24/10/2017

Falar na hora é mais do coração – criar na hora é o melhor caminho, ao invés de ensaiar. Depende da pessoa, do que, culturalmente, ela gosta. A proposta de hoje é ler para alguém. Mas ler o quê? Pensei, melhor escrever o que eu vou ler – mais fresco, mais vivo, você não acha? Acho. Eu sou um pedaço de uma obra de arte não-individual. Imagina o que isso quer dizer? Não. Quer dizer: “obra de arte que pega ônibus”; quer dizer: “esta obra é um bicho de quatro cabeças e a voz que estás a ouvir é a de um ser que não sou eu”. Deixa para lá. Palhaço com buzina reta (2007). Você já ouviu falar nesse palhaço? Você seria esse palhaço? – Um encontro, uma interação inesperada. Qual é mesmo a diferença entre a arte e a vida? Você tomaria um remédio para dormir? Eu não toparia porque eu sou muito agitado e tremo muito – é interessante, mas eu não conseguiria. De todo modo, deve ser um mistério – estar dentro dessa roupa. Jhonata. Minha arte é quando tento entender o ser humano – colocar-me no lugar de outras pessoas. Alguém te olhando e pensando se você existe ou não. – Sinceramente, existe diferença? O sonífero, esse eu toparia, é mais plausível para mim – tirando a oportunidade de proporcionar isso às pessoas. – Faço engenharia, mas quero sair do mesmo: me interesso por filosofia, arte. Estou meio de saco cheio desse início do curso, ainda não posso fazer nenhuma matéria que não envolva cálculo. É quando eu paro para observar as pessoas que eu me sinto um artista – eu crio. Culturalmente, eu gosto de ouvir, “repete, o rádio estava baixo, me dá licença” – acho que atrapalhei o segurança. Culturalmente, eu sou do campo, da roça, gosto de ouvir e ler coisas do sertão, da natureza. Se eu pudesse, voltava para lá hoje. O problema é a diferença entre São Paulo e uma cidade de três mil habitantes. Falta trabalho, o padrão de vida é outro, mas eu sei que a qualidade é melhor. Eu tenho um tio que passou dois dias em São Paulo e nunca mais voltou, e uma irmã que só compra sal e mais nada, o restante é tudo da roça dela – e também não viria morar aqui jamais. Imagino que nós, como seres humanos, nesse universo em expansão, cada um de nós é uma obra de arte. Porque o ser humano gosta de ser observado, de ser visto, seu brinco, sua barba. O ser humano é a obra de arte mais importante – porque ele é visível. As pessoas são vivas, o modelo está parado. O modelo dá ideia de que alguém esteve ali, a pessoa não, a pessoa não esteve, a pessoa está. Quem era Mona Lisa? Era ela? Era ele? Era o pintor? Você faria esse trabalho? Não. Imagina, ficar todo esse tempo parado. E palhaço dá medo, imagina alguém te chuta, te xinga e você aguentando, parado, sem falar nada. Pensa você dentro de uma escultura dessa, ouvindo, sem dar um pio… O segurança se livrou de mim, não deu nem tempo de perguntar seu nome. Erika e Mari estão dentro do espaço. Um homem está a ler o texto que escrevi sobre a v. da chefe do Filipe. Trazer maisena na semana que vem. No terraço, um namorado a alisar os seios da namorada – toque suave e desinibido. Pende um fio da árvore a cortar o cinza do céu. Não tem diferença nenhuma – cotidiano ou não-cotidiano. Isso tem toda uma relação com a arte, a arte do sentir, do dia-a-dia, cada dia de um jeito. A arte é isso – conseguir se transformar. Você se sente uma obra de arte? Acho que sim – sou muito relacionada com a música, tudo o que estou cantando e tocando transmite uma parte de mim. Não. Não sei explicar. Para você fazer parte de uma obra assim, ser o protagonista, você tem que ser muito forte, eu não teria essa força – todos têm seus pontos fracos. Todo mundo se deixa levar pelo que está sentindo – palhaço me assusta. E seria muito assustador ser o que me assusta, ser o meu oposto. Esse sim, eu faria, é mais tranquilo, dormir, o outro é assustador, esse é mais tranquilo… Pensando bem, é assustador – dormir diante do público, sem interação nenhuma, uma peça quase-morta, sem noção, a sonhar. Carla. Hoje não tem sol, hoje não tem sombra para invocarmos a dona-do-poder. Eu até que a tenho visto por aí, mais tranquila – sinto falta do seu poder transformador. Pode ser que sua latência tenha algo a ver com o que o Ricardo nos contou, que Adelino foi despedido na quarta-feira. Pegaram ele bêbado em serviço. Será difícil encontrá-lo? E no caminho de volta, os namorados a sarrar gostoso, mão na bunda e tudo mais. Um certo exibicionismo. As pessoas se divertem a olhar a cena. Mari encontra um amigo que acaba de passar por mim.

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24/10/2017

Quadrúmanos.

24/10/2017

O eu fora, o todo dentro.

15/10/2017

Me viro, bunda na terra vermelha, pés para o alto e uma perspectiva misteriosa do Centro Cultural, um recorte escheriano para dentro do qual mergulha o voo de uma ave vira-lata. Ao fundo, bem à esquerda, dois breves trechos de uma igreja mesogótica, um ser antigo surgindo detrás de chatos jovens. Um homem surge no terraço oposto, carrega um saco, parece poderoso, ele nos vê a olhá-lo, aponta-nos algo, ergue o braço, sorrio, Mari se vira a ver o que é, o homem tampa a orelha – um chamado. Erika vem, Filipe se vai. Erika tem as mãos sujas de gesso. Um canteiro – flores por vir. Erika – está descalça. A grande nuvem – vai e vem, como a polícia. O segurança surge, tudo se dissolve. Me viro para a avenida que dá numa serra enevoada pela distância, presença gigante, a ver-nos de outra era. Do buraco sai um decalque de floresta. Erika se deita de barriga através do banco. Os pés suspensos. O papel na terra. Terra.

15/10/2017

Quando começa a chover uma garrafa vazia cai no chão. Os fugitivos adentram o prédio e vêm durar conosco. Senta aqui, não pode. É passagem, este corredor precisa estar desbloqueado. Senta aqui, não pode. Encostar na parede. Sai andando. Pingam micro-gotas, metade do céu está claro, o sol nas suas costas. Volta ao lugar do acontecimento. Percebe a força escondida aqui embaixo. Nada parece saber a vibração potencial deste lugar. E nossos fiéis são discretos, todos trabalhadores, de uniforme, a empurrar em carreata seus carrinhos de limpeza. Uma mulher, um homem e Adelino, o índio de fala fácil em cujos dizeres seus colegas estão sempre interessados. Já não chove de todo. Aos pés uma trilha consolidada de formigas. Você se levanta para segui-las e vê sua sombra projetada na parede lá, alma discreta, quando, de repente, ela!, instaurada, a sair do banheiro, a dona-do-poder. Veio aproveitar os cursos d’água e lançar palavras aos passantes, depois do que ela caminha calmamente até o centro da cena, leva a garrafa à boca e ao inclinar a cabeça te olha no olho. Depois se vai, sem norma. Adelino entretém sua colega, você segue as formigas.

15/10/2017

Um diário entregue aos poucos. Um polvo gigante para um porco gigante. O meu avô era fascinado pelo pênis do porco. Filipe quer fazer o herói do rock, eu não sei se é por aí, acho que tem algo de imprescindível nesses cadernos, a Mari descobriu algo na materialidade do gesso – “eu acho que o meu maior interesse é a dança, e isso não é óbvio”. Você faria a dança de hoje? Faria.

15/10/2017

Inútil fazer com pouco o que requer mais.

15/10/2017

A falta de graça da modernidade cristã está, dentre outras inúmeras coisas, no que hoje conhecemos como A Navalha de Occam, um princípio atribuído ao lógico e frade franciscano inglês Guilherme de Ockham.

O princípio afirma que a explicação para qualquer fenômeno deve assumir apenas as premissas estritamente necessárias à explicação do mesmo e eliminar todas as que não causariam qualquer diferença aparente nas predições da hipótese ou teoria. É a “Lei da Parcimônia”, segundo a qual as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade.

[Qualquer semelhança entre ciência e monoteísmo – e, quem sabe, neoliberalismo – é pura coincidência].

O princípio recomenda, assim, que se escolha a teoria explicativa que implique o menor número de premissas assumidas e o menor número de entidades.

Originalmente um princípio da filosofia reducionista do nominalismo, a navalha é hoje uma das máximas heurísticas (regras gerais de processo) da economia “parcimoniosa” e “simples” das teorias que regem nosso mundo judaico-tecnológico.

“Se em tudo o mais forem equivalentes as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor”, diz a navalha.

A Navalha de Occam é, portanto, um princípio metodológico que, além de sugerir que as explicações mais simples são sempre as melhores, de quebra afirma que as mais complexas devem ser sempre refutadas, em qualquer situação. É navalha não, é gilete.

William de Ockham defende o princípio de que a natureza é por si mesma “econômica”, optando invariavelmente pelo caminho mais simples, o que nem de longe tem sido provado pela própria gigante “natureza”.

É claro que muitos foram contra a navalha, entre eles Walter Chatton, contemporâneo de Ockham, que afirma que “se três entes não forem suficientes para verificar uma afirmação acerca de algo, então um quarto deve ser acrescentado, e assim por diante”.

Leibniz, Kant e Karl Menger também discordaram da navalha. Leibniz afirmou que “a variedade de seres não pode ser reduzida”. Menger formulou a lei contra a avareza, segundo a qual “as entidades não podem ser reduzidas até ao ponto da inadequação”, afinal “é inútil fazer com pouco o que requer mais”.

15/10/2017

Quando eu assisti a La Bête, algo imediatamente me passou: esse trabalho é sobre nós, é sobre o público, é sobre cada uma das pessoas que se atreve a manipular o corpo absurdamente disponível de Wagner. É sobre o jogo que se cria ao redor dessa figura plástica, nua, “neutra”. Tamanha disponibilidade tem o efeito curioso de evidenciar a pessoa que manipula o bicho, tornamo-nos figura, o corpo de Wagner se torna fundo. A ansiedade, a hesitação, a violência daqueles que vão até ele para fazer dele o que bem entendem é o que salta aos nossos sentidos – algo que remete à famosa performance de Marina Abramović, em que diante de 72 itens, entre eles um machado, uma pistola e uma bala, ela fica por seis horas à disposição do público para que façam o que quiserem dela. A hesitação da menina, a vontade da mulher, é o que nos capta, a impositividade do homem que carrega o corpo inerte pelo espaço, a sacanagem da pessoa que o coloca de quatro para o público, eis a eficácia desse trabalho do Wagner – somos nós o objeto do trabalho, não ele!, é nossa crueldade e nossa curiosidade que estão em jogo, apesar de tudo indicar o contrário. Eis a sagacidade da proposta, que ao transubstanciar o bicho de Lygia no corpo de Wagner, causa uma inversão na qual nos tornamos nós os bichos. Bichos estranhos, é verdade, cuja moral se resume a jurar que se vestir é a superação da condição de animalidade, quando ao fazê-lo apenas recalcam e radicalizam o abismo que os separa de sua sexualidade – a criança invertida, o ser mais amoral de todos tornado a figura máxima da inocência, joga aqui um papel crucial. A distância como método de controle, fingir que algo não existe como caminho para a não-existência de algo. A repressão ativa de tudo o que podemos ser, viver, sentir, desejar, em nome da superação de nós próprios! – eis a safadeza abjeta de tal moral. E para todas as outras que há, quem é o pedófilo, quem está nu, afinal?

15/10/2017

Tem uma certa anarquia este trabalho que é muito boa. Amanhã eu não sei o que vai ser. Quero chegar mais cedo que da última vez. Quero ser a Erika também. Como ser a Erika. Quero voltar ao espaço do rato, do mesmo ponto, não sei. Quero não encontrar as folhas que eu deixei lá. Eu acho que a Mari é amiga desse pessoal que se deita no chão. O gesto de. A dança antes. Eu pensei em sair a ler para as pessoas. O trabalho aponta para o horizonte do terraço. Para a cor lá fora. Do lado de cá os cinzas e a porta que nunca se abre, pensamento máximo desses seres brancos de gesso contra o que tudo contrasta. Atenção: o microfone é um embuste. Quem vai até ele é um mal-olhado, um mal-ouvido. O que pode ser bom, um lugar que te projeta um ser para fora daqui. Afinal, que mundo não será este?