15/10/2017

Inútil fazer com pouco o que requer mais.

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15/10/2017

A falta de graça da modernidade cristã está, dentre outras inúmeras coisas, no que hoje conhecemos como A Navalha de Occam, um princípio atribuído ao lógico e frade franciscano inglês Guilherme de Ockham.

O princípio afirma que a explicação para qualquer fenômeno deve assumir apenas as premissas estritamente necessárias à explicação do mesmo e eliminar todas as que não causariam qualquer diferença aparente nas predições da hipótese ou teoria. É a “Lei da Parcimônia”, segundo a qual as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade.

[Qualquer semelhança entre ciência e monoteísmo – e, quem sabe, neoliberalismo – é pura coincidência].

O princípio recomenda, assim, que se escolha a teoria explicativa que implique o menor número de premissas assumidas e o menor número de entidades.

Originalmente um princípio da filosofia reducionista do nominalismo, a navalha é hoje uma das máximas heurísticas (regras gerais de processo) da economia “parcimoniosa” e “simples” das teorias que regem nosso mundo judaico-tecnológico.

“Se em tudo o mais forem equivalentes as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor”, diz a navalha.

A Navalha de Occam é, portanto, um princípio metodológico que, além de sugerir que as explicações mais simples são sempre as melhores, de quebra afirma que as mais complexas devem ser sempre refutadas, em qualquer situação. É navalha não, é gilete.

William de Ockham defende o princípio de que a natureza é por si mesma “econômica”, optando invariavelmente pelo caminho mais simples, o que nem de longe tem sido provado pela própria gigante “natureza”.

É claro que muitos foram contra a navalha, entre eles Walter Chatton, contemporâneo de Ockham, que afirma que “se três entes não forem suficientes para verificar uma afirmação acerca de algo, então um quarto deve ser acrescentado, e assim por diante”.

Leibniz, Kant e Karl Menger também discordaram da navalha. Leibniz afirmou que “a variedade de seres não pode ser reduzida”. Menger formulou a lei contra a avareza, segundo a qual “as entidades não podem ser reduzidas até ao ponto da inadequação”, afinal “é inútil fazer com pouco o que requer mais”.

15/10/2017

Quando eu assisti a La Bête, algo imediatamente me passou: esse trabalho é sobre nós, é sobre o público, é sobre cada uma das pessoas que se atreve a manipular o corpo absurdamente disponível de Wagner. É sobre o jogo que se cria ao redor dessa figura plástica, nua, “neutra”. Tamanha disponibilidade tem o efeito curioso de evidenciar a pessoa que manipula o bicho, tornamo-nos figura, o corpo de Wagner se torna fundo. A ansiedade, a hesitação, a violência daqueles que vão até ele para fazer dele o que bem entendem é o que salta aos nossos sentidos – algo que remete à famosa performance de Marina Abramović, em que diante de 72 itens, entre eles um machado, uma pistola e uma bala, ela fica por seis horas à disposição do público para que façam o que quiserem dela. A hesitação da menina, a vontade da mulher, é o que nos capta, a impositividade do homem que carrega o corpo inerte pelo espaço, a sacanagem da pessoa que o coloca de quatro para o público, eis a eficácia desse trabalho do Wagner – somos nós o objeto do trabalho, não ele!, é nossa crueldade e nossa curiosidade que estão em jogo, apesar de tudo indicar o contrário. Eis a sagacidade da proposta, que ao transubstanciar o bicho de Lygia no corpo de Wagner, causa uma inversão na qual nos tornamos nós os bichos. Bichos estranhos, é verdade, cuja moral se resume a jurar que se vestir é a superação da condição de animalidade, quando ao fazê-lo apenas recalcam e radicalizam o abismo que os separa de sua sexualidade – a criança invertida, o ser mais amoral de todos tornado a figura máxima da inocência, joga aqui um papel crucial. A distância como método de controle, fingir que algo não existe como caminho para a não-existência de algo. A repressão ativa de tudo o que podemos ser, viver, sentir, desejar, em nome da superação de nós próprios! – eis a safadeza abjeta de tal moral. E para todas as outras que há, quem é o pedófilo, quem está nu, afinal?

15/10/2017

Tem uma certa anarquia este trabalho que é muito boa. Amanhã eu não sei o que vai ser. Quero chegar mais cedo que da última vez. Quero ser a Erika também. Como ser a Erika. Quero voltar ao espaço do rato, do mesmo ponto, não sei. Quero não encontrar as folhas que eu deixei lá. Eu acho que a Mari é amiga desse pessoal que se deita no chão. O gesto de. A dança antes. Eu pensei em sair a ler para as pessoas. O trabalho aponta para o horizonte do terraço. Para a cor lá fora. Do lado de cá os cinzas e a porta que nunca se abre, pensamento máximo desses seres brancos de gesso contra o que tudo contrasta. Atenção: o microfone é um embuste. Quem vai até ele é um mal-olhado, um mal-ouvido. O que pode ser bom, um lugar que te projeta um ser para fora daqui. Afinal, que mundo não será este?

09/10/2017

Pessoas são invadidas. Auditórios extravasados. O corpo atingido nas vísceras. Algo desmesurado. Um conto contagiante. Adentra o riso aflora. O mundo em nós a se rir. Público-trilha-sonora. Seu riso não é você, seu riso é força do estranho – o ancestral que em você te olha, o animal que em você irrompe. O riso não é de, o riso é em e adiante. O riso é buraco sem norma. “Eu quero ser” não é o que torna. Sujeito-da-ação: justo o que o riso transtorna, em acontecimento que vaza, impalpável e cortante. Da prevista pessoa à pessoa chocante. Da risada doméstica ao riso selvagem, incerto, sagrado. Que pode ser triste, desesperado. E que pode ser grito embriagado. O que se percorre sem se aprisionar. Não o ressentimento do riso enquadrado em deboche de outrem, pois o sumo do sumo do riso é rir de si próprio, deixar as tolices do mesmo, da classe do meio-querer, pelas mãos do monstro plebeu, que em nós sabe viver a beleza da destruição intensiva do que nos emperra a vida. Humor não convém banalizar, pois humor é função de encarnar, encarnar para então demolir. O riso é a última das dádivas.

06/10/2017

Ler para você.

06/10/2017

O martelo é das poucas coisas que ainda se dá bem comigo, das poucas que ainda manejo com firmeza e tranquilidade neste mundo. Conheço a fundo a forma, o peso, os modos do martelo, que me dá presteza, e poderia até dizer, desenvoltura – principalmente quando ele gira assim no ar, como fazem as raquetes dos tenistas.

24/09/2017

Sai andando. É quase pôr do sol lá fora. Uma mulher, sozinha, sentada a olhar o fim da tarde. Você poderia chorar, mas uma auto num tablete corta o clima. Sai andando, você quer ir até o fim do terraço porque percebe que é possível ver de cima a entrada do Centro Cultural. Sua sombra lá embaixo se projeta sobre a parede de tijolos, ao lado do bebedouro. Ela se abaixa, aperta o botão e bebe água, você vê Adelino, o índio que até os quinze anos jamais vira um branco, a conversar com sua colega – ela parece interessada. Começa então uma cena no centro da qual uma senhora extramundana faz assim com a mão. É um gesto de poder, que reparte o espaço, divisa-o. Depois ela faz outro gesto, em que ergue um braço ao som do que tudo indica a destruição-instauração de algo, um acontecimento que não se sabe bem o que é, mas que nos toma a todos o destino. Ela repete a sequência algumas vezes, tem sede, vai até o bebedouro, a sombra lá, a macaqueá-la, a saltar sobre ela, a tentar alguma coisa. A senhora torna ao centro da cena, volta a repetir a sequência e quando num gesto último a conexão se dá, de repente, um rato, enorme, comprido, sai do banheiro, passa por Adelino e sua colega, atravessa toda a extensão do pátio e desaparece no jardim. No centro do mundo que agora é seu, lá está ela, a dona-do-poder, olhos arregalados, volumosa, regozijante do sucesso de sua conjuração.

20/09/2017

Um livro antigo entre nós, algo único, a reter como uma pedra o contra-fluxo de nossos caminhos. Mil córregos possíveis, pinceladas infinitas de Van Gogh – péspátulas. “A natureza é a parte sem o todo”. Além de pedras, livros são como sementes – um jardim, uma floresta, um herbário de espécies em estado latente, à espera. Você e eu através das veredas às bordas de folhas secas – tudo, menos seu interior. Conhecer por vir, memória que virá, repassar a ser – emanar silêncio. De repente, os livros-lápides no chão são como setas, indicações de trânsito pedestre, o corpo em qualquer direção.

20/09/2017

Cemitério de poesia aos nossos pés. Construído por nós, com todo o cuidado. Olhar baixo, as mãos tocam à distância. A penetrar surdamente… “Inédito” – palavra velha, escrita em capa de livro do século retrasado. O espaço entre – casa em ruínas. Pelicanos. Todos os livros fechados, a não ser este, a ser escrito agora. Bípedes (sem penas) poetas se tornam quadrúpedes. Mulheres das cavernas – livros são transportados ao frio úmido, escuro das cavernas. Quando eu digo isso é porque eu me interesso por um corpo pensando isso. A caverna vem até nós. Fico surdo. O som do meu coração a bater. Um jeito de ler, ver, ouvir. Perguntas à poesia-oráculo de Matilde Campilho: Por quê? Pode? Respondeu? Muito. Outro lugar. Outra audição. Alice Ruiz: outro silêncio, outro silêncio, outro silêncio…