24/09/2017

Sai andando. É quase pôr do sol lá fora. Uma mulher, sozinha, sentada a olhar o fim da tarde. Você poderia chorar, mas uma auto num tablete corta o clima. Sai andando, você quer ir até o fim do terraço porque percebe que é possível ver de cima a entrada do Centro Cultural. Sua sombra lá embaixo se projeta sobre a parede de tijolos, ao lado do bebedouro. Ela se abaixa, aperta o botão e bebe água, você vê Adelino, o índio que até os quinze anos jamais vira um branco, a conversar com sua colega – ela parece interessada. Começa então uma cena no centro da qual uma senhora extramundana faz assim com a mão. É um gesto de poder, que reparte o espaço, divisa-o. Depois ela faz outro gesto, em que ergue um braço ao som do que tudo indica a destruição-instauração de algo, um acontecimento que não se sabe bem o que é, mas que nos toma a todos o destino. Ela repete a sequência algumas vezes, tem sede, vai até o bebedouro, a sombra lá, a macaqueá-la, a saltar sobre ela, a tentar alguma coisa. A senhora torna ao centro da cena, volta a repetir a sequência e quando num gesto último a conexão se dá, de repente, um rato, enorme, comprido, sai do banheiro, passa por Adelino e sua colega, atravessa toda a extensão do pátio e desaparece no jardim. No centro do mundo que agora é seu, lá está ela, a dona-do-poder, olhos arregalados, volumosa, regozijante do sucesso de sua conjuração.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: