outra terra

10/12/2016

Ritual, reconstrução criativa, antropologia. Três pessoas entram em cena, elas desdobram, dobra a dobra, uma lona cinza onde tudo se dará. Uma pessoa tem o anelar sujo de tinta preta. O dedo manchou a base do nariz. Ela se despe e se mistura a um novelo de matéria indefinida, seu entre-seios está preto, seu sexo está preto, assim como a base do nariz e o anelar. Carvão.

Estudar a potência, levar o palco para a plateia, três pessoas (re)fazendo o ritual. Numa placa de madeirite são depositadas pedras, ossos, musgo. Um sol quadrado rodeia brilhante a furtar a cor das folhas. Defumadores, nudez total, parcial e alguma, vestida.

Tudo flutua sem foco quando chega o momento de empilhar pedras e ossos, caem, os corpos caem, tudo muda. Essa gente de onde saiu, de baixo da terra. Uma pessoa adentra o quadrado, nua da cintura para baixo, seu sexo mineral tinto de amarelo, ela segura nas mãos as pedras e os ossos, seu cabelo foi entremeado a uma nuvem de musgo, as pedras caem estourando o barulho da madeira seca. Ela vibra parece água sacolejando. Angústia, vontade de gritar. Um corpo atinge-nos o que o atinge, força invisível. Levo umas três porradas seguidas. Não fique aí parado.

O espaço muda, o ambiente fica, vejo corpos pulsantes, contínuos, quebrados, não mais pessoas, não exatamente. Não sei definir sua origem, identidade, emoção. De onde vêm, de baixo da terra não consigo saber, parecem não ter interior, são o que são, ambiente, são como o vento.

Elas se alteram, tudo se altera, resisto, mas o tempo todo dentro, imerso nesta terra nervosa, do feminino que não sei elaborar, frágil, radical, outra terra.