10/09/2012

sepulteiro

06/03/2012

Anel de brilhante, dinheiro no bolso, cinzas às cinzas, todos caímos. Quando escavar minha cova, senhor sepulteiro, deixa-a rasa por favor que eu quero sentir a chuva.

02/03/2012

Indigesta esta foto, difícil de entender, a sombra causa um efeito estranhíssimo, parece um pau monstruoso e meio-mole. Não estou certa se é bela. Mas sim estranha e desnecessária. Tive gastura, fiquei com preguiça de você. O corpo nu tem para mim um mistério a ser revelado em situações apenas transcendentais ou quase isso. Devo ser retrógrada demais para discutir isto contigo.

branca

01/03/2012

São Paulo, dia primeiro de março de 2012, apesar de não parecer é madrugada nesta foto. O recurso que usei para captar a cor branca das três figuras terminou por tirar ao céu seu negrume. Mas isso pouco importa. Trata-se simplesmente de três figuras até então inteiras que se liquefazem quando meto os olhos no visor para sacar-lhes a foto. O que se encontra registrado aqui é o deslocamento da cor parede abaixo, escorrendo rumo ao chão. Sozinho, meio bêbado, de madrugada, meu estupor foi tamanho que demorei alguns segundos para tirar a foto antes que as três liquescessem por completo. Na foto seguinte elas já não estão, as paredes negras, o chão encharcado de tinta branca.

é

01/03/2012

Uma impressão agoniada. Algo como o semblante de um homem que busca de alguma maneira compreender ainda que momentaneamente o jeito de uma mulher ou o funcionamento de algo que ele acaba de conhecer e portanto desconhece. Ele se pergunta por que as coisas têm de ser assim, olha para o lado, admite que não haja resposta porque a pergunta é ruim ainda que inevitável e enquanto isso você lhe desenha o corpo suspenso torto. Você o concebe e se pergunta se aquele homem teria tudo o que merece ou se por alguma razão ele jamais terá sido quem é.

ver

27/02/2012

Eu e o Guilherme a comíamos, o marido assistindo escornado numa poltrona velha de couro marrom se masturbando para os nossos corpos nus sobre o carpete vermelho. Às vezes ele não se masturbava, apenas nos espiava com um olhar que jamais foi incômodo apenas forte. Da primeira vez eu jogava videogame – ela assentou a mão no meu pau, constatou satisfeita sua rijeza, abriu-me o zíper da calça e disse olhando nos meus olhos enfeitiçados agora eu vou fazer uma coisa que ainda mulher alguma te fez e me chupou e eu gozei dois minutos antes de o filho dela voltar da padaria. Na primeira vez em que transamos eu me espantei fortemente com o quanto ela gozava – sua loucura era ter-nos jovens a penetrar-lhe. Éramos para ela uma espécie de fonte da juventude e eu compreendia isso. Mas jamais pude entender o prazer que aquele homem sentia e até hoje isso me confunde. Eu tinha doze anos, jogávamos videogame na casa do moleque sardento que era o filho dela, ela mandou o filhote comprar alguma coisa para o lanche, disse ao marido que fosse para o quarto e fechasse a porta. Ela então me chupou e só vim a entender algum tempo depois que o marido nos olhasse pela fechadura quando pela primeira vez ele colocou um vídeo pornô e insinuou sem dizer sequer uma palavra [ele jamais disse nada] que comêssemos a sua mulher para ele ver.

cidade

06/02/2012

Mãos afora espalmadas, a confessar o que temem os olhos reconhecer, estes miram o chão. Devagar num pesar que se prolongue do verde ao laranja, é fim de tarde, é o fim. Os jovens corpos estão velhos. É fim de tarde, é o fim nas encostas ensolaradas da ruína. Aqui é preciso entender-se com as paredes, absolvê-las para que caiam em paz, antes e depois de nós. Como isso vaza, água pelo cano quebrado lambe pó e baba fora do enquadramento. Enquanto isso há movimento por entre as molduras insólitas talhadas a golpes de marreta, prenúncio do entulho, preâmbulo da poeira. A água segue deitando baba, e agora os corpos escorrem da janela pela parede. Humanos, frescos e vestidos, fazem da cintura para cima os dentes de baixo de uma boca janela metade decadência, e desaparecem no ocaso por trás do sol poente. Escombros. Um corpo pende do nada, diâmetro de buraco algum. Corpos por acontecer, cabelos pendentes, as mãos carregam pedras nenhuma que se atire, caem que caem os braços. A cidade vela, a gravidade dança. Pedras descem, cabelos sobem, olhos baixos, a poeira ascende. Restam mãos de adeus, água escorrendo e o céu da cidade.

evolução

04/01/2012

O inanimado se converte em grande número de existires. Tudo é uma porção indeterminada de motivos. Quantas vezes deixei de ser exato para não chegar, por largo espaço de tempo, a uma estância sequer. Tantos assuntos que tão melhores mistérios que nada chega nunca a tanto, a tal ou qualquer ponto. Excedo-me por gracejo, digo coisa com coisa do arco da velha. Confundo-me, interpreto muito mal, troço do dizer, zombo da compreensão. Não sei das coisas. Ando por aí a colorir desejos noturnos, transitórios, políticos. Oponho-me. Teorias, nada empíricas, hipóteses que correm mundo numa fala rabiscada. Riscos ao acaso, sem esboço, sem resumo. Os ignorantes não podem, nem devem, se comportar. Eu não tenho casa, desocupo, sem lugar, pela metade, os países, todos, que não visitei. Corro para dentro do meu oco e passo ali fins inteiros de semana a lustrar o que não sei, estariam os seres sobrenaturais sujeitos às leis da evolução?

28/09/2011

28/09/2011