plateia

26/08/2012

A dança das bundas orgânicas é o nome do meu próximo texto. Elas respiram e dançam e caem de paraquedas no colo de crianças pops de vanguarda.

quase vinte e oito

25/07/2012

Ontem se arrumou uma cena singular: como fosse dormir tarde, patife e chapado, adentrei um estado de euforia um tanto volátil, talvez por conta de uma véspera marcante, e dancei na cama, no quarto escuro, uma composição instantânea – imaginei a plateia, embarquei numa movimentação de força e me reconheci dançarino, num corpo recém-admitido a dançar seus quase vinte e oito anos.

afinal

03/07/2012

À mesa de trabalho, da janela do meu quarto, no Alto da Lapa, São Paulo, temos essa noite uma vista surpreendentemente interiorana. Estamos num canto arborizado de uma cidade do interior de Minas Gerais, onde estamos, afinal.

02/03/2012

Indigesta esta foto, difícil de entender, a sombra causa um efeito estranhíssimo, parece um pau monstruoso e meio-mole. Não estou certa se é bela. Mas sim estranha e desnecessária. Tive gastura, fiquei com preguiça de você. O corpo nu tem para mim um mistério a ser revelado em situações apenas transcendentais ou quase isso. Devo ser retrógrada demais para discutir isto contigo.

branca

01/03/2012

São Paulo, dia primeiro de março de 2012, apesar de não parecer é madrugada nesta foto. O recurso que usei para captar a cor branca das três figuras terminou por tirar ao céu seu negrume. Mas isso pouco importa. Trata-se simplesmente de três figuras até então inteiras que se liquefazem quando meto os olhos no visor para sacar-lhes a foto. O que se encontra registrado aqui é o deslocamento da cor parede abaixo, escorrendo rumo ao chão. Sozinho, meio bêbado, de madrugada, meu estupor foi tamanho que demorei alguns segundos para tirar a foto antes que as três liquescessem por completo. Na foto seguinte elas já não estão, as paredes negras, o chão encharcado de tinta branca.

lagosta

13/02/2012

Hoje quando eu abri a torneira saiu lá de dentro ao invés de água uma libélula que de resto voou e atravessou a fumaça do cigarro, repetindo à minha frente a cena que eu vira muitos anos atrás, um avião de guerra que gira, desce de banda e fura uma enorme nuvem, sem no entanto jamais sair de lá. Lembro como se fosse hoje da sensação que aquilo me causou. Um avião que invade uma nuvem e simplesmente desaparece dentro dela. Anos mais tarde, na aula de química, dividindo o microscópio com a Marcela, que era a menina mais bonita da turma não aos olhos de todos, é claro, manifestei pela primeira vez o hábito que tenho até hoje, de associar as mulheres que desejo às nuvens e a mim o avião. Lembro-me como se fosse agora, da primeira vez que entrei na Marcela, e ainda hoje tenho a perfeita sensação de estar dentro dela, dela e de todas as outras que amei, como se as mulheres da minha vida fossem nuvens concêntricas no interior das quais pairo avião. Mas não é isso. Sem saber, naquele momento eu me dava conta de que nascera para fora dos limites. A cena da nuvem é a primeira lembrança que tenho do meu gosto pela irrealidade.  E isso vem comigo. Certa vez ainda criança, eu me lembro, o professor de canto da escola, que na verdade era filósofo, disse que não havia canto fora da nota, que era impossível cantar lá. Nem quando a gente sonha, eu perguntei, e todo mundo riu e eu fiquei de castigo. Em casa contei o caso a minha mãe, que sugeriu que eu escrevesse uma carta ao professor. Prezado Professor Carlos Eduardo, escrevo esta carta para dizer que o senhor me deve desculpas. Eu não fiz nada de errado. No primeiro dia de aula você disse que as perguntas eram livres e que a curiosidade era a prova da inteligência. Assim, quando você disse hoje durante a aula que nada havia fora da nota, eu me lembrei de um sonho, um sonho em que eu cantava e sentia medo de desafinar e lhe fiz uma pergunta, a que o senhor respondeu grosseiramente punindo não apenas a minha curiosidade como também minha inteligência. Atenciosamente, seu aluno, Jacques de Brito. É evidente que minha mãe deu seu sotaque àquela carta, eu contava então seis anos e mal sabia escrever. Dizem que há um momento primevo do desenvolvimento cerebral humano em que o que não vemos não existe mais. Sumiu! Achou! Sumiu! Achou! É o deslumbre do neném com a magia da morte que vive e torna a morrer. Pois algum mau andamento próprio do meu desenvolvimento cerebral certamente se deu que eu não passei muito bem dessa fase visto que até hoje aquele avião segue enfiado naquela nuvem e eu dentro da Marcela e de todas as outras. O carro que dobra a esquina e desaparece morre. Não sei distinguir o fato do feito e é esse o burro que me tornei e o qual me descobri no dia em que a Marcela me pediu o caderno emprestado para copiar a matéria, no qual encontrou algumas notas em que eu relatava em primeira pessoa histórias que jamais vivera. Ontem, o caminhão de lixo passou e a gente correu atrás. Eu e o Marcio alcançamos o caminhão e os lixeiros deixaram a gente ficar  lá em cima, dando voltas pela cidade com a gente enquanto eles faziam a coleta. Os lixeiros são gente boa e no final eles ainda deixaram a gente na Antônio Carlos e a gente voltou a pé. Marcela me perguntou se era verdade ao que respondi que diferença faz. Naquele dia ela azedou comigo e eu descobri que dentro de mim havia uma coisa da qual eu deveria me proteger, um forte sentido para o que ainda não existe. E passei a me interessar por livros e assim pelas histórias que eu tão naturalmente tomei por verdadeiras. Frente a um confessionário aos doze anos eu disse ao padre que meu pecado devia ter algo a ver com as experiências que eu vinha tendo num laboratório que eu mantinha no porão de casa. Que tipo de experiências. Experiências genéticas, padre, eu preciso fazer um pelicano dar à luz uma lagosta.

cidade

06/02/2012

Mãos afora espalmadas, a confessar o que temem os olhos reconhecer, estes miram o chão. Devagar num pesar que se prolongue do verde ao laranja, é fim de tarde, é o fim. Os jovens corpos estão velhos. É fim de tarde, é o fim nas encostas ensolaradas da ruína. Aqui é preciso entender-se com as paredes, absolvê-las para que caiam em paz, antes e depois de nós. Como isso vaza, água pelo cano quebrado lambe pó e baba fora do enquadramento. Enquanto isso há movimento por entre as molduras insólitas talhadas a golpes de marreta, prenúncio do entulho, preâmbulo da poeira. A água segue deitando baba, e agora os corpos escorrem da janela pela parede. Humanos, frescos e vestidos, fazem da cintura para cima os dentes de baixo de uma boca janela metade decadência, e desaparecem no ocaso por trás do sol poente. Escombros. Um corpo pende do nada, diâmetro de buraco algum. Corpos por acontecer, cabelos pendentes, as mãos carregam pedras nenhuma que se atire, caem que caem os braços. A cidade vela, a gravidade dança. Pedras descem, cabelos sobem, olhos baixos, a poeira ascende. Restam mãos de adeus, água escorrendo e o céu da cidade.

evolução

04/01/2012

O inanimado se converte em grande número de existires. Tudo é uma porção indeterminada de motivos. Quantas vezes deixei de ser exato para não chegar, por largo espaço de tempo, a uma estância sequer. Tantos assuntos que tão melhores mistérios que nada chega nunca a tanto, a tal ou qualquer ponto. Excedo-me por gracejo, digo coisa com coisa do arco da velha. Confundo-me, interpreto muito mal, troço do dizer, zombo da compreensão. Não sei das coisas. Ando por aí a colorir desejos noturnos, transitórios, políticos. Oponho-me. Teorias, nada empíricas, hipóteses que correm mundo numa fala rabiscada. Riscos ao acaso, sem esboço, sem resumo. Os ignorantes não podem, nem devem, se comportar. Eu não tenho casa, desocupo, sem lugar, pela metade, os países, todos, que não visitei. Corro para dentro do meu oco e passo ali fins inteiros de semana a lustrar o que não sei, estariam os seres sobrenaturais sujeitos às leis da evolução?