São Paulo. Montra, último dia [trouxe minha mãe comigo]. Ontem Rosa Laura instalou seus grandes adesivos modelares em dois vidros paralelos do CCSP, e agora estamos a brincar de olhá-los. Um cálculo preciso faz com que os adesivos, suas formas, em par se encaixem à distância, a depender da posição do olhar no espaço. Uma peça se encontra logo à sua frente, a outra lá longe. Ambas coladas em vidros um de cada lado do saguão. É preciso posicionar a cabeça, o corpo, de um determinado modo, numa dança ocular engraçada, para que de repente as duas imagens se encaixem no espaço da visão. A peça de cá é pequenina mas fica do mesmo tamanho que a de lá, que de perto é enorme. O encaixe nunca é perfeito, mas dinâmico, em acordo com a oscilação da postura. Só vendo. Faz calor e João Reynaldo veio de calça de veludo. Ele parece injuriado, mas é bem-humorado. A incompatibilidade também é uma estratégia, ele diz, resistir também é conhecer – o veludo. Ele trouxe uma escultura. Gramatura 48g/m². Sobre um suporte de acrílico um pregador de madeira fixa uma pequena folha de papel onde a máquina de escrever João desenhou uma escultura. Aliás, ela está aqui, a máquina, vermelha, sobre a mesa. Cinema só em película – a luz, a cor – digital não. Hoje em dia a ideia de campo expandido serve para qualquer coisa, escultura, literatura, navegação. Filipe retoma sua explicação para o corpo neutro. Do fundo do verão. Descrição de paisagem como um cenário. O cheiro a mar, o cheiro a mar, o cheiro a mar. João Reynaldo diz que pensou em mim, que quer tomar um café comigo ou algo assim, que eu sou um cara legal. Ele nos mostra como faz seus desenhos. Destrava uma presilha que fixava o papel que agora fica solto no rolo. Com uma mão bate ponto a ponto, com outra segura e movimenta a folha. A cada caractere que ele acrescenta no papel um deslocamento em alguma direção, e o acréscimo de novos caracteres em movimento vai desenhando coisas. Outras regras quando, no território de uma máquina de escrever, a gente fica solto no papel. João Reynaldo nos conta de sua perda materna. Ele nos trouxe uma foto dela, em preto e branco. Há alguma conexão entre a morte de sua mãe e a chegada da máquina vermelha. Foi a esposa do padrasto quem lhe deu a máquina que certo dia dava sopa no porta-malas de um automóvel. Ele conta que está prestes a fazer da transformação de seus papeis catados na rua um livro, o que retoma o velho problema da reprodução em série destes seus papeis tão singulares. Alguém fala de Wlademir Dias-Pino e seu poema processo. Repetição. Samantha afixou no vidro da sala os textos de sua humanatura. Das tiras de papel pendem fios vermelhos de lã. Rodrigo passou os últimos dias a pensar num trabalho para o CCSP. A questão é como superar as imposições deste espaço atulhado. Como dar ambiência própria a uma obra neste cúmulo de coisas sobrepostas, tão contrário à brancura limpa dos espaços expositivos habituais. E ainda por cima sem dinheiro. Filipe conclui: este Montra foi um espaço de produção de desejos. Materializá-los é a ideia para uma próxima oficina. É uma questão de tempo e orçamento. Patrícia chegou. Hoje, para desfechar o Montra, faremos com ela uma deriva pelo CCSP. Filipe menciona um edital da Folhetaria. Talvez estes textos ganhem outras proporções. Samantha lembra que ao final ela conseguiu fazer quatro performances ao longo destes quinze dias. Prólogos e epílogos da sua vida, roupa branca, imaculada, ela ficou toda roxa, visceral. Dançou bruscamente a dificuldade de transcender este espaço. Movimentou-se para desacostumar lugares e não ser só mais um corpo ali no chão. Eu não deixaria você me vendar, diz Patrícia, com quem compartilho um certo gosto por elipses, o que no meu caso começa pela maneira como registro, ou não, estes acontecimentos. Antigamente eu gravava tudo. Hoje relaxo os silêncios que vêm com o lápis na mão. Sobram mundos no intervalo entre as palavras. Rosa Laura conta de um amigo arquiteto que levou ao limite a ideia da unidade mínima da existência e reduziu sua vida material ao ínfimo possível. Até mesmo os livros ele digitalizou para deles se livrar. Descascou as paredes, deixou os miolos expostos. Na tevê Rodrigo nos vai mostrar um trabalho. Pathos. Tela vermelha. De baixo para cima começa a pegar fogo. Atrás do vermelho que se vai com as chamas, um novo vermelho, que pega fogo, e assim infinitamente, em looping. Rodrigo fala em tirar pessoas do espaço, fora, fogo, dentro, pegando. A tevê é superfície de luz, não tem profundidade, mas tem profundidade. João Reynaldo teve vontade de viver o acontecido, ver ao vivo o vermelho a queimar e sumir diante de um novo vermelho que então faz o mesmo. Eu queria estar presente aos volteios da fumaça, ao fogo luz, sentir o cheiro da fumaça. Mariana lembra o projeto limítrofe de Rosa, escanear o fogo, pois parece que a tevê está pegando fogo. Interior. É hora de derivar. Descemos de elevador até a biblioteca. Andamos juntos. Corpo coletivo. Reparo a caligrafia tortuosa do caminhante. Ali fora a Avenida 23 de Maio. Aqui embaixo o estacionamento. Ali a tal Folhetaria. Onde dá esta escada? Outros quantos ângulos. Uma placa antiquada proíbe receber ou efetuar chamadas neste local. A multa é medida em UFIR, unidade fiscal de referência que nem existe mais. Entramos no jardim pela sua margem baixa. Outro ar, outra pressão no corpo, outra temperatura. Vou até ao pé de uma grande árvore e com o rosto voltado para o céu fico a ver caírem sobre mim e sobre meu caderno as gotas da chuva. Linhas que crescem em forma de esferinhas cristalinas que tudo refletem, brilhantes d’água. Passamos pela biblioteca em braile e inventamos uma área de leitura ao som do clique da máquina fotográfica do Filipe. Ao meu lado Patrícia a desenhar. Agora é minha mãe quem faz de nós uma foto. Os cegos não podem ler a plotagem no vidro da biblioteca que diz que os cegos constroem mundos completos, suficientes, que sua identidade não implica qualquer sentimento de incapacidade ou inadequação, e que o problema da cegueira e o desejo de curá-la, por conseguinte, é nosso e não deles. Oliver Sacks. Premonição. Adentramos inadvertidamente a biblioteca para os que enxergam e de lá somos polidamente retirados. Há algo inapropriado em nós. Voltamos então ao pátio central agora abordando o jardim pela sua margem alta. Mais tarde chegamos à horta coletiva. Patrícia se mostra surpresa quando me vê a mordiscar umas cebolinhas, depois umas couves. Ela nunca tinha cogitado essa possibilidade. Ela tem uma sensibilidade para as singularidades de cada espaço, para os diferentes corpos que cada lugar produz. Nick, seu amigo, fala de uma memória social da arquitetura e eu me lembro das entrevistas do Luiz Telles, do seu uso potente da ideia de pessoa pública. Ao passo que caminhamos me lembro daquele primeiro dia de Monte, mãe do Montra. Os peripatéticos somos empíricos, acreditamos que uma caminhada pode adotar a forma de uma conversa.  O que ninguém nasce sabendo. Patrícia então compartilha conosco uma leitura intrigante do mito de Caim e Abel. Abel, pastor andante, corpo aberto no espaço à mercê do vagar de seus animais pelo campo, não se fixa. Caim é agricultor, um assentado, um posseiro. O desfecho da história, o assassinato de Abel por Caim, marca entre nós, por um lado a notoriedade do assentar-se e possuir, por outro a rejeição da mobilidade volúvel enquanto modo de vida. E por enquanto é o fim.