24/09/2017

Sai andando. É quase pôr do sol lá fora. Uma mulher, sozinha, sentada a olhar o fim da tarde. Você poderia chorar, mas uma auto num tablete corta o clima. Sai andando, você quer ir até o fim do terraço porque percebe que é possível ver de cima a entrada do Centro Cultural. Sua sombra lá embaixo se projeta sobre a parede de tijolos, ao lado do bebedouro. Ela se abaixa, aperta o botão e bebe água, você vê Adelino, o índio que até os quinze anos jamais vira um branco, a conversar com sua colega – ela parece interessada. Começa então uma cena no centro da qual uma senhora extramundana faz assim com a mão. É um gesto de poder, que reparte o espaço, divisa-o. Depois ela faz outro gesto, em que ergue um braço ao som do que tudo indica a destruição-instauração de algo, um acontecimento que não se sabe bem o que é, mas que nos toma a todos o destino. Ela repete a sequência algumas vezes, tem sede, vai até o bebedouro, a sombra lá, a macaqueá-la, a saltar sobre ela, a tentar alguma coisa. A senhora torna ao centro da cena, volta a repetir a sequência e quando num gesto último a conexão se dá, de repente, um rato, enorme, comprido, sai do banheiro, passa por Adelino e sua colega, atravessa toda a extensão do pátio e desaparece no jardim. No centro do mundo que agora é seu, lá está ela, a dona-do-poder, olhos arregalados, volumosa, regozijante do sucesso de sua conjuração.

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20/09/2017

Um livro antigo entre nós, algo único, a reter como uma pedra o contra-fluxo de nossos caminhos. Mil córregos possíveis, pinceladas infinitas de Van Gogh – péspátulas. “A natureza é a parte sem o todo”. Além de pedras, livros são como sementes – um jardim, uma floresta, um herbário de espécies em estado latente, à espera. Você e eu através das veredas às bordas de folhas secas – tudo, menos seu interior. Conhecer por vir, memória que virá, repassar a ser – emanar silêncio. De repente, os livros-lápides no chão são como setas, indicações de trânsito pedestre, o corpo em qualquer direção.

20/09/2017

Cemitério de poesia aos nossos pés. Construído por nós, com todo o cuidado. Olhar baixo, as mãos tocam à distância. A penetrar surdamente… “Inédito” – palavra velha, escrita em capa de livro do século retrasado. O espaço entre – casa em ruínas. Pelicanos. Todos os livros fechados, a não ser este, a ser escrito agora. Bípedes (sem penas) poetas se tornam quadrúpedes. Mulheres das cavernas – livros são transportados ao frio úmido, escuro das cavernas. Quando eu digo isso é porque eu me interesso por um corpo pensando isso. A caverna vem até nós. Fico surdo. O som do meu coração a bater. Um jeito de ler, ver, ouvir. Perguntas à poesia-oráculo de Matilde Campilho: Por quê? Pode? Respondeu? Muito. Outro lugar. Outra audição. Alice Ruiz: outro silêncio, outro silêncio, outro silêncio…

20/09/2017

13.09.17. Centro Cultural São Paulo. O duro desejo de durar. O segurança, este que está ali, preciso ir lá ter com ele. Já são algumas horas a ajustar o projetor. Ei, você aí, de que vale o que estamos aqui a fazer? É o artista quem deve dizer o que faz, ou você aí? O movimento de que ele precisa é diferente do que ele pode fazer. O projetor. Vir para o espaço público – expor-se em pleno CCSP. Moça! Isto é uma novela. Três pessoas a olhar uma mesma imagem. A história de uma porta. Eu gosto da imagem torta. Algo a ver com aceitação. O Filipe reclamou que o nome dele está grande demais – o dilema moderno: mais eu ou mais outro. É quando o outro não sou eu que a representação existe. Vitor. V – I – T – Ô – R. É o montador. A Erika está esparramada no chão. Este projeto é inocente. Severina é… Fazer as leituras aqui fora. Nunca se sabe como o público vai reagir. Esperamos. Ler o jornal enquanto a porta se abre. A gente pensou em convidar a Key a dar uma aula aqui. Moldar a Key. Este trabalho é uma questão de contraste, um trabalho sobre o que não se é. Este chão seca bem rápido. Um sol desses e a gente trabalhando. Se eu pudesse, nunca tinha saído da praia.

20/09/2017

O espaço. Como é ser o espaço. É preciso esperar por ele. Você espera, ele bate em você uma vez e se vai, você volta a esperar, ele bate de novo e desta vez fica e impõe uma movimentação, um ritmo, e vai embora, e a cada vez que volta o faz feito uma coisa, um bicho, uma pessoa que te toma. Feito dança se dá.

20/09/2017

Aberto para balanço.

20/09/2017

O corpo nada deve ao espírito.

20/09/2017

Diógenes vai ao Oráculo de Delfos cujo conselho é, “transfigurar os valores”, os quais Diógenes interpreta não como financeiros, mas políticos. Ele então viaja a Atenas com o objetivo de desafiar os costumes e os valores estabelecidos, argumentando que em vez de tentar compreender a verdadeira natureza do mal, as pessoas se rendem sem esforço às interpretações mais costumeiras. Tal distinção entre a natureza (“physis”) e o costume (“nomos”) é um tema muito querido da filosofia grega, de que Platão se ocupa na República, na lenda do Anel de Gyges.

Diógenes chega a Atenas com um escravo de nome Manes, que logo o abandona. Com seu humor característico, ele descarta sua posse dizendo, “se Manes pode viver sem Diógenes, por que Diógenes não pode viver sem Manes?”. Diógenes zomba de relações de extrema dependência. Ele encontra a figura de um mestre desesperadamente desamparado, que não é capaz de fazer nada por conta própria. Ele é atraído pelos ensinamentos ascéticos de Antístenes, pupilo de Sócrates. Quando Diógenes pede a Antístenes que o oriente, este o ignora até que o enxota, ao que Diógenes responde, “bate, pois enquanto eu achar que você tem algo a dizer, madeira nenhuma será dura o suficiente para mantê-lo longe de mim”. Diógenes se torna então pupilo de Antístenes. Se os dois realmente se conhecem é incerto, apenas sabemos que Diógenes supera seu mestre em reputação e austeridade, evitando os prazeres terrenos e contrastando seu comportamento ao dos atenienses de sua época, atitude fundamentada em enorme desdém pelo que considera a loucura, a pretensão, a vaidade, o auto-engano e a artificialidade da conduta humana.

A história de Diógenes é a história da coerência de seu personagem. Ele se habitua ao tempo vivendo com os cães em uma jarra de barro no templo de Cibele. Ele destrói a única tigela de madeira que possui ao ver uma criança camponesa a beber do oco das mãos. Ele então exclama, “louco que sou, transportando bagagem supérflua todo esse tempo”. É contrário aos costumes atenienses comer dentro do mercado, e ainda assim ele come lá, pois, como explica ao ser repreendido, é quando está no mercado que sente fome. Diógenes passeia em plena luz do dia com uma lamparina e quando questionado, responde, “estou à procura de um homem honesto”. Ele procura, mas não encontra nada além de patifes e canalhas.

Platão define para Sócrates o ser humano como um “bípede sem penas” e é muito elogiado pela definição. Diógenes então depena uma galinha e a traz à Academia de Platão, dizendo, “aí está, lhe trago um ser humano”. Após tal incidente, Platão adiciona à sua definição, “com unhas largas e planas”.

20/09/2017

Para Diógenes, filosofia não era escrever ideias e argumentações herméticas, mas sim performá-las.

20/09/2017

Isaac Newton morreu virgem.