04/07/2012

À guerra vamos todos iguais de cima a baixo. A diferença entre nós, disse o baixinho Franz, desafiador, é que minhas calças são mais curtas e você usa óculos e bigode. Mas Marcus, imperturbável, estava visivelmente mais ocupado com o inimigo. No front, maior o soldado maior o alvo, ele explicou.

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30/05/2012

uníssono

18/10/2011

É difícil saber pra onde olhar, o que ver, eu em geral habito meu olhar na beleza, e isso me traz problemas tanto quanto soluções, os problemas em geral de ordem ética e as soluções de ordem estética, meu coração tampouco é sempre uníssono.

Leitos com rodinhas são o meio de transporte dos insensatos, ela me disse, sem fazer caso. Sua loucura era incontornável. No dia em que lhe tomei esta foto, ela me contou que o vão do quarto, onde nos encontrávamos ela, o urso e eu, era a cópia fiel do oco da sua cabeça, onde vez ou outra se distinguia o som dos seus pés descalços no assoalho de madeira. Quero que você me fotografe assim, mirando o dia que deriva do jardim, um naco de vida à beira do caminho.

ventres sagrados

01/08/2011

O rechonchudo Kurt Brown vinha adestrando seus harmônicos desde que lhe trocaram um violão numa chupeta. Num domingo sem cerimônias, mulheres vinho, homens licores, tudo transcorria sem traições, até a execução feroz de “Vamos Acender Isso”, uma especialidade ainda inédita do neném violeiro. “Dançando, saltando, dançando, girando”, ele cantava e a platéia anuía. “Vamos acender isso e deixar todos balançando”, Kurt bramia. “Vamos acender isso, penetre certeiro nesse sentimento adorável!”. Delírio. Foi quando, diante de uma amálgama legítima de acontecimentos cavilosos, atentei para a câmera fotográfica: proferida a última nota de um refrão inabalável, Kurt se entusiasmou e deixou escapar um rugido de tão cavernoso timbre que as calças do senhor Brown vieram abaixo, duplamente inescapáveis, às lentes e ao espelho da sala. A senhora Brown, dançando de uma perna só, e a sogra Brown, oblíqua por conta dos excessos, miraram-se então, pudoradas porém orgulhosas dos assombrosos frutos de seus ventres sagrados.

23/04/2011

sem querer os pés

23/04/2011

“aqui não se economizam recursos, viva o povo belga”. o pretexto quem deu foi o general miúdo. a idéia o seu rebento pançudo, esse mesmo que se apruma, soberbo, à frente de todos. eu, desmascarado, apontei a câmera, divisei o quadro, e por um instante de terror cerrei os olhos. aquelas imagens funestas, voltadas a mim como a um espelho, pareciam pressagiar que eu, ora extinto, eternizava-me presente no vazio da minha ausência. quando contudo o silêncio finalmente se transfigurou no estalido seco do clique, o transe se desfez. tudo passou. as máscaras caíram e eu fui-me embora sem contar ao balofinho que lhe cortara sem querer os pés.

23/04/2011

no estúdio, sob a falsidade do fundo, a franqueza de uma linhagem tão retilínea quanto uma régua. o pai matemático, a mãe mãe. já nem tão exatos assim os números dos sapatos, herdadolados, maiores sempre, para durarem mais. o que não é o caso da menina, visto que foi a primeira [e última, me assegurou a senhora]. à genealogia, o primeiro: edipiano típico, um perturbado, se traumatizou. o segundo: muito afeito ao quarto, com quem partilha constantemente a mesma boca aberta de bocoió. o terceiro: cópia escritinha do pai, a mesma mão mole, a mesma curiosidade pelo fora de campo. por fim, uma anedota de família: quando nasceu o primogênito houve muita controvérsia, pois nascera loiro feito o vizinho. já os outros, ninguém fez caso quando nasceram, também loiros. Já se sabia entre o casal, que com o tempo, ia escurecendo o cabelo dos seus rebentos.

23/04/2011