10/12/2017

Como se tivesse vindo a vontade na hora. O que acontece na hora. Sem ensaiar. Eu não chamaria outra pessoa. 24.11.17. De volta ao Centro Cultural São Paulo, depois de três semanas. Tudo se passou, temporal, espacial, existencialmente. Denise está a ler o livrinho amarelo. Mariana e Erika não vêm. Mari está no Uruguai, Erika eu não sei, deve estar fazendo mágicas alquímicas, percorrendo campos de chá – quero fazer essas coisas que ela faz, quero ver essas coisas que ela vê. Hoje quem está conosco é o José, ele é de Santo André, acaba de chegar ao CCSP e nunca havia estado aqui. Um casal adentra o espaço a sorrir. Nossa obra agora conta com a presença de microrganismos fúngicos que tomam a forma de uma nuvem negra semelhante a um novelo de pelos – junto a duas manchas no rodapé que parecem manchas de café. As faxineiras olham para mim, eu para elas, lhes sorrio, elas de volta. Carol também veio, ela tem cólica e está a ler a Desumanização de Walter Hugo. Outro casal adentra o espaço, hoje é o dia do casal. “Olha o tamanho desta cabeça, cabe o meu braço inteiro”; “Eu tenho gesso em casa, dá para fazer umas coisas assim, você fica parado lá”. A Erika, afinal, vem – chega mais tarde. Cá estamos, de volta às nossas sextas-feiras, ao Grupo de Estudos. Vou para o terraço observar o pátio, a ver se acontece alguma coisa. A sombra do pombo lá embaixo é a mais nítida de todas, ele está a centímetros da sombra. A minha é um borrão, já que estou a uns sete metros dela. Faz um dia róseo de sol. Pego uma pena de pombo na grama. No terraço oposto há agora uns toldos que dão asas, debaixo dos quais eu fumaria um baseado. Num dia como este, a transparêncio-reflexividade dos vidros do CCSP ganha vida e aquela alegre bruxa arquiteta que projetou este lugar se regozija em seu leito. Vejo Filipe ao longe. Apreendo seu tamanho entre o polegar e o indicador, dá meio centímetro. Hoje o dia está tão ralo, mas tão ralo que nem uma rusga de potência se depreende do chão cujos poderes conhecemos. A não ser pela chegada da Erika, de relance, a falar ao telefone. Filipe está mais próximo. Dois centímetros entre o polegar e o indicador. Tiro a camisa, faz calor. Em São Paulo é como ficar nu, no Rio a nudez é a roupa das pessoas. Em Belo Horizonte é outra coisa. Filipe se deita na grama. Adolescentes profanam o pátio com seu frisbee-sem-poder, um dia realmente sem graça. E essas coreografias, esses clichês de movimento. Filipe segue deitado na grama. Erika já deve estar no espaço a esta altura. Vou para lá, pelo caminho das formigas. Que sumiram. Estranho, a grama inclusive já está a fechar a trilha. Medida de segurança? Delas? Nossa? Será que aqui andam a censurar as formigas também? A trilha abandonada, de todo modo, me leva ao Filipe, deitado na grama, eu de pé aos seus pés. Ele, a sorrir, agora mede todo o comprimento do meu palmo. De volta ao espaço. No caminho estive a pensar nas presenças que se repetem aqui e nas que não se repetem. Quais persistem, quais não. E ao chegar, encontro, em roda com Erika e Denise, o rapaz que esteve conosco no dia da cerimônia do chá. Vocês são um grupo, ele pergunta, sim, um grupo de estudos. Ele é bonito, doce, seu cabelo escuro encaracolado, seus olhos são grandes e atentos e suas bochechas estão constantemente coradas. Ouço Erika a falar de produtores artesanais de chá e me lembro do diário de Anne Frank, que passei a tarde de ontem na Casa do Povo a ler. Me surpreendi com as sagacidades dessa garota de treze anos a dobrar três vezes o professor de matemática. Um pai e um filho passam reto em direção ao terraço e logo voltam e vão embora. Rede Concepcionista de Ensino [?!] é o que está escrito no uniforme do menino que, sério, chama o pai, “Vem”. Que tipo de rede será essa? Erika e o jovem das bochechas seguem debatendo o trabalho dela com chás. Filipe fotografa os fungos. Ontem, em Sangue, Flip nos convidou para um groove no palco e depois sangrou sua existência ali, conosco em cena. Um boy empertigado passa com sua super câmera pendurada no pescoço. Tantas câmeras por aí e a compulsão fotográfica de Rodrigo. Palavras cujo significado eu sei sem exatamente saber. Espero que a Denise esteja registrando essa conversa sobre chás, pois estou distante o suficiente para ouvir, mas não o bastante para compreender. Um amigo me disse que sou tergiversador. Disse que, em termos de filhos, eu crio ideias, preconceitos e expectativas, e que a realidade está aí para romper o véu das ideias. Os monoteístas são assim, eu lhe respondi, acreditam na Realidade única, só deles, e com maiúscula. O resto, creem, é pura e simplesmente ideia. São perigosos os monoteístas. Por que você voltou, pergunta Erika a Samuel. Por você, ele diz. Erika, como Anne, tem admiradores. Ela nos coloca uma questão, como você se chama, não você, o outro, como se chama? Chama o quê? O seu outro, como ele se chama? Joe, eu digo, inspirado no Blade Runner de ontem à noite. Não, ela insiste. Quando você se refere a ele, como você o chama? Acho que chamo de ‘meu duplo’, por quê? Por que eu digo ‘o molde do Filipe’, mas o da Mari eu chamo de Mari e o meu chamo de ela. O que Samuel tem vontade de fazer no espaço? Samuel Tem vontade de mudar a projeção, projetar outras coisas além desta imagem. Erika rouba um chumaço de folhas do caixote de passarinhos. A Frase lá dentro diz “conte a história do seu último animal de estimação”. Trem bobo feito o dia. Alguém olha e diz, “era uma vez um cachorro chamado Chocolate”. Leio este texto para o Filipe, ele me lê o seu. Bons encontros ao menos. Para ele, para todos, o mesmo dia choco, estranho, sem gravidade.

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