10/12/2017

Hoje vamos moldar a Denise. Filipe acaba de deitar sua máscara mortuária no chão sobre um monte de pó branco, à saída do espaço. Um par de técnicos está a desligar as lâmpadas que cobrem o espaço. A cada lâmpada que se vai apagando, o mesmo vai se transformando – os corpos em gesso ganham volume, se destacam no escurecido. Mari está de volta, passou as últimas semanas em castelhano, está feliz em português, no qual a segurança grita conosco que não podemos mudar o banco de lugar. O meu sangue sobe com uma abordagem dessas, a Mari diz. É verdade, não precisava falar desse jeito – lhe explicamos que estamos aqui a trabalhar e num sorriso amarelo a graça se esvai. Derramo café sobre o caderno. A equipe de segurança colocou uma faixa de isolamento na lateral do espaço a ver se inibe os casais apaixonados. Mas Mari e eu sabemos que se trata de gesto preguiçoso. Além disso, somos impertinentes. Vamos até lá e arrancamo-la. Gostamos dos casais. Nova conversa com Arruda, o segurança que me contou a treta do Dória colocar a GCM no Hospital do Servidor, onde, por isso, ele não trabalha mais. Arruda demora duas horas de casa até aqui. É um homem sensível. Antes, passava todo o tempo a olhar a multidão. Agora ele o aproveita a ler. Lê quatro páginas no caminho, não à maneira corrida. Toma tempo a meditar cada passagem. Passa por Aristóteles, Platão… Ele disse que, agora que sabe que pode, vai botar algumas ideias no papel e trazê-las para cá. Disse que todos os dias ao chegar vem averiguar se está em ordem o espaço. Ele faz vídeo-aulas de mecânica, informática, e também lê um pouco de espanhol. Estou diante do meu outro. Em posição quase idêntica estamos. Ele tem os escritos-pedra, eu os escritos-água. Entra uma mulher, depois um rapaz. Ela vira a cabeça em movimentos bruscos a cada descoberta. Ele fotografa. Neste momento, parece ter notado a sobreposição de nossas presenças – eu ele eu ele. Nossos outros envelhecem conosco. O duplo da Erika engordou, sua bunda caiu um pouco. Mari-outra também envelheceu. Apenas Filipe-outro permanece jovem? Cadê Denise que não chega? O fotógrafo registra a máscara mortuária a brotar do branco em pó. Arruda me disse que vem aqui e se perde a imaginar o que estarão a pensar esses nós-outros. Ele olha Mari-outra e diz, aquela ali está no alto de uma colina observando a paisagem. Uma toalha de piquenique ao lado, acrescento. A imaginação é infinita, concluímos. Você vai anotar isso, ele me pergunta. Digo que sim. Ele abre um sorriso. Aqui não precisamos adivinhar a vida das pessoas, como fizemos no Santana, aqui temos tempo, criamos tempo de nos encontrar com elas. Esta cozinha é um fantasma, foi demolida e não existe mais, a não ser aqui, por meio dessa existência estranha. Um dia o vento correu e bateu com força aquela porta, uma criança passou por ali a correr. Um dia correu água por aqueles canos, ao abrir da torneira. Um dia correu eletricidade entre aquelas tomadas, pelo clique do interruptor. Hoje a própria cozinha é eletricidade, arranjo de luz e sombra. Bem de perto, a grade de pixels é tremeluzente, vibra com a cidade e os automóveis ininterruptos lá fora. Mari está a conversar com meus escritos-pedra, ela chega a transcrever alguns. Ela chama minhas palavras de despudoradas e concluímos que de fato o são. Minha fala é o que já sei, meus escritos não: são tudo o que ignoro. Conto a ela a resolução dos ridículos coágulos de neurose que vertiam de mim, o celular, a mensagem equivocada… Denise chega. É hora de fazer Denise-outra.

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