suga o tempo para

14/01/2017

A primeira imaginação do homem torto: ao final de tudo uma borracha veloz em marcha ré apaga cada linha deste texto. Ele é um clarividente ao contrário, narra sua existência por meio da eloquência muda de sua dança, língua gesto, uma criança surge ao fundo a olhá-lo. Sua imaginação emana ruídos, luzes, da rua. Em Taiwan, muito tempo só, de costas, foi envergando a imaginação até derramar a cabeça na superfície de vidro de um cinema de sombras, e nós a lhe dar comida, banho – assim ele não apodrecia. Com as chuvas ficou mais claro, torto e marcial, talvez matasse se preciso fosse, o peregrino. Ele vem, passa por nós às bordas do mar aberto. Casas vão se abrindo, templos, que ele adentra encarnando estátuas de outrora. Atravessa diversos sítios entre Ásia e Europa, até chegar aqui. Ele vem, sabemos, há luz aqui, ele vem, corpo a caminho, imagem que acontece, em vinte minutos, em horas. E quando ele chegar e de frente ficarem o teu e o corpo torto dele, nota, o espaço suga o tempo para.

outra terra

10/12/2016

Ritual, reconstrução criativa, antropologia. Três pessoas entram em cena, elas desdobram, dobra a dobra, uma lona cinza onde tudo se dará. Uma pessoa tem o anelar sujo de tinta preta. O dedo manchou a base do nariz. Ela se despe e se mistura a um novelo de matéria indefinida, seu entre-seios está preto, seu sexo está preto, assim como a base do nariz e o anelar. Carvão.

Estudar a potência, levar o palco para a plateia, três pessoas (re)fazendo o ritual. Numa placa de madeirite são depositadas pedras, ossos, musgo. Um sol quadrado rodeia brilhante a furtar a cor das folhas. Defumadores, nudez total, parcial e alguma, vestida.

Tudo flutua sem foco quando chega o momento de empilhar pedras e ossos, caem, os corpos caem, tudo muda. Essa gente de onde saiu, de baixo da terra. Uma pessoa adentra o quadrado, nua da cintura para baixo, seu sexo mineral tinto de amarelo, ela segura nas mãos as pedras e os ossos, seu cabelo foi entremeado a uma nuvem de musgo, as pedras caem estourando o barulho da madeira seca. Ela vibra parece água sacolejando. Angústia, vontade de gritar. Um corpo atinge-nos o que o atinge, força invisível. Levo umas três porradas seguidas. Não fique aí parado.

O espaço muda, o ambiente fica, vejo corpos pulsantes, contínuos, quebrados, não mais pessoas, não exatamente. Não sei definir sua origem, identidade, emoção. De onde vêm, de baixo da terra não consigo saber, parecem não ter interior, são o que são, ambiente, são como o vento.

Elas se alteram, tudo se altera, resisto, mas o tempo todo dentro, imerso nesta terra nervosa, do feminino que não sei elaborar, frágil, radical, outra terra.

acontecimento

19/08/2016

***

 

Poucas palavras para muito conhecimento. A comunicação entra em jogo. O que é compreender. Como. Eu percebo difuso o japonês que se move feito água.

Entender em se tornar. Aprender em comover. Butô aos quinze anos. Hoje vive em Nova Iorque.

 

Pés. Pés. Foco nos pés. Os pés em qualquer direção. Caminhadas alteradas pelo impulso causado por um gesto que vai das mãos aos cotovelos aos ombros numa cadeia de movimento que transforma todo o corpo. Um passeio diferente.

Rosto. Rosto. Foco no rosto. Como o rosto altera sua feição em correspondência com o corpo. Poesia. Faz uma caminhada, para, olha, imagina e observa a paisagem invisível.

 

Sensação de espaço. Se abrindo. O espaço me adentra é meu corpo. Dentro do turbilhão reúno o mundo em mim e viro coisa que vira coisa. Eu te proponho o que eu descobrir e formular aqui agora. Ideia que só muda. Caminho. Muda. Muda. Muda.

 

Fundo preto. Umas trinta pessoas. Dois grupos. O primeiro olha o segundo rolar lento no chão a proposta do Kota, pele como meio de transporte pela superfície afora. Lento. Lento. Lento.

Fundo preto. Umas trinta pessoas. Troca. Quem olhava agora rola. Kota acresce novo caminho, o corpo céu e terra. Kota vai para o chão e demonstra. Caravelas em mar calmo, o corpo mar rola mãos e pés pelas ondas, devagar.

O contato por meio, o olho por tato, Kota passeia a pele pelas superfícies das coisas. O corpo e a coisa em correspondência. A pele a dobrar o mundo em interação imediata com a porta, a escada, o extintor de incêndio, a caixa de som, qualquer coisa é boa.

 

Dois a dois, você de olhos fechados eu toco com o dedo seu corpo em pontos diferentes. Sente o que cada ponto te acontece. A sensação que traz. Diz o que te vier à cabeça. O dedo toca a memória sai uma praia correndo com água até o joelho um marimbondo quase me picando criança tomando chá um saco de sal grosso guarda-chuva pendurado na escada saindo da piscina.

Agora sem falar. Dois a dois, você de olhos fechados eu toco com o dedo seu corpo em pontos diferentes. O toque instaura um movimento que prossegue por algumas voltas antes de cessar e esperar pelo próximo toque. Eu te toco você dança.

Agora caminhando. Dois a dois, você caminhando eu toco com o dedo seu corpo em pontos diferentes.  A caminhada, o toque, a dança, em composição. Um toque para andar dançando um corpo funcionando poesia.

E depois é você quem me toca.

 

***

 

Agora a pele do verbo a rolar pelo chão.

Alguma pressão, talvez uma história, talvez seja bom, amontoar vozes no espaço você pega trem como é o seu quarto não tenho preconceito tenho nunca tive nunca quebrei nada de andar na casa da minha avó eu gosto mais ou menos muito adoro dançar fazer tapioca com ovo enquanto fumo um cigarro de vez em quando na festa junina meu sobrinho uma ilha brincava quebrei de suco o braço de laranja.

Alguém estilhaça uma risada. Alguém adensa o ar de sonho.

 

Kota anda pelo teatro. Procura alguma coisa. Encontra. Outra. A menor ideia do que vem a seguir. O significado racha, você acha que entendeu, era exatamente isso, só que ao contrário. E vem de onde nem veio. Mal-entendido amado.

 

Então você berra, se estrebucha com gosto, abre a porta e um paredão de gente te espera rente. Berra, se estrebucha com gosto, abre a porta e estão todos sentados na plateia. Abre a porta e estão todos amalgamados no canto do palco. Abre a porta e um pelotão de gente te espera à beira. Berra, se estrebucha, abre a porta e estão todos no chão a te olhar feito salamandras. Abre a porta e estão todos escondidos atrás da cortina com as cabeças de fora. Abre a porta e não tem ninguém, a não ser eu.

 

Lento longe perto veloz. Amanhã partimos daqui.

 

***

 

Uma volta no quarteirão, adentro o teatro momentos antes do início da noite, um silêncio instaurando Kota, deitado no chão, olhos abertos a meditar.

 

[À tarde subir e descer deslocavam acontecimentos sem esforço, sem grandes ignições musculares, corpos ondeavam movimentações escorridas.

À tarde a inscrição simples de uma coreografia, e quando já a povoávamos, Kota lhe acresce uma extensão: aos cem anos de idade. Aconteci, a pele do meu rosto, enruguei, corporifiquei minha avó. Depois uma felicidade dela]

 

No tempo do silêncio as pessoas chegando aos poucos.

Colombiano atriz artista visual migrante bailarina cineasta florista músico dançarina ator arquiteta dançarino escritor gesto cultura.

O lugar do lugar, a modulação das ligações, as camadas que nos compõem, a experiência de nossas relações a alterar nossos corpos.

 

E então você bate o pé no chão com força, se estrebucha com gosto, apronta a gritaria danada, abre a porta e uma diagonal um paredão de mil abraçados um semicírculo de leões vorazes uma bola de gente amontoada olhando na direção de antigas composições estatuárias de pessoas no espaço de ontem, entrando agora em movimento, a evolução prática da imaginação geral, um corredor polonês a bater palmas, para o bem da sua intensidade, todos correm, na direção da sua presença, querem te tocar, é por aqui é por aqui, o espaço atormentado pela insistência, é por aqui, de longe gritam de perto falam é por aqui, é por aqui, trinta pessoas a lançar bolas imaginárias, sobre você, todos se levantam do chão e passam, a te imitar a te alvejar com intimidades profanas, já pensei na minha mãe morta, e curti, trinta pessoas a te olhar, o mais profundo silêncio, a te cortejar, acintosamente, maravilhoso pego fácil você é muito lindo você é gato mesmo delícia aonde você vai, surpresa!, ritmo coro em dança orquestra, surpresa!, você se atrasa, surpresa!, está tudo bem vai dar tudo certo está tudo bem vai dar tudo certo e todos morrem, quando você chega, todos tristes, quando você entra, todos a gargalhar, você sai correndo, do teatro, vai embora e não se esquece nunca da sensação de abrir a porta.

 

Key se senta ao meu lado, vou descansar um pouco, estou exausta.

 

Agora pessoas em movimento a falar inspiradas pelo vento do que veem. Kota manifesta a proposta o corpo diz tudo. Em palavras se entende menos a improvisação total de um agora, você propõe, qualquer um adere, a isto aquilo sem certo errado sem ou. O que é falar Kota para você. As cores rápidas, o gosto caos, a textura avalanche.

 

***

 

Sesc Santo Amaro, Kota Yamasaki.

 

[Ontem eu não fiquei para a noite. Fui embora. Estranho. Saída brusca. À tarde uma proposta teatral que mal entendi, fui embora pensando, “eu não sei fazer teatro”. E à noite dei uma péssima aula e fui dormir estranho. E assim cheguei aqui hoje, mas passou, e ficou uma qualidade de presença, um relaxamento, uma tranquilidade do tipo, bom, que se dane, qualquer coisa é boa, e quando Kota retomar o teatro-dança-ghost walk eu já serei outro afim].

 

Larga a noite de hoje começa assim, vinte e três pessoas de pé para o chão, uma parte deixa cair, um braço, e o corpo todo segue o impulso, flutuando o espaço não pensa não pensa não pensa caminha adiante de um jeito em marcha ré de outro, um barco de frente um sabre de costas, e vai mudando, a paisagem, é importante. 

E então a proposta, dançarmos por uma hora sem parar, ao impulso intensivo de music for 18 musicians.

 

Medo, será que eu dou conta disto, parece que vai ser uma grande história que se contará sozinha, uma experiência encantada, uma hora, mesmo, a quantidade de pessoas desgarrando energia […]

Zonas de velocidade, zonas de lentidão, um desafio mental, às vezes dá certo às vezes não, transformar energia em picos e picos de altos e baixos quase zero, coisas inimagináveis, memórias de experiências passadas, passando, coisas, momentos, pessoas de outras épocas em meio à impressão de que meus pés ganharam vida e é isso o que modifica a paisagem, de repente, pelas frestas do movimento intenso da pequena multidão dançante três figurinhas em bem lento trio, e o cansaço vai atingindo latitudes a partir das quais já não há cansaço, no começo é racional, depois solta, e há momentos em que eu não vejo mais pessoas, apenas fluxo de energia que me pega e perde o sujeito, vira massa, mesmo, paisagem que sonha muda entre a pele e o espaço, um borrão, parece que vai se esgotar quando outra coisa surge, surpresa […]

O que pode a água […]

Há quanto tempo dançando sem parar esta música, é melhor ouvir para ter uma ideia, descobrir começos para um novo tipo de apoio a partir do qual eu não saiba nada sobre o que vai acontecer agora, e passa um tempo muda, tudo, o jeito de pensar […]

Um africano, uma asiática, uma latino-americana, muita coisa que eu já conheço agora no meu corpo de outro jeito, o tempo e depois o espaço e tudo mais, o cansaço me faz ver o comum por trás da sensação de que o som vem do chão e são meus pés que ouvem, gente virando música, metonímias mais que metáforas, é bom dançar, às vezes demora a perceber, mas são deliciosas as situações, os encontros, de repente eu não me julgo mais, é libertador, habitar vibrações, virar melodia, ritmo, uma grande viagem […]

Alguém convida o etnógrafo a dançar, mas ele não vai, não deve, por mais que queira se ensopar de suor, se descabelar, ficar vermelho, úmido, bufante, quando tudo começa a ficar mais lento, mais espaçado […]

Cansaço, muito, mente, relaxar é dançar a paisagem são as pessoas, algumas mais frequentes, e eu vejo a mudança nelas, e isso vai me modificando, e às danças todas, que agora são regidas pelo mesmo princípio que se mostra – pá! – de uma vez, dançar por dançar, um prazer, sensação de que o fim é o começo […]

Acabou.

 

Chão. Dor no quadril.

Apenas uma pessoa segue em movimento, vocês são doidos, parar assim desse jeito, de uma hora para outra.

 

***

 

Luiz Fuganti, o que pode um corpo.

 

Há dois tipos de insatisfeitos, há os ressentidos, impotentes, jamais preenchíveis, incuráveis, os padres, que dizem que há uma insuficiência que só se completa no sobrenatural. Até mesmo ateus, anarquistas, budistas, se esquecem que a potência não está em função de nada. Acreditam em finalidade, origem.

A corporeidade é a realidade infinita e autônoma do tornar-se. O corpo nada deve ao espírito. Azedo é o encontro entre o limão e a pessoa, não o limão em si. Julgamos com nossas afecções.

Para o segundo tipo de insatisfeito, mais raro, não se rende, a forma jamais é campo de acabamento e toda perfeição é falsa. Rebaixar-se é perder o tempo do acontecimento, é servir à consciência, retardada, vem sempre depois. É preciso um certo olhar de caranguejo. Só quem não tem presente se contenta com o futuro.

O efeito do Estado é desqualificar o corpo, que só interessa para ser submetido a ideais. A corporeidade corrompe tudo o que pertence ao Estado, pois a corporeidade, impotente para ser, é devir. Platão foi um idealista. A dança é acontecimento. Habitar algo de dança é habitar algo em movimento de devir o que acontece na duração de um fluxo. O presente do tempo imediato, não do tempo representado. Pensar não tem nada a ver com consciência.

Quem de nós pode levar a experiência cotidiana a sério?

Onde quer que haja sociedade com Estado haverá uma desqualificação do corpo. Por isso o primeiro insatisfeito, o ressentido, se sente injustiçado, porque perdeu o tempo presente da sua própria vida, está sempre a perder o acontecimento. Por isso ele quer recompensa.

 

Que movimento? Que tempo? Fazemos um uso ordinário e generalista da ideia de pensamento. O pensamento não é a linguagem, esta o que faz é concretizar o pensamento, é esculpi-lo. A palavra não deve monopolizar o lugar do pensamento. Os budistas dizem não ao pensar, eu digo não à tagarelice. Pensamento não é tagarelice, não é imagem, não é consciência.

A queda existe, não o pecado original. Sigamos a intuição dos anjos, pensemos um pensamento que vai direto ao objeto, sem representação, sem mediação. O ideal é coisa impotente para mudar. O Estado é aparelho de captura, rebaixa, sequestra, despotencializa vidas.

O ser é imanente e a linguagem deve estar plena de dança. A linguagem é só um acabamento do pensamento. O segundo insatisfeito, raro, não crê em falta, sabe que perfeita é a potência, e a potência o quê? Faz criar. A organização é efeito e não um rebanho ressentido.

Guerra aos órgãos capturados. O órgão é intensidade, não função. O ouvido é fabricado ao ser invadido por matéria sonora. O olho é fabricado ao ser invadido por matéria luminosa. O movimento-recompensa, o movimento-função, tudo isso é o ó. Trabalhemos pela intensividade. A esquerda faz isso? Não quando introjeta os aguilhões do ideal ocidental e os passa para frente, Deus, Homem, Natureza. Ideais que roubam o acontecimento da vida. Aliás, Deus, esse ladrão.

 

Corpo e pensamento, termos diferentes para o mesmo significado. Sob um regime de luz: o movimento. Do que a gente se alimenta? Do olhar do outro? Satisfaz? O primeiro insatisfeito, o ressentido, para sempre endividado, perfeição inalcançável, busca um prêmio, um reconhecimento. Artistas também se deixam levar por isso.

O corpo não precisa de autorização do espírito, o juízo de Deus já está dentro do corpo. Com ele você pode fazer tudo sem discursar. A não ser que seu outro seja um crente na finalidade, aí você será acusado de desonestidade. Já se seu outro é intensidade, aí haverá encontro honesto, a si enquanto potência – mesmo que haja excesso!

 

Há uma humildade que é triste. Qual humildade? Deixe de ser arrogante com seu estado de corpo, coloque-se em movimento. No campo da intensidade eu não preciso ser humilde o suficiente para ser vaidoso.

Destreza sem acontecimento é só preenchimento de forma, o pianista virtuose é o ó. Ao artista virtuose nada acontece, ele apenas se empodera da técnica e entorpece o meio. A nós criadores o que importa a felicidade? A potência é um contínuo intensivo e o corpo se quebra frente à intensidade.

O Estado é um organismo social que se apodera do corpo. Com o nosso consentimento, estamos fadados a ser e a enxergar apenas forma, figura, estado.

Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, com esse trecho todo mundo pira. De reconhecer a queda ninguém quer saber. É preciso apreender o imperceptível, a duração de cada gesto, de cada enunciado. O tempo que o açúcar leva para se dissolver na água. A espera tem espessura, consistência incapturável.

Uma virtude é melhor que duas, três, quatro. Pois uma virtude bem investida acaba encampando as demais. Nietzsche fala em disjunção inclusiva. Não é preciso se ressentir desse investimento num fito, pois no limite ele se conecta aos demais.

Uma indigestão psíquica é o que está a tomar conta de nossas vidas, essa visão ressentida. A moral é física e metafísica. Acorda! Para o que você sente, consente. Que tipo de presença te habita? Acorda para a dança! Há uma queda que interessa, a de uma subjetividade instaurada por um buraco.

O corpo cria realidade ao nível da essência. O corpo sem órgãos é o corpo da potência. O ideal é uma doença. Sem acontecimento as pessoas buscam a forma, se tornam prisioneiras do Estado. Deixam-se capturar. O primeiro perigo, o medo. O medo, depois a clareza, depois o poder e finalmente o cansaço: os quatro perigos enfrentados pelo guerreiro. Natureza naturada, natureza naturante.

Qual a queda que não interessa? A da paixão tirânica, existência parcial. Inimigos? O Estado, o social, os não físicos, os morais, os racionais, os que dizem não ao acontecimento, os que não deixarão você experimentar no seu campo, diz Deleuze em relação a Artaud, vão te perseguir! Mas a realidade não reside no estado das coisas.

Movimento, acontecimento: problemas para o Estado, problemas de Platão. Pois a essência da matéria é luz e durar é sagrado, me constitui, o ato. É isso que me é roubado. Experimentação de si enquanto uma atividade. Transformação como razão da minha própria potência. É chocante: não há espaço para isso nem mesmo no campo da arte e da cultura. Restam representações do corpo, representações da intensidade.

O artista pode avaliar, não julgar, pois todo julgamento é por ficção.

O branco, geral. Este branco, específico. Platão e Aristóteles ficaram nisso. Não compreenderam a brancura, ou seja, uma singularidade, uma linha de acontecimento. Não um valor geral, mas um valor singular, algo que liberta a energia. Singular e comum não são opostos. O comum é o bom habitat da diferença. Só o fraco é poderoso. O forte é potente, é outra coisa. Dançar é gerar superfície de acontecimento. Estética da potência. Deus é corpo, por isso Espinosa foi tão odiado. O desejo se preenche pelo acontecimento de si mesmo. A técnica no lugar do acontecimento é o ó. Precisamos retomar o criador enquanto criador de si mesmo, pois uma coisa é tudo o que ela pode. O corpo é o que ele pode. Espinosa. A eficiência, a competência, a responsabilidade: prêmios ideais.

Quem não tem corpo não tem pensamento. O que não falta é gente a representar a intensidade na arte, na dança, no teatro. Cadê a multiplicidade intensiva do corpo, da mente? Cadê nosso caos? Dá para usar a representação como oportunidade. Não precisamos moralizar a representação. O problema é colocar a representação no lugar da realidade.

 

Experimentar o corpo é perigoso porque um mínimo gesto, um mínimo movimento pode desmontar toda uma estrutura de Estado. O corpo contra o Estado. Coexistência e não sequencialidade ou sucessão. Na coexistência o infinito é acessado aqui e agora. Na sucessão o infinito é senão uma ideia impotente.

Carmelo Bene, o cara que matou Romeu e deu vida longa a Mercúcio. Não penso, sou, Henry Miller.

Tudo que se estudou tem que virar energia, em sentido intensivo, não intencional. O sentido intensivo gera passado e futuro ao mesmo tempo, o comum, que encontra a singularidade e gera diferença. Estudar é exercitar a criação de conceitos. Bergson em Deleuze é Deleuze.

O mais simples é o que traz mais coisas. Aquele que faz sempre o mesmo é singelo, dispõe de poucos elementos, encontra um meio de continuidade intensiva. Desconfiai dos mestres. Não quero seguidores, quero amigos. Corrupção é estar separado do que você pode e recompensa mal o mestre aquele que não quer mais do que ser discípulo.

 

A criança joga 766 vezes. Na 767a acabou. E o que traz o corte? A travessia de um limite. O limite como fronteira de passagem energética.

Trabalho é acontecimento, aquilo que se produz como potência de criar realidade, algo que retorna sobre o que flui, condição indeterminada, um horizonte que se abre para a diferença. Confia no acontecimento, o desejo é o começo do corpo, o acontecimento deseja, a natureza inteira é desejante. Não deixe que capturem seu desejo.

 

A noção do comum é uma dupla afirmação. Uma vespa e uma orquídea, por exemplo, reinos diferentes. Mas há um devir vespa na orquídea, e um devir orquídea na vespa. E o devir orquídea da vespa não tem nada a ver com a orquídea! Isso é o que elas têm em comum.

Permanece um pouco mais nas zonas problemáticas. E se a dor for uma aliada, uma provocação? Menos forma, mais intensidade. A linha é o elemento que pinta e não o que está pintado. A linha enquanto intensidade de uma expressão.

Rebaixamento do corpo ou elevação do corpo, duplo problema, pois assim o corpo jamais está lá onde está, na persona, ou melhor, perzona. Zona de ser, limiar de acontecimento, zona de potência mais que indivíduo, sujeito, coisa rígida, fixa.

Comum é um pensamento de relações. Sociedade é diferente de comunidade. Comunidade é compreensão do comum. O cidadão, o civil, são escravos, não entendem e não querem o comum. O simples é enorme. O simples é o contrário de fácil.

No corpo burocrático o movimento não é acolhido. A escola te mete um corpo, uma responsabilidade frente à paixão. Responde quando eu te pergunto! Pequenas mortes que vão sendo enfiadas em nós. Você está evoluindo, coisa pífia, cultura de pessoas. Quem pensa não é o ser, é o devir que se pensa.

Só o homem livre tem amigos. O primeiro ressentido, o reativo, não contempla o acontecimento. A imagem ocidental do pensamento nos engana, nela a vida fica mais fechada.

 

Onde eu sou cúmplice? Por que eu compro isso? Que nível de atolamento me atingiu? A singularidade só se dá por meio de uma zona comum. O cuidado com a intensidade implica no combate à finalidade.

O sofrimento pode estar a favor da vida. O sofrimento reafirma a vida. Não use o sofrimento para acusar, envenenar. Nietzsche. Desconfiar do corpo é que é estado de exceção. A essência da vida ser a castração, Lacan, isso é estado de exceção, crer que prazer é riqueza, que prazer é reconhecimento.

Até as minorias estão vendidas, pois não se trata de forma ou subforma, mas de entrar em movimento. Aliás, Deus, esse ladrão. Artaud. Deus nasceu da costela de um mau sofredor. Por ideia inadequada ou ideia adequada, você se efetua de qualquer maneira. Ao desejo não falta nada. Espinosa.

Só é ético quem é amoral. Moral gera dívida, prêmio, castigo. É ético quem diz, venha a mim todo o acaso, e é ético quem põe o acaso de joelhos. Venha a mim tudo, mas não de qualquer maneira, eis a ética. Nietzsche. À altura, à altura do acontecimento.

14.08.15. Abissal. Aula da Letícia Sekito. Anatomia experiencial. O relaxamento de cada um. O tempo de cada um. O que é relaxar. O que está funcionando neste momento.

Experimentamos os órgãos todos juntos. Intestinos, pulmões, coração, cérebro. Todos de uma vez. Os intestinos em profunda relação com as pernas. Os pulmões com os braços. O coração com as mãos. O cérebro com a cabeça.

Passamos a um toque a dois. Eu e Renato, o outro. Tocamo-nos os pulmões, o fígado, os intestinos, o coração, o cérebro. Viramo-nos de costas e tocamo-nos os rins. Um balancinho. Depois, uma explosão a dois. Eu e ele. Cumplicidade em queda livre. O corpo espaço aberto à luz do sol que perpassa os janelões da sala de ensaio da Galeria Olido.

Terminamos a exploração, Letícia pergunta ao Felipe, você tem ido ao banheiro? Não muito, ele responde. Você tem comido bem? Não muito. Tem pensado muito? Ele faz que sim. Pois, então, ela diz, tem órgãos para essas coisas.

Experimento minha própria anatomia, meus órgãos, meus padrões neurocelulares, minha formação ontogenética. Experimento o ectoderma, folheto embrionário que origina igualmente a epiderme e o sistema nervoso, a pele e o cérebro. Experimento, em movimento, padrões que vão dos invertebrados aos vertebrados, tudo é motricidade, fluidos, hormônios, embriologia. Imaginação prenhe de tato e ato. Ações especializadas em sensualizar a imaginação do próprio corpo. A mente se alastra. Imagens fazem sentido, literalmente! O que é e o que não é real. Se não sente, imagine. Se não imagina, sinta o peso da minha mão sobre os seus rins e lá estarão eles.

Neste momento uma conversa entre colegas de intuição. Opiniões abertas ao calor do momento. Cada um a seu modo, buscando expressão para aquilo que está a pensar agora. Enquanto discutem, algo acontece, olhares se desestabilizam, sentidos chegam, se abrem. Pessoas mudam de corpo e ideia aqui. Descobrem aquilo que sentem, sentem aquilo que entendem, entendem aquilo que sabem, descobrem mesmo o que são, o que podem vir a ser. Às vezes conversas conflituosas, pontiagudas, o jogo de significar o que não tem significado explícito. Às vezes catarses. Por incrível que pareça, o pensamento sentado pode ser muito mais exaustivo. Julgar com palavras o que o corpo imagina em movimento. O que dizem os corpos enquanto dançam a veemência do que não se premedita. Improviso.

Abissal é um conjunto complexo de descobertas que eles se propuseram viver, é um adensamento da história, da relação entre eles, se transformando em direção à natureza da cultura abissal.

A metamorfose reintroduz o excesso e a imprevisibilidade na ordem humana: transforma os homens em animais ou espíritos. Ela é concebida como uma modificação de essência, que se manifesta desde o nível da gestualidade até, no limite, o nível da mudança da forma corporal […] A metamorfose é desordem, regressão, transgressão – mas não se trata de uma volta, de uma recuperação pela Natureza daquilo que lhe foi roubado pela Cultura. Ela é também criação; além de manifestar uma ordem do mundo que totaliza Natureza e Cultura (ordem que retificamos, erradamente, sob o rótulo de “sobrenatural”), ela permite a reprodução da Cultura como transcendência.

 24.11.15. Apresentar um trabalho que está em processo. Radicalizar o processo enquanto trabalho. Perder o tesão quando o público se torna uma função do trabalho. Ter o maior prazer em fazer da aula a própria criação. Convidar outras espécies de gente, corpos estranhos, com efeito criativo intencional de desabituar geral e engolfar-se no negrume abissal até ele se tornar reconhecível a ponto de ser habitável. Nada dentro. Tudo é fora.

No grande improviso de se habitar o espaço coletivo em movimento, às vezes alguns dançarinos restam fora do foco. Vivem, desde a sombra, a força gravitacional da cena, do fornilho que atrai quem está no escuro. Risco em potência. Ação.

Quando, onde e como interferir. O que é interferir. Estragar é interromper o fluxo de outrem. Relações no tempo para adentrar o que no meu emana do seu. Como e por onde me fazer necessário.

A parte e o todo, o mundo e eu. Chata questão ocidental. Se os indivíduos são coletivos, se todo solo é sociológico.

A pessoa inglesa, conceitualizada como um indivíduo, era, em um sentido importante, incompleta: sempre parecia haver “mais do que” a pessoa na vida social. Quando a pessoa singular era tomada como unidade, as relações envolviam os outros como unidades semelhantes. A vida social era, assim, conceitualizada como a participação da pessoa em uma pluralidade. Como resultado, uma pessoa individual era sempre apenas parte de algum agregado mais abrangente, e portanto menos do que o todo […] O paradoxo inglês era que o holismo era uma característica de uma parte – não do todo – da vida social! Ou seja, era uma característica mais evidente em algumas perspectivas (isto é, sistêmicas) do que em outras. A maneira como os ingleses lidavam com a perspectiva tanto precipitou como foi criada pela forma como eles se imaginavam vivendo entre diferentes ordens ou níveis de fenômenos, em um mundo incomensurável de partes e todos. […] Perceber a vida a partir da perspectiva das partes discretas proporcionava, assim, uma dimensão diferente do ponto de vista conquistado a partir do todo.

Perspectivas em reciprocidade, ontologias intercambiáveis, corpos não mais vitimados pela esquizofrenia de uma completude incompleta. Um corpo por todos.

Que tipo de todo é a InSaio. Qual a sua coerência. Onde se fecha essa companhia. Que interdependência se dá entre seus membros. Qual a sua complexidade. Perguntas de pesquisa.

A fundação deste Abissal: o olhar. Longas horas preenchidas com exercícios de improviso que têm o olhar por elemento central. Olhar movimento, relação. Olhar espaço, composição. Olhar escuta, tato. Olhar transformação, transformado.

Olhar fenômeno corporal total. Ação que se difunde por todo o corpo. E o corpo inteiro olha. Quatorze pessoas improvisando danças assim, a olhar com o corpo, totais e difusas, no espaço vivo. Olhar que abre caminho para novas dissoluções.

Ao ver, enxergar, olhar, o que parece é que é você mesmo quem está lá fora, misturando-se de modo desenvolto a tudo o que vê e passando por aí como um espírito ágil de um lugar para o outro à medida que o foco de sua atenção muda. É como se as paredes e o teto de sua casa tivessem desaparecido, simplesmente, deixando-a exposta ao exterior. Resumindo, você não experimenta o ato de ver como ver o lado de fora, mas como estar do lado de fora […] A visão “é o meio que me foi dado para estar ausente de mim mesmo” […] Erga suas pálpebras e você se encontrará quase literalmente “no espaço aberto”. De fato, essa pequena frase captura perfeitamente o que Merleau-Ponty retrata como a mágica – ou o delírio – da visão. Vivemos em um espaço visual do lado de dentro, nós o habitamos e, ainda assim, esse espaço já está do lado de fora, aberto até o horizonte. Deste modo, a fronteira entre o interior e o exterior, ou entre o eu e o mundo, é dissolvida. O espaço da visão tanto nos cerca quanto passa através de nós.

Olhar experiência de luz, abertura para o mundo, operação que liquefaz as fronteiras entre o ver e o visto. Tudo embebido em luz. A visão não é das coisas, mas se dá em meio a elas.

Abissal, biografia de uma convivência que se dança, de uma história que vai ganhando a densidade e a força que esses encontros agora, nitidamente, possuem. Já são meses fazendo isso. Quatro vezes por semana o risco de se dispor ao outro, ao espaço, à dança imprevista. O tesão da experiência, aquilo que nos leva ao movimento. Quando eu me entrego a coisa toma corpo, vida, profundidade, suficiência. A experimentação compõe o processo, a memória afiança o trabalho. Abissal já existe, eu vi.

 Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.

Nossos corpos se tocam. Pelo toque, seu corpo doa volume ao meu. Aos poucos, seu corpo começa a fazer parte de mim. E aos poucos, vamos dissipando nossas fronteiras por meio dessa substancialidade comum que produzimos no espaço.

Percebo a textura, a temperatura do seu corpo. Me aproximo. Sinto o seu cheiro. Sinto a suspensão. Deixo que você envolva meu corpo. Deixo-me abranger. Nossos corpos inteiros se tocam, acoplam, formam, moldam. Corpos fundidos.

Enquanto isso, levo meu olhar interno para os pontos de contato. Olhar e tocar se equivalem. Deixo o corpo espalhar, expandir. O toque traz a sensação do volume. Meu corpo se estende sobre o seu.

Dois são um, um é dois. Seis duplas são uma e uma são seis. Devagar, nós nos incorporamos. Eu toco, eu sou tocado, uma ordem que se repete. Num agora sempre diferente, vamos nos tornando uma massa em composição amalgamada. Uma grande blástula cujo volume é extensão do meu próprio. Meu corpo extensão dessa abrangência. Um grande corpo repleto de olhares interiores.

Aos poucos, a massa vai se dissolvendo na forma de um grande círculo no qual nos entreolhamos. Silêncio. Olhar. Minutos. Alguns. Conforme os corpos se descolam uns dos outros, a sensação de amálgama persiste.

Percebo meus pés, o volume dos meus pés, raízes que se prolongam para além do chão. Corpo montanha. Toca o céu e se espalha. Respiro, fecho os olhos, levo a respiração para dentro do centro do meu corpo. Minha respiração é também um olhar. Abro as axilas. Deixo o ar entrar. Solto o fundo dos olhos, solto as narinas, deixo o ar entrar. Meu olho interior percorre todo o meu corpo a ativar a soltura de cada pedaço por onde ele passa, cada pedaço. Coração. Baço. Intestino. Rins. Lá atrás. Soltando tudo.

E nesse silêncio olhar, começamos a transferir o peso de uma perna para outra até chegarmos a um caminhar. O ajuste à gravidade é constante, sem perder a conexão com o chão. Composição em pé maior. Raízes fortes, metatarso e calcanhar.

Aos poucos, a organização dos corpos no espaço vai se dando em transmutação contínua. O olhar a percorrer todas as zonas, interiores, visíveis, exteriores, invisíveis, já não se separam. Olhares são fios narrativos cujos encontros resultam em deleite. Se o corpo se desconcentra, o olhar se perde, o fio desaparece, um silêncio, tudo muda, o espaço se quebra e se renova, algo reaparece e, de repente, estão todos no chão.

Pode mandar descer o público, diz Claudia, agora é com vocês.

São Paulo, 8 de agosto de 2016.

 

:

Eduardo Viveiros de Castro. A fabricação do corpo na sociedade xinguana. Boletim do Museu Nacional, 1979, 32:2-19.

Marylin Strathern. O efeito etnográfico e outros ensaios. “Partes e todos: refigurando relações”, p. 241-262. São Paulo, Cosac Naify, 2014.

Tim Ingold. Pare, olhe, escute! Visão, audição e movimento humano. Ponto Urbe [Online], 3 | 2008, posto online no dia 31 Julho 2008, consultado o 08 Agosto 2016. URL : http://pontourbe.revues.org/1925 ; DOI : 10.4000/pontourbe.1925

11/05/2016

Núcleo Mirada. Praça Júlio Prestes. Chão vermelho. Cinco mulheres estão prestes a marchar ao som da cidade. Ritmo. Trem. Pernas. Progresso.

Coisas móveis. Outras não tão. Coisas. Vivas outras nem tanto. Árvores. Estátuas. Estaturas. Postes de iluminação. Cachorros. Pombos. Meu escritório é na praça. A guarda civil atrás de mim. Elas calçam botas de operário chão de fábrica.

Vermelho gago. Agora.

É ensaio, mas já está valendo. Ensaio. O que não é? Processo. Um saco plástico voa ao vento. Um homem passa a olhar para mim. Olha para mim. O que sentirá?

Isto é o quê? É um curso? Algo que a gente pode utilizar? Utilizar? Ele diz que é um curioso, um ambicioso. O quê?

Outro saco voa ao vento. Coisas ao vento. Voam. As leves, as pesadas não. Policiais. Nas duas laterais da praça. O que é isso aí, meu irmão? Você faz documento? Faço. Uma frase é tudo que alguém precisa para começar. Policiais passam. Me olham. Todos olham para cá. Um sujeito sentado à máquina no meio da praça. Chama atenção. Atenção aos movimentos do tai chi. Elas vão flutuar. Daqui a pouco. Levantar voo e flutuar enquanto a estátua insiste em ficar lá.

Marcha. Quartel degenerado. Passa por mim um sujeito que já vi, com quem já troquei palavras. Ele olha. Tempo de reconhecer. Um sorriso. Lá uma.

Obra de ferro. Concretista. Sangue concreto. Mais um sorriso. De classe. What’s going on here? Às vezes um cheiro de cocô humano. Na semana passada um homem me disse que eu só estava sentado aqui porque era gringo. Isto daqui está um lixo, ele disse. Agora um outro me diz, com uma cara zombeteira, isso é coisa do passado. Tem.

Início a marcha. Em minha direção. Passam por mim. O fluxo de pessoas aumenta. Um homem passa alisando o bigode com uma gilete inócua. Ele alisa o bigode e cheira a gilete, alisa o bigode e cheira a gilete. Um pombo. Um casal quer tirar uma foto minha. Eles se dizem felizes por estarmos aqui, a preservar a cultura. É isso aí, guerreiro. As pessoas me saúdam. E aí, escrivão? Uma policial de batom bem vermelho. Óculos escuros. Um avião particular cruza o céu. Elas vão começar a marcha. Pequeno. Marcando. Escreve meu nome aí. Uma mulher me imita numa máquina invisível. Tem início a marcha. Hei! Um homem de olhar profundo se aproxima. Há muito tempo eu não vejo uma destas. Hei! Vai e volta. Em evidência o caminhar de todos. O caminhar. Hei! Um homem feminil fuma ao passo que nos olha, depois atira longe o cigarro. Uma mulher se alinha com elas. Hei! O fluxo de pessoas a passar aumenta. Muitas. Muitos. A caminho do trabalho. Hei! À frente. Em cima. À frente. Perto. É teatro isso? Mais ou menos. Um homem passa a cantar. Elas estacam. O vento vibra as membranas de algodão e fustiga as letras recém impressas na folha de papel. O som da máquina. O som da bengala de um homem que parece não entender nada. Ele olha. Difuso. Para os policiais. Que passam a três.

Hei! Homens de uniforme. Hei! O fluxo das pessoas impõe uma dinâmica. Cheio. Vazio. Denso. Espaçado. O som dos automóveis, o som do rádio dos policiais. O mato a meia altura da praça. O fluxo se intensifica. O trem acaba de descarregar pessoas. Tempos em tempo. Hei!

Desconjunta e volta. Desconjunta, gira. Hei! E volta. Um homem baixo, atarracado, passa bem perto de mim. Elas se vão a marchar. Ao longe grafites alegres nas paredes. Um ônibus com os dizeres Missão Belém. Pela praça toda a gente a marchar. E a estátua lá, parada, num gesto eterno. Pedra. Tempo que sobe com o subir das pernas.

Uma rabiola de papagaio sacode ao vento pregada num poste de iluminação. Sacos plásticos passam por nós a carregar pessoas com coisas dentro. E me olham. Pessoas de todos os tipos, algumas mais imediatas, outras menos. Uma sombra ondulante lembra uma chama em negativo. O mato a crescer agora. Na praça. É teatro. Mais ou menos.

Muitas coisas passam por nós dentro de sacos plásticos. Elas estão de mãos dadas? A boa distância? Pedra. Tempo. O corpo sentado a escrever que os ísquios lhe doem e o tronco encurta. Rola? Eu acho que rola. Um sorriso banguela. Plim! O som do fim da linha. Plim! Simpáticas agentes de saúde passam acompanhadas de figuras frágeis. Parecem doentes. Uma magreza horrível. Um homem assobia. Prostitutas de rua? Do chão da rua. Cumprindo seu duro dever e protegendo o seu amor. E nossas vidas. Cantarolo a letra da canção. Os policiais. Essa máquina aí é mais velha que a minha avó. Pessoas me cumprimentam como se me conhecessem. Um homem despachado passa a cantar. Ó, aí sim, hein. Melhor lugar de escrever. Mais e mais coisas. Passam, semiescondidas no interior de sacos plásticos. Puxa, isso é do meu tempo. Isso sim é ser um bom datilógrafo. O mundo moderno de hoje em dia não me encanta. A carta é tão mais sincera. Pelo celular não é tão sincero. Eu nunca mais vi uma destas.

Um pombo passa bem perto. Um Aladim passa por nós em um tapete voador. Sério. Real. Surreal. Ao passo que elas se perguntam se podem dilatar o tempo um carro da guarda civil passa vagarosamente. Hei! Marcha. Homens sorriem. Hei! Depois nós é que somos os noia. Meu amigo, estamos em 2016. Datilografia? O projeto é precário? É isso? Hei! Um helicóptero sobrevoa. Marcha. Duas mulheres sentadas ali ao lado parecem comentar o que estão a ver. O que estamos a ver? Desconjunta, gira, volta, para, alinha. Hei! Marcha. As botas batem pretas em uníssono no chão. Tosse. Bocejo. Suspensão. Um silêncio entre aspas. Tudo suspenso. Tomo um baita susto quando a Karime grita. Hei! Sol. Sombra. Ou quase. Liana é a primeira a adentrar o sol. Hei! Desconjunta, gira e reorganiza. Hei! Elas vêm sisudas na direção do texto. Concentração para lançar a perna que voa e adianta o corpo junto. Um homem passa, a cabeça para um lado e para o outro, em desaprovação. Algumas pessoas se aproximam, como se viessem me dizer algo, mas nada dizem. Hei! Vêm elas. Em direção ao texto. Alguém canta Raul Seixas ao longe. Tente outra vez. Multidão de sacos plásticos. Passa pela máquina de datilografar. Duas mulheres. Uma sorri a outra não. Aquelas duas seguem sentadas lá. Hei! Outras duas seguram a mão de uma garotinha. Desconjunta, gira, reorganiza. Hei! Duas garotinhas passam de mãos dadas. Estão espantadas com o que veem. O quê? Escreve meu livro. Bom dia. É teatro? Tem vaga? Passa um cego atrás de mim. As pessoas pedem explicação. Explicação? Um homem começa a marchar e girar com elas. Outro homem se recolhe a um canto para cuspir na parede. Elas agora estão paradas. Miram o longe. O nada. Suspensão. Descanso. Tensão. Helicóptero. Hei! As botas batem pretas no chão. Hei! Meus ísquios doem. Banco duro. Sentado. Sombra para o sol. Para a sombra. Os policiais olham. Confusos. Alguém lá longe grita. Hei! O que é isso? Sorria, você está sendo descrito. Hei! Vocês têm um objetivo? Vocês são uma ONG? Pergunto a uma assistente social o que ela faz aqui. Ela e a colega trabalham com usuários de craque. Redução de danos. Passa o Aladim outra vez sobre o tapete voador com controle remoto. É só um delay do vento. Um pombo em sobrevoo. Cinza azul em degradê. É o metatarso que vai primeiro ao chão, não o calcanhar. Mas sem fazer ponta. Solta mesmo em cima da perna. Liana me pergunta se eu quero uma bota também. Bota e boné. Revolução. Trabalha bem, hein, negão. Você é louco. Um ônibus, Rápido Perus, passa por nós. Garotos põem as cabeças para fora da janela e dizem coisas que eu não entendo. A estátua insiste em seu ego. Gesto. Pedra. As pessoas me cumprimentam. Tem algo neste datilografar o ar livre. Respeito? Nostalgia? Algo no olhar das pessoas.

Fazer filho para encher cadeia? Melhor fumar maconha, cheirar cocaína, fumar craque, do que puxar uma arma. Ele não se parece com o que diz. E demonstra um prazer especial em realizar os gestos de quem maneja uma pistola. O prazer de fingir. Melhor do que atirar? Você é jornalista? Não, sou usuário. Lá vem o homem bomba. As pessoas começam a se repetir. Um mesmo homem que foi agora vem. Agora volta. Quatro policiais passam bem perto de mim, um deles me cumprimenta, sutil, mas firmemente, tipo policial.

Hei! O sol já está pela metade do espaço. Você é antigo, hein, companheiro. Essa máquina funciona? Um homem antigo. Sentado frente a um objeto antigo. A escrever coisas antigas a respeito de coisas leves que voam com o vento. Agora. Gestos antigos para corpos breves. Os ritmos. Das pessoas. Compõem. O ritmo delas. Um homem bem sujo para ao meu lado. Observa. Este objeto. Pernões acompanhados de carões vêm em direção a nós, eu máquina, texto e homem sujo. Marcham agora com toda a força. O efeito é outro. O espaço adensa. Ao mesmo tempo em que esvazia de gente. Cheio vazio de olhar. Hei! Você escreve o que vem à sua cabeça?

Com força as pessoas olham de outro jeito. Você preenche papel? Sim, literalmente. Algumas pessoas passam em estado, cheiro e consistência deploráveis. Pessoas em decomposição. Alguém lá longe filma o que estamos a fazer. Três jovens com carrinhos cheios de mercadoria observam. O que veem? Dois se vão, um fica. Dois esperam, um vai. Vem, Sofia, saí daí! A menina se mete no meio da marcha. Que física é esta? Quântica. Um senhor curioso. Diz coisas de modo veloz, como se dissesse duas, três palavras ao mesmo tempo, sobrepostas. Me chama de professor. E se mexe. E faz gestos. E poses. E então faz uma abertura. Ele quer saber se eu o acho parado ou em movimento. Adriane. Ela já tinha vindo falar comigo, veio novamente. Eu não sei quem vocês são, eu não sei o que vocês fazem, mas tem uma luz.

***

Começo antes do começo. Elas se aquecem. A máquina de escrever dançarinas a marchar na praça já chama atenção. Do arco da velha, uma mulher diz. Hoje o carro da guarda civil está longe, lá. Eu sempre quis ter uma máquina de escrever, alguém diz. Hoje o céu é outro, mas a estátua segue lá, firme em pedrada pose. Crianças brincam longe, se equilibram sobre os aros de prender bicicleta. Três policiais passam. De lá para cá, tudo lá. Uma mulher de óculos escuros a olhar-nos. A olhá-las. Ela nos observa, se senta, à luz, de fim, de dia. Hoje, tudo o que elas fazem adere ao espetáculo medonho de ontem na câmara dos deputados. Dois policiais ao fundo. O que pensarão? O que verão? Um garotinho passa por nós, correndo, feliz. A mulher se vai, se foi. O mato da praça segue alto, descuidado ao som da sirene de um carro de polícia. Um cara me cumprimenta, já me acostumei. Um Dia.

Emblemático. Olha a coreografia da hora aí, alguém diz. Viverá aqui? Na rua? Os assistentes sociais a circular.

A máquina a céu aberto a impressão que causa. Uma cordialidade. Um homem grande, forte, vestido de preto, ao celular, passa por mim, e naturalmente me cumprimenta. Outro alguém me sorri. Um grupelho de crianças passa por mim, uma garotinha me dá tchau. Será que já viram uma destas antes? Da hora essa máquina de escrever, alguém diz. Elas se preparam para começar. Alguém as fotografa. Um encapuzado passa ao longe. Prédios duros. Árvores moles. Cabeças errantes. Contornam o céu. Gente que marcha, por natureza segunda. Um cão. Vaga. Mais cedo um pombo bebia água. É uma cadela, na verdade. E seu olfato está interessado no conteúdo de uma mala a atravessar um homem pela praça. Uma criança num carrinho de bebê. Há menos sacolas plásticas no fim da tarde. Você é escritor? Me pergunta uma assistente social. Elas ainda não começaram. Já faz um tempo que estou aqui sentado a escrever este lugar. O que vai acontecer aqui? Um homem me pede dinheiro para completar a passagem. Elas se abraçam, num círculo ritual. Os objetos que voam ao vento. Os que não voam. Calças jeans. Botas pretas. Silêncio. Karime desce a escada suavemente. Hei! Começou. Hei! Do fundo da garganta. As pessoas param a olhar. Pernas se lançam a noventa graus. Gira, desconjunta, gira, reorganiza. Elas olham na minha cara e gritam. Hei! Alguém a imitar o movimento delas. Aos berros de uma maritaca se sobrepõe a sirene de um caminhão do corpo de bombeiros. O papel se agita com o vento. Quer voar. A máquina é que não deixa. Gira, desconjunta, gira, reorganiza. Liana leva uma câmera atada à cintura. Olho na barriga. Hei! Os pés vão lá no alto. A respiração ofegante da Maryah, que estacou ao meu lado. Dois cigarros acesos em paralelo no espaço da minha visão. Outros três policiais. O que pensarão? O que verão nestas cinco mulheres a marchar o bater forte do pé no chão? Bacias. Quadris. Elas afligem o espaço, alteram o que vem a ser o caminhar das pessoas. Impressão de que todos marcham agora. Hoje as pessoas parecem mais impressionadas com o que veem, afinal hoje elas fazem mais forte do que nunca. Passa um grupo de homens vestidos como maritacas. Verdes uniformes, detalhes em amarelo. Nossa, alguém diz. Este é o primeiro sintoma, outro diz. Sintoma? Ao largo o som de uma música gospel que se solta da carroça de uma catadora de papel. Jesus. Mais uma pessoa a imitar a marcha delas. Hei! Em minha direção. Novo som de sirene. Em algum lugar algo pega fogo. Um sujeito de bicicleta cruza veloz o espaço, num salto. Elas agora emparelhadas. Estacadas. Como a estátua que insiste em ficar lá. Um garoto passa a chutar o ar. A marcha é retomada. Hei! Do fundo da goela. Hei! Definitivamente, o fim da tarde não é o horário das sacolas plásticas. Pela manhã eis que vão. De noite eis que não voltam. Outra sirene. Sim, algo pega fogo lá fora. Os insurgentes atearam fogo à prefeitura. Ao congresso. É inflamável o banco central? Felipe lá bem longe, nos vê. Também gosto destas coisas vistas de longe. A iluminação pública a dar sinal de vida. Vai acendendo aos poucos. Azul. Verde. Amarelo. Luz do céu. Luz dos postes. As luzes de um hotel, dos faróis, dos semáforos, as luzes de freio. Elas ainda não sabem que a gravidade desta marcha está a entusiasmar telepaticamente acontecimentos outros. Elas não sabem que estão a conjurar forças invisíveis. Um senhor avista a marcha e faz a saudação nazista. Um casal se senta para vê-las. Um homem passa com uma cara curiosa. Depois também uma mulher. A força gravitacional da máquina de escrever altera as rotas das pessoas. E enquanto isso, algo acontece e elas não sabem. Aqueles mesmos três rapazes da semana passada. Mais uma vez param os três, com seus carrinhos cheios de mercadoria, a olhar para nós. Hei! Neste momento, os bombeiros tentam apagar o fogo. Uma mulher está fascinada pela marcha. Olha, sorri, quer. Uma fronteira invisível a impede. Ela caminha de um lado para o outro. Olha, sorri, e não sorri. Agora está a contar quantas são. Serão cinco? Alguém berra ao fundo, parece se comunicar. Uma carreta cheia de lixo. Hei! Hei! Alguém passa a olhar a máquina. Outra sirene. Anoitece. Devem ser umas seis e vinte da noite. Uma mulher corre para pegar o trem. Um saco plástico, finalmente, um sobrevivente, adentra a cena, para ao lado de uma pena de pombo, pausa, e segue seu caminho. Objetos que voam com o vento. Lágrimas voam com o vento? Gira, desconjunta, reorganiza. O fim se aproxima. Elas se alinham, em paralelo. Arfantes. Descansam. Cansadas. De costas, Maryah desaba sob o brilho das luzes artificiais. O vermelho das sirenes a refletir nas superfícies. O lusco fusco, a pouca luz de todas as luzes. Outra sirene. O que acontecerá lá fora? O que fizemos sem saber que o fazíamos? À noite a estátua é só um pedregulho. É forte, esse final, final, esse final. Elas sobem os degraus, um a um. Um olhar de bigode. O suor nas costas delas. Maryah desaba outra vez. Meus ísquios reclamam. Elas caminham, adentrando lentamente o outro lado, escuro, da praça. Aos poucos elas vão aderindo à escuridão. Caminhando até sumir no espaço.

A única que ainda vejo é Liana, que tira as botas e as oferece às pessoas que passam. Toma estas botas com a qual acabo de marchar.

Pela desordem que se dá em algum outro lugar. Tenho certeza. Eu te ofereço estas botas. Toma, moço, toma estas botas com as quais acabo de marchar pela desordem. Oferta sem procura. Arte? Está acabando, vai acabar. O que fará esta mulher que nos oferece suas botas? Chris reaparece e passa por ela. Diz algo que não ouço. Ninguém quer as botas. As pessoas passam reto. Uma mulher quase as aceita, mas não. Liana ali, parada, no mesmo lugar. Toma, moça, toma esta desordem. Um filme. Moça, toma. Uma mulher então aceita as botas e a desordem as leva consigo. Acabou. Liana se senta no chão, desbotada. Parece acabada. Acabou.

22/04/2016

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17.12.2015. Centro Cultural São Paulo. Montra, último dia [trouxe minha mãe comigo]. Ontem Rosa Laura instalou seus grandes adesivos modelares em dois vidros paralelos do CCSP, e agora estamos a brincar de olhá-los. Um cálculo preciso faz com que os adesivos, suas formas, em par se encaixem à distância, a depender da posição do olhar no espaço. Uma peça se encontra logo à sua frente, a outra lá longe. Ambas coladas em vidros um de cada lado do saguão. É preciso posicionar a cabeça, o corpo, de um determinado modo, numa dança ocular engraçada, para que de repente as duas imagens se encaixem no espaço da visão. A peça de cá é pequenina mas fica do mesmo tamanho que a de lá, que de perto é enorme. O encaixe nunca é perfeito, mas dinâmico, em acordo com a oscilação da postura. Só vendo. Faz calor e João Reynaldo veio de calça de veludo. Ele parece injuriado, mas é bem-humorado. A incompatibilidade também é uma estratégia, ele diz, resistir também é conhecer – o veludo. Ele trouxe uma escultura. Gramatura 48g/m². Sobre um suporte de acrílico um pregador de madeira fixa uma pequena folha de papel onde a máquina de escrever João desenhou uma escultura. Aliás, ela está aqui, a máquina, vermelha, sobre a mesa. Cinema só em película – a luz, a cor – digital não. Hoje em dia a ideia de campo expandido serve para qualquer coisa, escultura, literatura, navegação. Filipe retoma sua explicação para o corpo neutro. Do fundo do verão. Descrição de paisagem como um cenário. O cheiro a mar, o cheiro a mar, o cheiro a mar. João Reynaldo diz que pensou em mim, que quer tomar um café comigo ou algo assim, que eu sou um cara legal. Ele nos mostra como faz seus desenhos. Destrava uma presilha que fixava o papel que agora fica solto no rolo. Com uma mão bate ponto a ponto, com outra segura e movimenta a folha. A cada caractere que ele acrescenta no papel um deslocamento em alguma direção, e o acréscimo de novos caracteres em movimento vai desenhando coisas. Outras regras quando, no território de uma máquina de escrever, a gente fica solto no papel. João Reynaldo nos conta de sua perda materna. Ele nos trouxe uma foto dela, em preto e branco. Há alguma conexão entre a morte de sua mãe e a chegada da máquina vermelha. Foi a esposa do padrasto quem lhe deu a máquina que certo dia dava sopa no porta-malas de um automóvel. Ele conta que está prestes a fazer da transformação de seus papeis catados na rua um livro, o que retoma o velho problema da reprodução em série destes seus papeis tão singulares. Alguém fala de Wlademir Dias-Pino e seu poema processo. Repetição. Samantha afixou no vidro da sala os textos de sua humanatura. Das tiras de papel pendem fios vermelhos de lã. Rodrigo passou os últimos dias a pensar num trabalho para o CCSP. A questão é como superar as imposições deste espaço atulhado. Como dar ambiência própria a uma obra neste cúmulo de coisas sobrepostas, tão contrário à brancura limpa dos espaços expositivos habituais. E ainda por cima sem dinheiro. Filipe conclui: este Montra foi um espaço de produção de desejos. Materializá-los é a ideia para uma próxima oficina. É uma questão de tempo e orçamento. Patrícia chegou. Hoje, para desfechar o Montra, faremos com ela uma deriva pelo CCSP. Filipe menciona um edital da Folhetaria. Talvez estes textos ganhem outras proporções. Samantha lembra que ao final ela conseguiu fazer quatro performances ao longo destes quinze dias. Prólogos e epílogos da sua vida, roupa branca, imaculada, ela ficou toda roxa, visceral. Dançou bruscamente a dificuldade de transcender este espaço. Movimentou-se para desacostumar lugares e não ser só mais um corpo ali no chão. Eu não deixaria você me vendar, diz Patrícia, com quem compartilho um certo gosto por elipses, o que no meu caso começa pela maneira como registro, ou não, estes acontecimentos. Antigamente eu gravava tudo. Hoje relaxo os silêncios que vêm com o lápis na mão. Sobram mundos no intervalo entre as palavras. Rosa Laura conta de um amigo arquiteto que levou ao limite a ideia da unidade mínima da existência e reduziu sua vida material ao ínfimo possível. Até mesmo os livros ele digitalizou para deles se livrar. Descascou as paredes, deixou os miolos expostos. Na tevê Rodrigo nos vai mostrar um trabalho. Pathos. Tela vermelha. De baixo para cima começa a pegar fogo. Atrás do vermelho que se vai com as chamas, um novo vermelho, que pega fogo, e assim infinitamente, em looping. Rodrigo fala em tirar pessoas do espaço, fora, fogo, dentro, pegando. A tevê é superfície de luz, não tem profundidade, mas tem profundidade. João Reynaldo teve vontade de viver o acontecido, ver ao vivo o vermelho a queimar e sumir diante de um novo vermelho que então faz o mesmo. Eu queria estar presente aos volteios da fumaça, ao fogo luz, sentir o cheiro da fumaça. Mariana lembra o projeto limítrofe de Rosa, escanear o fogo, pois parece que a tevê está pegando fogo. Interior. É hora de derivar. Descemos de elevador até a biblioteca. Andamos juntos. Corpo coletivo. Reparo a caligrafia tortuosa do caminhante. Ali fora a Avenida 23 de Maio. Aqui embaixo o estacionamento. Ali a tal Folhetaria. Onde dá esta escada? Outros quantos ângulos. Uma placa antiquada proíbe receber ou efetuar chamadas neste local. A multa é medida em UFIR, unidade fiscal de referência que nem existe mais. Entramos no jardim pela sua margem baixa. Outro ar, outra pressão no corpo, outra temperatura. Vou até ao pé de uma grande árvore e com o rosto voltado para o céu fico a ver caírem sobre mim e sobre meu caderno as gotas da chuva. Linhas que crescem em forma de esferinhas cristalinas que tudo refletem, brilhantes d’água. Passamos pela biblioteca em braile e inventamos uma área de leitura ao som do clique da máquina fotográfica do Filipe. Ao meu lado Patrícia a desenhar. Agora é minha mãe quem faz de nós uma foto. Os cegos não podem ler a plotagem no vidro da biblioteca que diz que os cegos constroem mundos completos, suficientes, que sua identidade não implica qualquer sentimento de incapacidade ou inadequação, e que o problema da cegueira e o desejo de curá-la, por conseguinte, é nosso e não deles. Oliver Sacks. Premonição. Adentramos inadvertidamente a biblioteca para os que enxergam e de lá somos polidamente retirados. Há algo inapropriado em nós. Voltamos então ao pátio central agora abordando o jardim pela sua margem alta. Mais tarde chegamos à horta coletiva. Patrícia se mostra surpresa quando me vê a mordiscar umas cebolinhas, depois umas couves. Ela nunca tinha cogitado essa possibilidade. Ela tem uma sensibilidade para as singularidades de cada espaço, para os diferentes corpos que cada lugar produz. Nick, seu amigo, fala de uma memória social da arquitetura e eu me lembro das entrevistas do Luiz Telles, do seu uso potente da ideia de pessoa pública. Ao passo que caminhamos me lembro daquele primeiro dia de Monte, mãe do Montra. Os peripatéticos somos empíricos, acreditamos que uma caminhada pode adotar a forma de uma conversa.  O que ninguém nasce sabendo. Patrícia então compartilha conosco uma leitura intrigante do mito de Caim e Abel. Abel, pastor andante, corpo aberto no espaço à mercê do vagar de seus animais pelo campo, não se fixa. Caim é agricultor, um assentado, um posseiro. O desfecho da história, o assassinato de Abel por Caim, marca entre nós, por um lado a notoriedade do assentar-se e possuir, por outro a rejeição da mobilidade volúvel enquanto modo de vida. E por enquanto é o fim.

[…] 10.12.15. Centro Cultural São Paulo. Montra, terceiro dia. Os textos que deixei na mesa continuaram lá. Vou dando-os a cada um. Alguns a lê-lo. Samantha a agarrar gizes com barbante. Filipe a convidar-nos para o jantar de lançamento d’O corpo neutro, que será na minha casa. Ao fundo se ouvem vozes de pessoas, uma música do Criolo, um segurança a falar ao rádio. Já nos acostumamos a esta balbúrdia sonora. Dispomos agora de uma televisão, onde Mariana nos vai mostrar Heterotopia I. Uma paisagem rural, uma rampa de madeira, a câmera estática, a princípio. Uma rampa, um objeto esperando presença de algo que lhe sobrescorregue, mas nada acontece. Então o quadro inicia um passeio muito lento à direita. A rampa vai ficando para trás. Pelas cores da claridade o pôr do sol se aproxima. De repente, de uma linha vertical em diante, a imagem desfoca, de um jeito estranho, e os elementos no quadro perdem realidade. A paisagem borra, os contornos todos espalhados. Saquei. É a superfície de um espelho o que a câmera encontra em seu caminho. Um espelho que reflete as cores infindáveis do pôr do sol, mas o modo como a câmera capta o reflexo faz a imagem esvoaçar, lindamente, como um filtro. Então o quadro segue seu caminho, até ultrapassar o limite do espelho, a partir do qual a imagem se normaliza e a paisagem retoma suas definições, até encontrar finalmente um segundo pôr do sol, o “original”, agora de contornos nítidos. Fim. Mariana conta que Heterotopia I tem por inspiração Outros Lugares, de Foucault, e foi feito durante o Festival de Arte Serrinha. Rodrigo pergunta por que ela não recorreu ao looping, ao tempo sem fim. É que há um segredo aqui, ela responde, que uma vez revelado dá cabo à narrativa. Filipe menciona a engenhoca desenvolvida por um amigo a partir de um motor de batedeira, que roda lentamente e faz fotografias circulares de metros e metros. Mas a organicidade do movimento da câmera, executado manualmente por Mariana, é uma virtude desse trabalho. Gesto. Corpo. Olhar. Lá fora segue tocando Criolo. Agora ela nos mostra Penetrações, de 2012, feito no contexto de um coletivo de vídeo dança, o Grupo É. Penetrações, brechas de luz solar, água e corpos intermitentes. Penso em como a dança está sempre a desestabilizar e dificultar o discurso verbal, falado, falo isso. Mas o que você leu no Penetrações, Filipe me pergunta, ele parece estranhar que um estudioso da dança encontre dificuldades para significá-la. Eu li a luz, respondo, e minha atenção se volta para Rosa e João Reynaldo a conversar coisas que não ouço. Os limites da minha audição os limites da minha escrita. Dança. Ouvido. Agora é Rosa quem nos vai mostrar seu trabalho. Eu gosto da tevê, ela diz. Em casa ela deixa a tevê ligada com imagens na tela, como um porta-retratos. É o suporte onde ela gosta de mostrar seus trabalhos. Tevê caixa de luz. Não tenho vontade de imprimir, por isso a tevê é o suporte que eu uso. Rosa nos explica que alguns trabalhos seus são imagens produzidas com scanners, outros com máquinas de xerox. Imagens cuja complexidade é, em alguns casos, serem registros da própria luz da máquina, e não reproduções de outras imagens. Ela nos mostra uma foto de um ponto de ônibus em frente ao Teatro Municipal. Era noite e ela voltava do Anhangabaú quando encontrou aberto o painel de luz do ponto de ônibus, sem publicidade alguma dentro, simplesmente aberto. Já estava bonito sem o trabalho lá, ela diz. O que ela fez então foi inserir uma de suas obras no painel de luz, onde estaria o cartaz publicitário, e fotografá-la, em meio à paisagem urbana noturna. Nó de luzes. Numa outra foto a disposição de três séries de imagens numa parede. Foi tirada no dia da sua defesa de mestrado. São as imagens como ela as exibiu para a banca. São séries que exploram a ideia da cópia e fazem da reprodução transformação. Num caso, por meio de uma máquina de xerox, copia-se uma imagem e depois a cópia, e depois a cópia da cópia, e assim por diante. Ao final a imagem a desaparecer em branco. Noutro caso o procedimento é semelhante, porém com movimento. Noutro em zoom constante. Algumas imagens trazem as marcas do próprio vidro do scanner. Ou do dedo sujo de Rosa. Uma presença, um gesto, o vidro que se interpõe. Memória. Imperfeições em primeiro plano. Cópia. Aura. O trabalho é sobre essa diferença, diz João Reynaldo, diferença que se faz presente a cada repetição. A série evidencia isso. Rosa conta que, no limite, seu projeto é atear fogo a um scanner ao passo que este registra a luz da chama que por fim o engole. Scanner ao fogo, registrando em imagens a luz de seu próprio derretimento. Fotografar a luz. Ela conta que já não trabalha mais com cores, pois a luz não tem cor. A luz aqui se apresenta em escala de cinza. Me faz lembrar de algumas fotografias minhas de antigamente. Rosa também faz carimbos, esculpidos em borracha. Ela também cria módulos. Modular faz parte do seu trabalho. Ela pira com suportes e neste momento está a olhar ao redor em busca de lugares onde possa inserir algo seu. Passamos a pensar em voz alta o espaço expositivo de que dispomos aqui. Os emblemáticos vidros do CCSP, uma longa discussão acerca do uso deste espaço. A dança. Vidros que se fazem espelhos. Espelho janela do ego. Aqui, alguém diz, ao menos é só uma janelinha. Patrícia se apresenta, artista em relação, arquiteta contextual. Há alguns anos seu trabalho é derivar caminhadas em conversas com o espaço. Grafite sobre caderno é seu tipo de apresentação preferido. Pessoa. Espaço. Caderno sobre madeira. Criar problemas para lugares aparentemente resolvidos. Caminhar relações que geram espaço. Uma residência que fez no Bixiga há um tempo atrás. Três meses de perambulações pelo bairro. Derivas que deram em obras e, ao final, uma exposição, um grande mapa urbano-afetivo. De obsessões. De sons. De espaços. Patrícia também é máquina de escrever em papeis que se vão encontrando. Ela também são carimbos esculpidos em borracha ou cortiça de rolha. Pessoas que fazem carimbos e catam papeis e escrevem neles a máquina. Transformadores de papel de pão em máquinas de escrever coincidências. A arte para ela é o erro. Penso no livro Lines, de Tim Ingold, que ainda não li. Patrícia me mostra um triângulo tatuado em sua pele. As linhas do triângulo ligam três pintas suas, ela me explica. Impressão indelével da residência que ela fez no Bixiga. Os demais artistas que participaram da residência fizeram o mesmo, comum acordo, tatuaram linhas que ligam pintas e formam constelações na pele. Artistas são como pessoas. Chega Tiago. Mestre em dramaturgia. Direção. Palavra. Voz. Ele nos solicita uma leitura em voz alta de alguns trechos de Jean-Luc Lagarce. Rodrigo lê o prólogo de Apenas o fim do mundo. Depois Filipe, João Batista e Rosa leem um bom trecho de História de amor. Um som surdo e repetido faz fundo. Está ótimo, diz Patrícia. A interação dos três. Conforme leem, interpretam, vivem essa história de amor, os três vão criando uma cumplicidade aqui e agora, em meio às reverberações sonoras de uma passagem de som. Dois homens, Primeiro e Segundo. E uma mulher. Imagens. Outros lugares. Alguns textos meus. Leveza. Ironia. Tudo o que você quiser de volta. E outra vez a barulheira nos expulsa da sala […]

[…] 08.12.15. Centro Cultural São Paulo. Montra, segundo dia. Samantha conta que trabalhou como facilitadora na exposição da Marina Abramović. Concentração, aprofundamento, método. Dois dias sem falar, sem comer, a chá e mel. À noite uma salada. Hoje ela vai experimentar seu Humanatura. É a primeira vez que ela o faz. São 14:30. Ela também quer fazê-lo à noite. Sobre a mesa um novelo de lã vermelha com cujos fios ela alinhava vinte pedaços de papel com trechos de livros de escritoras mulheres que ela transcreveu com aquela fonte que imita máquina de escrever. Não há razão de ser lã, mas há razão de ser vermelha. Sangue. Vai ser bem contraditório, vocês vão ver. Enquanto ela se prepara eu vou tomar café com João Batista. Voltamos, ela já está pronta, com uma espécie de roupa de época, uma anágua ou algo parecido, tudo meio branco meio transparente. Uma rosa vermelha cobre sua boca. Tchau, gente, até mais, e prontamente ela adentra um modo performance. Ela se posiciona por algum tempo atrás do vidro da nossa sala, que dá para o corredor. Duas tiras de pano vermelho lhe escorrem pelas mãos. Os diversos pedaços de papel pendurados nos fios de lã vermelha. Um segurança passa, chega bem perto dela e lhe diz algo que não ouço. Ela então passa a se movimentar, tempo lento. As pessoas passam apressadas, contraste. Filipe tira algumas fotos, analógicas. Uma moça numa cadeira de rodas elétrica começa a seguir Samantha, elas adentram o mesmo ritmo. Ao fundo uns caras treinando break. Ela dá meia volta, um homem alto se aproxima e de algum modo compreende que deve escolher um dos trechos, ela lhe venda com a tira vermelha os olhos. Num canto três adolescentes, sentados no chão, assistem vidrados a um vídeo no computador. Eles nem se dão conta de que atrás deles há uma figura estranha, de outro tempo, do tempo de Eça de Queiroz, Machado de Assis. Samantha caminha lentamente até um dos pátios do CCSP, onde num dos cantos fica o café e onde há uma escada vermelha que dá para o enorme terraço gramado de verde. Já é a quarta pessoa para quem ela lê um dos seus trechos. Acaso, texto, signo, oráculo. A moça sorri, agradece, e se vai. Duas mulheres passam reto. Já são sete pessoas. A voz dela lendo para a pessoa o trecho se perde no alvoroço sonoro deste lugar. Oito pessoas. Um sujeito adentra uma conversa com ela tirando-a de seu estado performativo, ela parece explicar-lhe algo. Desta vez é ele quem lê o trecho escolhido, não ela. De longe tenho a impressão de que ele a corteja. O jeito como ele para de pé, a posição das pernas, assimétricas, uma esticada a outra dobrada. Ele vai embora. Ela vai e volta. Faz um gesto em direção às pessoas, que passam reto, dentre eles um tagarela compulsivo, desses que se dirigem ao vento. Nove pessoas. Ao meu lado alguns pallets de madeira, com almofadas, onde um casal deitado se atraca, parecem estar na sala de casa. Onze pessoas. Quero pedir à Samantha os trechos que ela escolheu. Samantha sobe a escada. Para no meio. Uma linda foto que o Filipe não faz porque está conversando com uma amiga que ele encontrou e para quem está a explicar o que é o Montra. Treze pessoas. A pessoa escolhe o trecho, ela o lê, uma espécie de adágio oracular para as próximas horas ou dias. Subo os degraus e passo por ela, me sento ao final da escada. Ela vem até mim, escolhe um. Escolho. Virgínia Wolf. Orlando. Os vários de que somos feitos, como pratos empilhados na mão de um garçom. E ela segue seu lento caminhar pelo gramado do terraço. Uma cena, o verde, o sol, ela de branco com seus trechos vermelhos. Os papeis esvoaçam no vento. Tem gente que passa reto, tem gente que não, tem gente que passa reto mas volta logo em seguida. Filipe está sentado ao meu lado a ler o primeiro dos textos do Montra. Imprimi 20 cópias, dei uma a ele outra à Samantha. As demais deixei sobre a mesa da nossa sala. Quinze pessoas. Lá longe percebo uma garota que olha para nós e depois para a figura de branco. De longe eu percebo sua atenção, mesmo distantes somos todos especialistas em rostos. Filipe é a décima sexta pessoa. Clarice Lispector. Bom é ser inteligente e não entender. Descoberta do mundo. Dezoito. Por fim, ela volta à sala e desce por completo do estado, terminou. Ali ao lado os três adolescentes seguem vidrados na tela do computador […]

03.12.15. Montra primeiro dia. Encontro João Reynaldo, amigo da Júlia, que eu já conhecera na casa dela. Poeta, cata papeis na rua. Filipe explica algumas coisas. O espaço impõe limites. O que quer dizer Montra. João. Mariana. Rosa. Júlia. Filipe. João. Renato. Thaisa. Apresentam-se. Tiago. Rodrigo. João Batista, ator e performer. Eu, escritor, antropólogo. Sínteses propostas pelo Filipe. Thaisa, apropriadora de imagens. João Reynaldo apresenta seu trabalho. Ele pratica corrida e cata papeis ao longo do caminho e carrega consigo papeis, caso lhe ocorra escrever. Papeis. Em geral arrasados singularmente pelo tempo sobre os quais ele escreve e ou desenha, a máquina. Ele pensa em migrar para o bordado. Ponto por ponto, ele bate a máquina. Desenha com a máquina de escrever. Só vendo. Um artista da máquina de escrever. Digigrafia sobre papel maltratado e sujo. Papel lixa usado. Máquina de escrever portátil. Filipe sugere que ele a carregue até aqui. Maíra chega. Samanta se apresenta, arte e educação, letras, performance. Uma performance para agora: escritoras feministas. Trechos. Retratos de violência contra mulheres. O espaço se impõe. Estamos todos em volta de uma mesa e uma passagem de som que vem lá de baixo abafa quase completamente nossas vozes a discutir a própria arquitetura do CCSP. A concepção política deste lugar. Um espaço sem vergonha. Bolhas expostas. Pessoas sempre muito diferentes. Uma diversidade que, fora daqui, só existe nas universidades, diz Tiago. Esses vidros, que nos refletem e ao mesmo tempo transparecem todo o lado de lá. Essas pessoas dançando para todos os lados, sem vergonha. As pessoas públicas, das que fala Luiz Telles, um dos arquitetos deste espaço. Tiago comenta sua impressão de que as pessoas parecem estar o tempo todo procurando algo aqui. Maíra diz que o CCSP foi um grande atrativo para estar no Montra. Filipe conta que entende o livro de artista enquanto espaço expositivo móvel. Ele se apresenta. Traz consigo O corpo neutro, que acaba de ficar pronto. O som da passagem de som segue a abafar tudo o que estamos a dizer. Mariana vai apresentar seu trabalho. Ela nos mostra h-o-r-i-z-o-n-s. Mariana Meloni. Seu livro, de artista, são sobreposições de horizontes impressos em papel vegetal. As imagens, semitransparentes, se transfundem umas nas outras. Horizontes sobrepostos em papel vegetal. Com o barulho, subimos até a parte de cima do CCSP e nos sentamos sobre aqueles bancos cujas superfícies são pedras lisas e irregulares, sabe? Agora podemos nos ouvir. Tiago nos mostra seu trabalho, uma grande sátira dos editoriais de moda. Sheila Ribeiro é a intérprete modelo desses ensaios que surgem enquanto comentários de obras de dança. Em um deles ela faz caras, bocas e gestos típicos das fotografias de moda, caracterizada como um segurança, terno preto, gravata e rádio na mão. No lugar do texto as imagens. Comentários no lugar da crítica. Moda não comercial. Grife de mendigo. Tiago fala do mero efeito criado pela presença do fotógrafo e da modelo no espaço público. As pessoas podem optar por estar ou não dentro da obra, ele diz. Um lugar criado que produz resposta. Todos são fotógrafos hoje em dia. Tiago critica a fixação estética da obra de Pierre Verger enquanto o que é a Bahia. Ele conta seu interesse em atentar para a própria forma do corpo do fotógrafo cuja preocupação é simplesmente obter a melhor imagem da festa mais clichê de Salvador. Há uma foto de um fotógrafo a se contorcer ridiculamente em busca de uma “boa foto”. Tiago sustenta o lugar da fotografia. Tiago Lima. Ele conta que chegou à fotografia para se dar um lugar fora da imagem, mas que as coisas mudaram de lugar depois que ele experimentou a interferência do seu fazer no espaço público, depois que ele incluiu o próprio fotógrafo na cena. Algumas pessoas lhe perguntavam por que, na mesma festa clichê, ele não estava fotografando o que era para ser fotografado? E o que deve então ser fotografado? Pigmento azul sobre escada. Pó sobre um objeto. Matéria. Pessoas subindo e descendo a cascata. Rodrigo Arruda. Folhas de ouro de 24 quilates ao longo de um rio formado pela água de uma mangueira. A topografia determina a forma do rio. Ouro, água. Um fio de tela, desamarrado e reamarrado. Fios de argila de menos de 1mm alinhados no centro de uma mesa branca comprida de 6 metros. Há muitos preconceitos acerca da argila, ele diz. Argila, ouro e fios de tela – tela de pintura. A tela que se torna fio, entre a matéria e a linha. Filipe me apresenta por fim. Como vocês podem ver, ele está sempre a trabalhar, ele diz. Eu tento explicar meu trabalho e convido a todos a compartilhar textos comigo […]