14.08.15. Abissal. Aula da Letícia Sekito. Anatomia experiencial. O relaxamento de cada um. O tempo de cada um. O que é relaxar. O que está funcionando neste momento.

Experimentamos os órgãos todos juntos. Intestinos, pulmões, coração, cérebro. Todos de uma vez. Os intestinos em profunda relação com as pernas. Os pulmões com os braços. O coração com as mãos. O cérebro com a cabeça.

Passamos a um toque a dois. Eu e Renato, o outro. Tocamo-nos os pulmões, o fígado, os intestinos, o coração, o cérebro. Viramo-nos de costas e tocamo-nos os rins. Um balancinho. Depois, uma explosão a dois. Eu e ele. Cumplicidade em queda livre. O corpo espaço aberto à luz do sol que perpassa os janelões da sala de ensaio da Galeria Olido.

Terminamos a exploração, Letícia pergunta ao Felipe, você tem ido ao banheiro? Não muito, ele responde. Você tem comido bem? Não muito. Tem pensado muito? Ele faz que sim. Pois, então, ela diz, tem órgãos para essas coisas.

Experimento minha própria anatomia, meus órgãos, meus padrões neurocelulares, minha formação ontogenética. Experimento o ectoderma, folheto embrionário que origina igualmente a epiderme e o sistema nervoso, a pele e o cérebro. Experimento, em movimento, padrões que vão dos invertebrados aos vertebrados, tudo é motricidade, fluidos, hormônios, embriologia. Imaginação prenhe de tato e ato. Ações especializadas em sensualizar a imaginação do próprio corpo. A mente se alastra. Imagens fazem sentido, literalmente! O que é e o que não é real. Se não sente, imagine. Se não imagina, sinta o peso da minha mão sobre os seus rins e lá estarão eles.

Neste momento uma conversa entre colegas de intuição. Opiniões abertas ao calor do momento. Cada um a seu modo, buscando expressão para aquilo que está a pensar agora. Enquanto discutem, algo acontece, olhares se desestabilizam, sentidos chegam, se abrem. Pessoas mudam de corpo e ideia aqui. Descobrem aquilo que sentem, sentem aquilo que entendem, entendem aquilo que sabem, descobrem mesmo o que são, o que podem vir a ser. Às vezes conversas conflituosas, pontiagudas, o jogo de significar o que não tem significado explícito. Às vezes catarses. Por incrível que pareça, o pensamento sentado pode ser muito mais exaustivo. Julgar com palavras o que o corpo imagina em movimento. O que dizem os corpos enquanto dançam a veemência do que não se premedita. Improviso.

Abissal é um conjunto complexo de descobertas que eles se propuseram viver, é um adensamento da história, da relação entre eles, se transformando em direção à natureza da cultura abissal.

A metamorfose reintroduz o excesso e a imprevisibilidade na ordem humana: transforma os homens em animais ou espíritos. Ela é concebida como uma modificação de essência, que se manifesta desde o nível da gestualidade até, no limite, o nível da mudança da forma corporal […] A metamorfose é desordem, regressão, transgressão – mas não se trata de uma volta, de uma recuperação pela Natureza daquilo que lhe foi roubado pela Cultura. Ela é também criação; além de manifestar uma ordem do mundo que totaliza Natureza e Cultura (ordem que retificamos, erradamente, sob o rótulo de “sobrenatural”), ela permite a reprodução da Cultura como transcendência.

 24.11.15. Apresentar um trabalho que está em processo. Radicalizar o processo enquanto trabalho. Perder o tesão quando o público se torna uma função do trabalho. Ter o maior prazer em fazer da aula a própria criação. Convidar outras espécies de gente, corpos estranhos, com efeito criativo intencional de desabituar geral e engolfar-se no negrume abissal até ele se tornar reconhecível a ponto de ser habitável. Nada dentro. Tudo é fora.

No grande improviso de se habitar o espaço coletivo em movimento, às vezes alguns dançarinos restam fora do foco. Vivem, desde a sombra, a força gravitacional da cena, do fornilho que atrai quem está no escuro. Risco em potência. Ação.

Quando, onde e como interferir. O que é interferir. Estragar é interromper o fluxo de outrem. Relações no tempo para adentrar o que no meu emana do seu. Como e por onde me fazer necessário.

A parte e o todo, o mundo e eu. Chata questão ocidental. Se os indivíduos são coletivos, se todo solo é sociológico.

A pessoa inglesa, conceitualizada como um indivíduo, era, em um sentido importante, incompleta: sempre parecia haver “mais do que” a pessoa na vida social. Quando a pessoa singular era tomada como unidade, as relações envolviam os outros como unidades semelhantes. A vida social era, assim, conceitualizada como a participação da pessoa em uma pluralidade. Como resultado, uma pessoa individual era sempre apenas parte de algum agregado mais abrangente, e portanto menos do que o todo […] O paradoxo inglês era que o holismo era uma característica de uma parte – não do todo – da vida social! Ou seja, era uma característica mais evidente em algumas perspectivas (isto é, sistêmicas) do que em outras. A maneira como os ingleses lidavam com a perspectiva tanto precipitou como foi criada pela forma como eles se imaginavam vivendo entre diferentes ordens ou níveis de fenômenos, em um mundo incomensurável de partes e todos. […] Perceber a vida a partir da perspectiva das partes discretas proporcionava, assim, uma dimensão diferente do ponto de vista conquistado a partir do todo.

Perspectivas em reciprocidade, ontologias intercambiáveis, corpos não mais vitimados pela esquizofrenia de uma completude incompleta. Um corpo por todos.

Que tipo de todo é a InSaio. Qual a sua coerência. Onde se fecha essa companhia. Que interdependência se dá entre seus membros. Qual a sua complexidade. Perguntas de pesquisa.

A fundação deste Abissal: o olhar. Longas horas preenchidas com exercícios de improviso que têm o olhar por elemento central. Olhar movimento, relação. Olhar espaço, composição. Olhar escuta, tato. Olhar transformação, transformado.

Olhar fenômeno corporal total. Ação que se difunde por todo o corpo. E o corpo inteiro olha. Quatorze pessoas improvisando danças assim, a olhar com o corpo, totais e difusas, no espaço vivo. Olhar que abre caminho para novas dissoluções.

Ao ver, enxergar, olhar, o que parece é que é você mesmo quem está lá fora, misturando-se de modo desenvolto a tudo o que vê e passando por aí como um espírito ágil de um lugar para o outro à medida que o foco de sua atenção muda. É como se as paredes e o teto de sua casa tivessem desaparecido, simplesmente, deixando-a exposta ao exterior. Resumindo, você não experimenta o ato de ver como ver o lado de fora, mas como estar do lado de fora […] A visão “é o meio que me foi dado para estar ausente de mim mesmo” […] Erga suas pálpebras e você se encontrará quase literalmente “no espaço aberto”. De fato, essa pequena frase captura perfeitamente o que Merleau-Ponty retrata como a mágica – ou o delírio – da visão. Vivemos em um espaço visual do lado de dentro, nós o habitamos e, ainda assim, esse espaço já está do lado de fora, aberto até o horizonte. Deste modo, a fronteira entre o interior e o exterior, ou entre o eu e o mundo, é dissolvida. O espaço da visão tanto nos cerca quanto passa através de nós.

Olhar experiência de luz, abertura para o mundo, operação que liquefaz as fronteiras entre o ver e o visto. Tudo embebido em luz. A visão não é das coisas, mas se dá em meio a elas.

Abissal, biografia de uma convivência que se dança, de uma história que vai ganhando a densidade e a força que esses encontros agora, nitidamente, possuem. Já são meses fazendo isso. Quatro vezes por semana o risco de se dispor ao outro, ao espaço, à dança imprevista. O tesão da experiência, aquilo que nos leva ao movimento. Quando eu me entrego a coisa toma corpo, vida, profundidade, suficiência. A experimentação compõe o processo, a memória afiança o trabalho. Abissal já existe, eu vi.

 Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.

Nossos corpos se tocam. Pelo toque, seu corpo doa volume ao meu. Aos poucos, seu corpo começa a fazer parte de mim. E aos poucos, vamos dissipando nossas fronteiras por meio dessa substancialidade comum que produzimos no espaço.

Percebo a textura, a temperatura do seu corpo. Me aproximo. Sinto o seu cheiro. Sinto a suspensão. Deixo que você envolva meu corpo. Deixo-me abranger. Nossos corpos inteiros se tocam, acoplam, formam, moldam. Corpos fundidos.

Enquanto isso, levo meu olhar interno para os pontos de contato. Olhar e tocar se equivalem. Deixo o corpo espalhar, expandir. O toque traz a sensação do volume. Meu corpo se estende sobre o seu.

Dois são um, um é dois. Seis duplas são uma e uma são seis. Devagar, nós nos incorporamos. Eu toco, eu sou tocado, uma ordem que se repete. Num agora sempre diferente, vamos nos tornando uma massa em composição amalgamada. Uma grande blástula cujo volume é extensão do meu próprio. Meu corpo extensão dessa abrangência. Um grande corpo repleto de olhares interiores.

Aos poucos, a massa vai se dissolvendo na forma de um grande círculo no qual nos entreolhamos. Silêncio. Olhar. Minutos. Alguns. Conforme os corpos se descolam uns dos outros, a sensação de amálgama persiste.

Percebo meus pés, o volume dos meus pés, raízes que se prolongam para além do chão. Corpo montanha. Toca o céu e se espalha. Respiro, fecho os olhos, levo a respiração para dentro do centro do meu corpo. Minha respiração é também um olhar. Abro as axilas. Deixo o ar entrar. Solto o fundo dos olhos, solto as narinas, deixo o ar entrar. Meu olho interior percorre todo o meu corpo a ativar a soltura de cada pedaço por onde ele passa, cada pedaço. Coração. Baço. Intestino. Rins. Lá atrás. Soltando tudo.

E nesse silêncio olhar, começamos a transferir o peso de uma perna para outra até chegarmos a um caminhar. O ajuste à gravidade é constante, sem perder a conexão com o chão. Composição em pé maior. Raízes fortes, metatarso e calcanhar.

Aos poucos, a organização dos corpos no espaço vai se dando em transmutação contínua. O olhar a percorrer todas as zonas, interiores, visíveis, exteriores, invisíveis, já não se separam. Olhares são fios narrativos cujos encontros resultam em deleite. Se o corpo se desconcentra, o olhar se perde, o fio desaparece, um silêncio, tudo muda, o espaço se quebra e se renova, algo reaparece e, de repente, estão todos no chão.

Pode mandar descer o público, diz Claudia, agora é com vocês.

São Paulo, 8 de agosto de 2016.

 

:

Eduardo Viveiros de Castro. A fabricação do corpo na sociedade xinguana. Boletim do Museu Nacional, 1979, 32:2-19.

Marylin Strathern. O efeito etnográfico e outros ensaios. “Partes e todos: refigurando relações”, p. 241-262. São Paulo, Cosac Naify, 2014.

Tim Ingold. Pare, olhe, escute! Visão, audição e movimento humano. Ponto Urbe [Online], 3 | 2008, posto online no dia 31 Julho 2008, consultado o 08 Agosto 2016. URL : http://pontourbe.revues.org/1925 ; DOI : 10.4000/pontourbe.1925

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