16/12/2017

No lugar sem-nome. O carrinho da faxina. Os banheiros. O bebedouro. Aquele homem liminar adentra o banheiro. Vento, sol vermelho. Estou de bem com as minhas pernas. Dançando. Vejo o homem, a bermuda dele suja de terra na bunda. Pequenas certezas queimadas de sol – uma garota de pernas bicolores. Eu mesmo sentado ao sol do fim da tarde, alongando-me, um sujeito tira fotos, depois pede ao Ernesto que lhe tire uma foto. Ernesto o dirige, me dá aqui a mochila, vai ali, assim, abre os braços, espirituoso, trocam sorrisos, obrigado. Lá vem Gabriel. Ele é igual à mãe. Quando cheguei, Filipe estava a fotografar A polícia vai, a polícia vem, de Dora. Sangue de comunista, escreveram na pintura dela. Filipe me contou que viu escrito no pó branco, Lula nunca mais, em resposta ao meu recorrente Fora Temer. Disse que esse é o nível mais baixo da publicidade. Que não queremos isso. Arruda hoje afirmou que as urnas eletrônicas são perfeitamente adulteráveis e que mesmo que votássemos nas pessoas certas, elas nunca seriam eleitas. Ele me perguntou se eu tenho parente ou conhecido preso. Me disse que tem um primo que foi brincar de fazer sequestro. E as famílias desses homens presos, como ficam, ele me pergunta. Contei a ele que bebo, que fumo, tabaco e maconha, ele riu, aí me contou que outro dia deu cinco mangos para um amigo comprar um baseado. Ele próprio não bebe nem fuma. Eu lhe digo que é bom conversar com ele e que me sinto levemente terrorista em distraí-lo, o chefe da segurança do Centro Cultural, que pelo menos enquanto isso podemos estar em perigo. Nada disso, ele diz, converso com você com um olho no peixe outro no gato. Então você faz muitas coisas ao mesmo tempo, isso é raro. Especialmente em homens, ele diz. Você vai para lá ou para cá, eu lhe pergunto. Ele vai em direção ao interior, vou na direção oposta, para o terraço, soltar um pouco de fumaça e caminhar até o fundo, espreitar o pátio, tirar a camisa, me alongar, escrever miudezas. Quando eu voltar eles já estarão lá, jogados no gesso em pó, apressados pela ansiedade portuguesa do meu amigo. Dou sete goles d’água, para dar sorte. Passo pelo Arruda, vou virar massa. Aí sim, ele diz. Me sento ao lado de Denise-a. Acho graça do menino a espirrar, perdido em seu brinquedo. Os três emitem certa tristeza. Mari me olha. Tiro os sapatos, adentro o espaço, desenho no chão com os pés e vou arrancando do caderno as folhas com os meus escritos dos últimos dias, me empolgo, arranco também estas. Me aproximo deles. Leio algo. Mexo-me neles. Mari a levitar Erika peixe. Filipe entre o comprido e o minúsculo. Sei que viramos a esfinge do Grupo de Estudos quando sou devidamente engolido pelo chão em escombros, donde surge o bicho que aqui vive, a quimera cega e lasciva em cuja estranha casa uma mulher e sua filha se refugiam em júbilo contra o mundo de nosso senhor. Gosto que os pés vão para você, a Luara me diz, gosto de como seu rosto se encaixa neles.

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13/12/2017

Hoje eu não escrevi uma palavra sequer. Dançamos a escrita-fantasma, Erika, Mari e eu, por duas horas e meia – sensação térmica de meia. Entremeados na poeira branca, trocamos de pele. O atrito esfoliante, suporte, cuidado. Sem se dar conta, a mão adentra a terra que guarda enterradas folhas de papel e dá ao corpo de ler. Pedras. Erika nos aparece das cinzas. Sobrevivente mágica. Os gestos passam por nós, os outros, duram o tempo que desaparecem. Fotografias espontâneas. Denise chega, se senta ao lado de Denise-a. Espirro giro num arco pelo chão até os olhos dela a rir. Riem. Rio. Viramos o Grupo de Estudos. Ela se junta a nós no momento em que estamos a pegar nas mãos areia, que cai devagar, ampulheta sobre o corpo que então engole Denise. Ouve-se a segurança a chamar o parceiro no rádio e dizer que aqueles dois rapazes de boné ao fundo do terraço estão fumando. Um trio adentra o espaço. Uma garota se senta ao lado de eu-o e fica a olhar nosso contorno ruinoso, maçaroca a rolar aos pés de um microfone engessado. Eu toda vez que vejo a garota lhe sorrio um sorriso de ente. A barba em pó. Ela sorri de volta um olhar entre vidrado, tranquilo e desapareço. Um rapaz está a ler das folhas que vai encontrando. O que eles querem é interação, ele diz, este espaço é aberto, ao que Mari sorri. Obrigada por hoje, Erika ensina que acabamos de viver um crescimento, a expansão das experiências de vida que se deram nesse intervalo de praticamente um mês sem experimentar a força macia do nosso movimento.

10/12/2017

Hoje vamos moldar a Denise. Filipe acaba de deitar sua máscara mortuária no chão sobre um monte de pó branco, à saída do espaço. Um par de técnicos está a desligar as lâmpadas que cobrem o espaço. A cada lâmpada que se vai apagando, o mesmo vai se transformando – os corpos em gesso ganham volume, se destacam no escurecido. Mari está de volta, passou as últimas semanas em castelhano, está feliz em português, no qual a segurança grita conosco que não podemos mudar o banco de lugar. O meu sangue sobe com uma abordagem dessas, a Mari diz. É verdade, não precisava falar desse jeito – lhe explicamos que estamos aqui a trabalhar e num sorriso amarelo a graça se esvai. Derramo café sobre o caderno. A equipe de segurança colocou uma faixa de isolamento na lateral do espaço a ver se inibe os casais apaixonados. Mas Mari e eu sabemos que se trata de gesto preguiçoso. Além disso, somos impertinentes. Vamos até lá e arrancamo-la. Gostamos dos casais. Nova conversa com Arruda, o segurança que me contou a treta do Dória colocar a GCM no Hospital do Servidor, onde, por isso, ele não trabalha mais. Arruda demora duas horas de casa até aqui. É um homem sensível. Antes, passava todo o tempo a olhar a multidão. Agora ele o aproveita a ler. Lê quatro páginas no caminho, não à maneira corrida. Toma tempo a meditar cada passagem. Passa por Aristóteles, Platão… Ele disse que, agora que sabe que pode, vai botar algumas ideias no papel e trazê-las para cá. Disse que todos os dias ao chegar vem averiguar se está em ordem o espaço. Ele faz vídeo-aulas de mecânica, informática, e também lê um pouco de espanhol. Estou diante do meu outro. Em posição quase idêntica estamos. Ele tem os escritos-pedra, eu os escritos-água. Entra uma mulher, depois um rapaz. Ela vira a cabeça em movimentos bruscos a cada descoberta. Ele fotografa. Neste momento, parece ter notado a sobreposição de nossas presenças – eu ele eu ele. Nossos outros envelhecem conosco. O duplo da Erika engordou, sua bunda caiu um pouco. Mari-outra também envelheceu. Apenas Filipe-outro permanece jovem? Cadê Denise que não chega? O fotógrafo registra a máscara mortuária a brotar do branco em pó. Arruda me disse que vem aqui e se perde a imaginar o que estarão a pensar esses nós-outros. Ele olha Mari-outra e diz, aquela ali está no alto de uma colina observando a paisagem. Uma toalha de piquenique ao lado, acrescento. A imaginação é infinita, concluímos. Você vai anotar isso, ele me pergunta. Digo que sim. Ele abre um sorriso. Aqui não precisamos adivinhar a vida das pessoas, como fizemos no Santana, aqui temos tempo, criamos tempo de nos encontrar com elas. Esta cozinha é um fantasma, foi demolida e não existe mais, a não ser aqui, por meio dessa existência estranha. Um dia o vento correu e bateu com força aquela porta, uma criança passou por ali a correr. Um dia correu água por aqueles canos, ao abrir da torneira. Um dia correu eletricidade entre aquelas tomadas, pelo clique do interruptor. Hoje a própria cozinha é eletricidade, arranjo de luz e sombra. Bem de perto, a grade de pixels é tremeluzente, vibra com a cidade e os automóveis ininterruptos lá fora. Mari está a conversar com meus escritos-pedra, ela chega a transcrever alguns. Ela chama minhas palavras de despudoradas e concluímos que de fato o são. Minha fala é o que já sei, meus escritos não: são tudo o que ignoro. Conto a ela a resolução dos ridículos coágulos de neurose que vertiam de mim, o celular, a mensagem equivocada… Denise chega. É hora de fazer Denise-outra.

10/12/2017

Como se tivesse vindo a vontade na hora. O que acontece na hora. Sem ensaiar. Eu não chamaria outra pessoa. 24.11.17. De volta ao Centro Cultural São Paulo, depois de três semanas. Tudo se passou, temporal, espacial, existencialmente. Denise está a ler o livrinho amarelo. Mariana e Erika não vêm. Mari está no Uruguai, Erika eu não sei, deve estar fazendo mágicas alquímicas, percorrendo campos de chá – quero fazer essas coisas que ela faz, quero ver essas coisas que ela vê. Hoje quem está conosco é o José, ele é de Santo André, acaba de chegar ao CCSP e nunca havia estado aqui. Um casal adentra o espaço a sorrir. Nossa obra agora conta com a presença de microrganismos fúngicos que tomam a forma de uma nuvem negra semelhante a um novelo de pelos – junto a duas manchas no rodapé que parecem manchas de café. As faxineiras olham para mim, eu para elas, lhes sorrio, elas de volta. Carol também veio, ela tem cólica e está a ler a Desumanização de Walter Hugo. Outro casal adentra o espaço, hoje é o dia do casal. “Olha o tamanho desta cabeça, cabe o meu braço inteiro”; “Eu tenho gesso em casa, dá para fazer umas coisas assim, você fica parado lá”. A Erika, afinal, vem – chega mais tarde. Cá estamos, de volta às nossas sextas-feiras, ao Grupo de Estudos. Vou para o terraço observar o pátio, a ver se acontece alguma coisa. A sombra do pombo lá embaixo é a mais nítida de todas, ele está a centímetros da sombra. A minha é um borrão, já que estou a uns sete metros dela. Faz um dia róseo de sol. Pego uma pena de pombo na grama. No terraço oposto há agora uns toldos que dão asas, debaixo dos quais eu fumaria um baseado. Num dia como este, a transparêncio-reflexividade dos vidros do CCSP ganha vida e aquela alegre bruxa arquiteta que projetou este lugar se regozija em seu leito. Vejo Filipe ao longe. Apreendo seu tamanho entre o polegar e o indicador, dá meio centímetro. Hoje o dia está tão ralo, mas tão ralo que nem uma rusga de potência se depreende do chão cujos poderes conhecemos. A não ser pela chegada da Erika, de relance, a falar ao telefone. Filipe está mais próximo. Dois centímetros entre o polegar e o indicador. Tiro a camisa, faz calor. Em São Paulo é como ficar nu, no Rio a nudez é a roupa das pessoas. Em Belo Horizonte é outra coisa. Filipe se deita na grama. Adolescentes profanam o pátio com seu frisbee-sem-poder, um dia realmente sem graça. E essas coreografias, esses clichês de movimento. Filipe segue deitado na grama. Erika já deve estar no espaço a esta altura. Vou para lá, pelo caminho das formigas. Que sumiram. Estranho, a grama inclusive já está a fechar a trilha. Medida de segurança? Delas? Nossa? Será que aqui andam a censurar as formigas também? A trilha abandonada, de todo modo, me leva ao Filipe, deitado na grama, eu de pé aos seus pés. Ele, a sorrir, agora mede todo o comprimento do meu palmo. De volta ao espaço. No caminho estive a pensar nas presenças que se repetem aqui e nas que não se repetem. Quais persistem, quais não. E ao chegar, encontro, em roda com Erika e Denise, o rapaz que esteve conosco no dia da cerimônia do chá. Vocês são um grupo, ele pergunta, sim, um grupo de estudos. Ele é bonito, doce, seu cabelo escuro encaracolado, seus olhos são grandes e atentos e suas bochechas estão constantemente coradas. Ouço Erika a falar de produtores artesanais de chá e me lembro do diário de Anne Frank, que passei a tarde de ontem na Casa do Povo a ler. Me surpreendi com as sagacidades dessa garota de treze anos a dobrar três vezes o professor de matemática. Um pai e um filho passam reto em direção ao terraço e logo voltam e vão embora. Rede Concepcionista de Ensino [?!] é o que está escrito no uniforme do menino que, sério, chama o pai, “Vem”. Que tipo de rede será essa? Erika e o jovem das bochechas seguem debatendo o trabalho dela com chás. Filipe fotografa os fungos. Ontem, em Sangue, Flip nos convidou para um groove no palco e depois sangrou sua existência ali, conosco em cena. Um boy empertigado passa com sua super câmera pendurada no pescoço. Tantas câmeras por aí e a compulsão fotográfica de Rodrigo. Palavras cujo significado eu sei sem exatamente saber. Espero que a Denise esteja registrando essa conversa sobre chás, pois estou distante o suficiente para ouvir, mas não o bastante para compreender. Um amigo me disse que sou tergiversador. Disse que, em termos de filhos, eu crio ideias, preconceitos e expectativas, e que a realidade está aí para romper o véu das ideias. Os monoteístas são assim, eu lhe respondi, acreditam na Realidade única, só deles, e com maiúscula. O resto, creem, é pura e simplesmente ideia. São perigosos os monoteístas. Por que você voltou, pergunta Erika a Samuel. Por você, ele diz. Erika, como Anne, tem admiradores. Ela nos coloca uma questão, como você se chama, não você, o outro, como se chama? Chama o quê? O seu outro, como ele se chama? Joe, eu digo, inspirado no Blade Runner de ontem à noite. Não, ela insiste. Quando você se refere a ele, como você o chama? Acho que chamo de ‘meu duplo’, por quê? Por que eu digo ‘o molde do Filipe’, mas o da Mari eu chamo de Mari e o meu chamo de ela. O que Samuel tem vontade de fazer no espaço? Samuel Tem vontade de mudar a projeção, projetar outras coisas além desta imagem. Erika rouba um chumaço de folhas do caixote de passarinhos. A Frase lá dentro diz “conte a história do seu último animal de estimação”. Trem bobo feito o dia. Alguém olha e diz, “era uma vez um cachorro chamado Chocolate”. Leio este texto para o Filipe, ele me lê o seu. Bons encontros ao menos. Para ele, para todos, o mesmo dia choco, estranho, sem gravidade.