nomes para tudo

26/03/2016

Dé e eu escutamos diariamente uma rádio que toca basicamente pagode, pop, algum sertanejo da moda, e axé. A gente sabe cantar todas as músicas, estamos por dentro de todos os lançamentos, shows, festas, são assuntos do nosso dia-a-dia. Mas por puro preconceito nunca cogitamos ir a qualquer dessas festas, afinal, pagode não é música “séria” no nosso mundinho ultraburguês. Afinal, pagode é coisa de “povão” e, nem precisa dizer, de pobre, preto, favelado, é música de quem não estudou “música”. Além do que, só dá periguete e malandro. Quantos, lá no fundo, não carregamos esse ranço, sem claro jamais ter colocado os pés num pagode. Mas o tempo é vivo e a vida é livre e decidimos desbastar a parada. Samba Prime #3. Camarote open bar, sete bandas, duas delas exclusivas para o camarote [só que não, como veremos]. Fomos Dé, Fernanda e eu, decisão tomada com base num forte pressentimento de que teríamos origens nesse lugar. A chegada foi emocionante. Muita gente, umas cinco mil pessoas coexistindo naquele lugar. Perdida, eu virei uma esponja, tudo. Aqueles homens, mulheres maravilhosas. Negros, negríssimos, coloridos. Homens que dançam!, sem vergonha, livre e deliciosamente. Mulheres produzidas, de salto alto, mas chinelinho coringa a tira colo. Cabelos trançados, chapados, armados, loiros, morenos, azuis, vermelhos ruivos, cor-de-rosa, arco íris. Casais amantes dançando juntos, muito romance no ar, na pele, na voz. O pagode leva a sério o amor. É muita dor, é muita alegria. E que camarote o quê. Não tem camarote no pagode. Todo mundo é camarote, nego, é todo mundo igual! Todo mundo assistindo o mesmo show, bebendo a mesma cerveja, e todo o espaço disponível a qualquer um. Fiquei a imaginar “a classe” de Bellory Hills se indignando. Como assim, eu paguei camarote, quero meu camarote, cadê meu camarote exclusivo, eu paguei, cadê minha bebida especial, banheiro só meu, com faxineira, não tem?, e ainda por cima qualquer pessoa rela em mim?, quero meu dinheiro de volta!, nunca mais volto neste lugar! O ambiente é leve, tem aroma de pipoca com manteiga, a cerveja é gelada, não tem fila, e é cada sorriso mais largo, cada lábio mais carnudo. É muita tonalidade e nenhum acanhamento, de cantar alto, de chorar junto com o Belo, de amigar fácil com qualquer pessoa, dividir abraço, história de amor, de rancor. Éramos três, ali, vivendo aquele presente, nos deliciando com cada descoberta e nenhuma ameaça, ninguém te olhando e te julgando. Fizemos duas amigas durante a noite. Elas acharam que éramos um trio de namorados e não desmentimos e elas tampouco se preocuparam em confirmar o que pensaram. Banhadas em vodca com energético nos deram vários conselhos, e distribuíram elogios. Curtiram com a gente o show como se tivessem vindo conosco. Lembrei do meu universo usual e da sua liberdade hipócrita. Lembrei do carnaval a moda da esquerda festiva de classe alta, de algumas avulsas e superficiais indignações, de certos paradigmas desencarnados que esse mundo supõe e propõe, pensei nos seus territórios previsíveis e em seus nomes para tudo.

10/06/2012

nós

19/10/2010

Um tempo na academia. Um tempo no celular. Mas sempre o banco. Eu preciso entender melhor o que vocês fazem. Encontrar Bertha e retomar o diário do nosso amor. Viabilizar o projeto sua casa sua varanda e mudar de vida. Passear com o Tommy, trabalhar e dizer que é desrespeitoso pegar o que é dos outros. Curar uma separação amigável e aceitar que há um mundo diferente para cada um de nós.

As teorias me fritam. Que medo. Que trauma.

desejo

22/09/2010

Nanda Ortiz, frágil escritora bengalesa de rosto aristocrático e lábios sempre pintados, experimenta subversos. Ela ensaia mencionar o assunto, mas falta-lhe coragem. Na foto em que a guardei, Nanda arregaça a saia apertando-a na cintura, para formar, na parte superior, um saco, uma dobra agradável. Contratendênciosa. Dona de um cortacola de palavras [Extra! Extra!] ordinárias. Um agre-ocre romper de desejo.

Boca de canhão malcontente

Fez-se face interior de gaveta [onde]

Guardo remendos velhos, elos

E braços em cruz deitados em pano estampado às cores de um jogo de times sem camisa.

– “Pode contar, é decassílabo”, ele disse – “E você? É Decassílabo?”, perguntei – “Poeminha mais sem pé nem cabeça!”

Ambos sabíamos [quem disse?] que ele não era um decassílabo, era um ângulo [mentira, seus planos sequer se encontram num ponto de origem]. E eu, se não era um prato gordo em dia de boca livre, era uma mera arruela de modos triangulares. Não estávamos [eu não tenho nada a ver com isso, sequer o conheço] tão certos do nosso status de gente.

E, de repente, a boca do canhão perdia seus ares de ensaio, e se fazia um ensinamento: é que quando acordo aguda demais, um poema sussurrado me abre as pernas com gosto.

E por isso, – continuei,

Partir as idéias com ar de explicação

Faz-se a delícia da tarde.

[Nanda Ortiz]