15/10/2017

Me viro, bunda na terra vermelha, pés para o alto e uma perspectiva misteriosa do Centro Cultural, um recorte escheriano para dentro do qual mergulha o voo de uma ave vira-lata. Ao fundo, bem à esquerda, dois breves trechos de uma igreja mesogótica, um ser antigo surgindo detrás de chatos jovens. Um homem surge no terraço oposto, carrega um saco, parece poderoso, ele nos vê a olhá-lo, aponta-nos algo, ergue o braço, sorrio, Mari se vira a ver o que é, o homem tampa a orelha – um chamado. Erika vem, Filipe se vai. Erika tem as mãos sujas de gesso. Um canteiro – flores por vir. Erika – está descalça. A grande nuvem – vai e vem, como a polícia. O segurança surge, tudo se dissolve. Me viro para a avenida que dá numa serra enevoada pela distância, presença gigante, a ver-nos de outra era. Do buraco sai um decalque de floresta. Erika se deita de barriga através do banco. Os pés suspensos. O papel na terra. Terra.

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15/10/2017

Quando começa a chover uma garrafa vazia cai no chão. Os fugitivos adentram o prédio e vêm durar conosco. Senta aqui, não pode. É passagem, este corredor precisa estar desbloqueado. Senta aqui, não pode. Encostar na parede. Sai andando. Pingam micro-gotas, metade do céu está claro, o sol nas suas costas. Volta ao lugar do acontecimento. Percebe a força escondida aqui embaixo. Nada parece saber a vibração potencial deste lugar. E nossos fiéis são discretos, todos trabalhadores, de uniforme, a empurrar em carreata seus carrinhos de limpeza. Uma mulher, um homem e Adelino, o índio de fala fácil em cujos dizeres seus colegas estão sempre interessados. Já não chove de todo. Aos pés uma trilha consolidada de formigas. Você se levanta para segui-las e vê sua sombra projetada na parede lá, alma discreta, quando, de repente, ela!, instaurada, a sair do banheiro, a dona-do-poder. Veio aproveitar os cursos d’água e lançar palavras aos passantes, depois do que ela caminha calmamente até o centro da cena, leva a garrafa à boca e ao inclinar a cabeça te olha no olho. Depois se vai, sem norma. Adelino entretém sua colega, você segue as formigas.

15/10/2017

Um diário entregue aos poucos. Um polvo gigante para um porco gigante. O meu avô era fascinado pelo pênis do porco. Filipe quer fazer o herói do rock, eu não sei se é por aí, acho que tem algo de imprescindível nesses cadernos, a Mari descobriu algo na materialidade do gesso – “eu acho que o meu maior interesse é a dança, e isso não é óbvio”. Você faria a dança de hoje? Faria.

15/10/2017

Inútil fazer com pouco o que requer mais.

15/10/2017

A falta de graça da modernidade cristã está, dentre outras inúmeras coisas, no que hoje conhecemos como A Navalha de Occam, um princípio atribuído ao lógico e frade franciscano inglês Guilherme de Ockham.

O princípio afirma que a explicação para qualquer fenômeno deve assumir apenas as premissas estritamente necessárias à explicação do mesmo e eliminar todas as que não causariam qualquer diferença aparente nas predições da hipótese ou teoria. É a “Lei da Parcimônia”, segundo a qual as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade.

[Qualquer semelhança entre ciência e monoteísmo – e, quem sabe, neoliberalismo – é pura coincidência].

O princípio recomenda, assim, que se escolha a teoria explicativa que implique o menor número de premissas assumidas e o menor número de entidades.

Originalmente um princípio da filosofia reducionista do nominalismo, a navalha é hoje uma das máximas heurísticas (regras gerais de processo) da economia “parcimoniosa” e “simples” das teorias que regem nosso mundo judaico-tecnológico.

“Se em tudo o mais forem equivalentes as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor”, diz a navalha.

A Navalha de Occam é, portanto, um princípio metodológico que, além de sugerir que as explicações mais simples são sempre as melhores, de quebra afirma que as mais complexas devem ser sempre refutadas, em qualquer situação. É navalha não, é gilete.

William de Ockham defende o princípio de que a natureza é por si mesma “econômica”, optando invariavelmente pelo caminho mais simples, o que nem de longe tem sido provado pela própria gigante “natureza”.

É claro que muitos foram contra a navalha, entre eles Walter Chatton, contemporâneo de Ockham, que afirma que “se três entes não forem suficientes para verificar uma afirmação acerca de algo, então um quarto deve ser acrescentado, e assim por diante”.

Leibniz, Kant e Karl Menger também discordaram da navalha. Leibniz afirmou que “a variedade de seres não pode ser reduzida”. Menger formulou a lei contra a avareza, segundo a qual “as entidades não podem ser reduzidas até ao ponto da inadequação”, afinal “é inútil fazer com pouco o que requer mais”.

15/10/2017

Quando eu assisti a La Bête, algo imediatamente me passou: esse trabalho é sobre nós, é sobre o público, é sobre cada uma das pessoas que se atreve a manipular o corpo absurdamente disponível de Wagner. É sobre o jogo que se cria ao redor dessa figura plástica, nua, “neutra”. Tamanha disponibilidade tem o efeito curioso de evidenciar a pessoa que manipula o bicho, tornamo-nos figura, o corpo de Wagner se torna fundo. A ansiedade, a hesitação, a violência daqueles que vão até ele para fazer dele o que bem entendem é o que salta aos nossos sentidos – algo que remete à famosa performance de Marina Abramović, em que diante de 72 itens, entre eles um machado, uma pistola e uma bala, ela fica por seis horas à disposição do público para que façam o que quiserem dela. A hesitação da menina, a vontade da mulher, é o que nos capta, a impositividade do homem que carrega o corpo inerte pelo espaço, a sacanagem da pessoa que o coloca de quatro para o público, eis a eficácia desse trabalho do Wagner – somos nós o objeto do trabalho, não ele!, é nossa crueldade e nossa curiosidade que estão em jogo, apesar de tudo indicar o contrário. Eis a sagacidade da proposta, que ao transubstanciar o bicho de Lygia no corpo de Wagner, causa uma inversão na qual nos tornamos nós os bichos. Bichos estranhos, é verdade, cuja moral se resume a jurar que se vestir é a superação da condição de animalidade, quando ao fazê-lo apenas recalcam e radicalizam o abismo que os separa de sua sexualidade – a criança invertida, o ser mais amoral de todos tornado a figura máxima da inocência, joga aqui um papel crucial. A distância como método de controle, fingir que algo não existe como caminho para a não-existência de algo. A repressão ativa de tudo o que podemos ser, viver, sentir, desejar, em nome da superação de nós próprios! – eis a safadeza abjeta de tal moral. E para todas as outras que há, quem é o pedófilo, quem está nu, afinal?

15/10/2017

Tem uma certa anarquia este trabalho que é muito boa. Amanhã eu não sei o que vai ser. Quero chegar mais cedo que da última vez. Quero ser a Erika também. Como ser a Erika. Quero voltar ao espaço do rato, do mesmo ponto, não sei. Quero não encontrar as folhas que eu deixei lá. Eu acho que a Mari é amiga desse pessoal que se deita no chão. O gesto de. A dança antes. Eu pensei em sair a ler para as pessoas. O trabalho aponta para o horizonte do terraço. Para a cor lá fora. Do lado de cá os cinzas e a porta que nunca se abre, pensamento máximo desses seres brancos de gesso contra o que tudo contrasta. Atenção: o microfone é um embuste. Quem vai até ele é um mal-olhado, um mal-ouvido. O que pode ser bom, um lugar que te projeta um ser para fora daqui. Afinal, que mundo não será este?

09/10/2017

Pessoas são invadidas. Auditórios extravasados. O corpo atingido nas vísceras. Algo desmesurado. Um conto contagiante. Adentra o riso aflora. O mundo em nós a se rir. Público-trilha-sonora. Seu riso não é você, seu riso é força do estranho – o ancestral que em você te olha, o animal que em você irrompe. O riso não é de, o riso é em e adiante. O riso é buraco sem norma. “Eu quero ser” não é o que torna. Sujeito-da-ação: justo o que o riso transtorna, em acontecimento que vaza, impalpável e cortante. Da prevista pessoa à pessoa chocante. Da risada doméstica ao riso selvagem, incerto, sagrado. Que pode ser triste, desesperado. E que pode ser grito embriagado. O que se percorre sem se aprisionar. Não o ressentimento do riso enquadrado em deboche de outrem, pois o sumo do sumo do riso é rir de si próprio, deixar as tolices do mesmo, da classe do meio-querer, pelas mãos do monstro plebeu, que em nós sabe viver a beleza da destruição intensiva do que nos emperra a vida. Humor não convém banalizar, pois humor é função de encarnar, encarnar para então demolir. O riso é a última das dádivas.

06/10/2017

Ler para você.

06/10/2017

O martelo é das poucas coisas que ainda se dá bem comigo, das poucas que ainda manejo com firmeza e tranquilidade neste mundo. Conheço a fundo a forma, o peso, os modos do martelo, que me dá presteza, e poderia até dizer, desenvoltura – principalmente quando ele gira assim no ar, como fazem as raquetes dos tenistas.