ponto

30/06/2010

Dou começo à minha trama com a reminiscência esquisita de um encontro evasivo. A contextura do mundo “lá fora” se tornou fora de contexto. Bom e ruim. As palavras são mesmo umas promíscuas. Ótimo. Na história de um escritor preferido um escritor fraudulento aduz a questão. Hoje, na hora que eu morri, compreendi o número inteiro das palavras. É preciso dispensar-lhes o trato que bem valem. Sem dar-lhes tanto que comer. Pão e água e olhe lá. Desde ontem à noite significado e sentido não são contrários, tampouco eminentes. Adorei seu e-mail. Seu texto recheia o olhar. Vou com a sua cara. Amores. Recreios. A dança das línguas permeáveis. Creio em cada frase que escrevo. Não sem a presciência das coisas indesignadas. Vou até o texto, que é um lugar. Só dobrar a esquina. Lá eu te ensino uma arte. Quem sabe crenças. Convicções íntimas. E, por fim, um ensaio afeito às escrituras coreográficas de pensar o mundo. Montagens literárias que são o objeto último de uma dança primeira. Me apraz a personalidade da carta. Francamente te escuto. A respeito de tudo o que você escreveu, está dito. Assevero, contudo. Tudo está exatamente doido dos fatos. Sequer me admito. Você suicida meus enigmas. Denuncia minhas soluções de pesquisa. Libertas quae. Transpor cartas é massa. Meus deuses estão aprendendo a dançar. Em breve estarei exprimindo bailarinas. Para compor bem o junto e deixar que a sereia de Ulisses siga provocante ponto

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criativas

29/06/2010

Que dia esquisito. Uma impressão defeituosa. De não ter saída. Levo a vida muito a sério. Saudade de uma leveza, que no mais das vezes me abandona aqui sozinho com todo o peso desses vinte e seis anos. Que serventia tiveram. Hoje conversei com Papito no telefone. Bonito, estou aqui funcionando, aproveitando qualquer riqueza-zinha pra gente. Dia desses ele me endereçou três poemas absurdos de lindos. Como pode? Reviro escritor para percorrer em meu pai um poeta loquaz. René, você é muito engraçado, Bertha me disse. Mestrado hoje retornou real – saiu do edital. Saio à janela a fumar um tabaquinho. É noite. Debaixo da minha varanda, do outro lado da rua, há uma Kombi. Um sujeito dorme lá dentro, o que só percebo quando ele acende a luz, desabrolha a porta de um lado, desemboca do outro, arranja qualquer coisa, rodeia o veículo, desvenda o bagageiro e eu lhe tomo uma foto, através da qual concluo um garoto às ocultas na janela traseira, testemunhando as movimentações do pai. Algum triunfo se colhe da nossa insistência em sobressair as funções impalpáveis do texto. Apreciar as inverossimilhanças documentais. Fotografia e exotismo. Hokusai. Sinto-me raro. Algo me impediu do mundo. […] De algum modo já me habituei a esse estado de coisas bem pra dentro de si. Hoje passei uma tarde à vontade com Bud. É bom funcionar as coisas em sua companhia. Rosalba hoje me achegou um real. Estancou quaisquer pretensões radicais à forma. Acho que dou conta do recado, mas não tanto. Bem sei o que não sei. Amanhã expurgar qualquer roupa, recompensar a conta do celular e anular a questão do endereço, investigar a verdade do meu saldo e aliciar na rede os livros do mestrado. Bud falou que o objeto precisa restar transparente – que os termos estão muito escoados. Amanhã rola de deslocar algum trabalho final. Hora de dormir. Amanhã jogo do Brasil. Completo e só. […] Eu não desejo durante, só amo depois. A desopressão do fim. Fiquei matutando isso. Amanhã gol do Brasil. Com a maior parte dos incógnitos. Estou banzo. Difuso. Aspirações remotas. Qual é a idéia da ausência? Me sinto um desnecessário inútil. Saudade do meu pai. Não lhe digo há dias. Amanhã ligo pra ele antes do jogo. […] Carinho por Bertha. Vontade de comparecê-la. Estar com ela. Ela foi se proteger em Timoteus. Eu me amparar em Lapette. Para escaparmos das conversas estéreis.  Ela sequer encenou seu Tim. Hoje nos dissemos e foi bom. Ela me confiou uma arte serena. […] Isso é tão mais foda do que eu. Tenho que resolver minha rede de pescar. Não dá pra ficar sem. Quanto desalento. Sinto-me desaparecido e só. Quero voltar pra escolinha. Não sei dos vigores da idade da razão. Tantos esses que funcionam e granjeiam seu soldo. E eu freqüentando antropologias, dispensando etnografias, observando sei lá eu que marchas criativas.

28/06/2010

aposta

28/06/2010

Que tal uma massagem? Duas à maneira de uma. É bonito. Dá vontade de fazer o mesmo. Nesse momento eu me sinto uma espécie de soldado-amante. Seus arranjos são partes suas. O tempo voa. Ontem alguém falou em sentimento oceânico. A coluna pode render hábitos. Espôndilos sublimes. Elásticos. Ontem durante as conversações algo restou mais ou menos nítido. As livres associações, em sua espontaneidade, são uma espécie de método do encadeamento conjunto de tinos e pensamentos, no espaço do qual as imaginações propostas por uma pessoa vão afligindo e proporcionando imaginações outras interpretações outras comunicações. Um entendimento pactuado no tropo. Desde o cóccix. Deitando vetores pelo espaço. Pelos pés. Pressinto as cores, adivinho cada detalhe, nunca pára, o olhar está sempre caminhando. Enxergo o René, o caderno do René, a caneta dele, cada coisa. Espaço vivo. Vejo tudo. O olhar sempre em movimento. Metade é ensaio. A outra metade é passagem, preparação, expansão. Um jogo uma aposta.

 

Ficar olhando pras pessoas nos olhos umas das outras um tempão.

sacolão

28/06/2010

Estou compondo um sonho pra você. Nada muito claro não. Apenas as partes que estão faltando. Adoro elipses. Você acredita que já teve outras vidas? Trechos meus já, seguramente, milhares de vidas. Hoje sonhei que você era D. Pedro II. Engraçado. Eu era a que não sei o nome. Estávamos felizes. Não mais Rei e Rainha. Declaração da República. Engraçado. A cena da partilha do dinheiro eram sacos de pimentinha. Dessas que se compra no sacolão.

colossal

27/06/2010

Um exame de ocorrências fora do traço. Uma escolha. Uma unidade. Meio de um processo – tinta preta sobre papel branco. Um texto púbico é redigido ao ritmo entrecortado de risos generosamente promovidos por gracejos que ludibriam ilesos o tempo e o todo. Divertimentos que permitem distinguir através da sua espessura a seriedade inquietante desses objetos, suas fases e suas transições. A folha de papel e a tela. Superfícies hospedeiras. Símbolos mágicos. O real e o mais real ainda. Na parede branca uma sobreposição. A impressão de uma metáfora enquanto metáfora da impressão. Expansão é o nome mais recorrente dessa “passagem”. As representações desaparecem e resta, restabelecida, a fina e incontestável imanência do corpo que coincide consigo mesmo. Ontologia em suspensão. Um trabalho que burla copiosamente a propriedade ontológica das coisas. O tempo aqui é o mero andamento do presente. Dádiva de uma comunhão que se dá pela mera assiduidade da presença. É bom porque a gente não sabe direito o que está acontecendo. O juízo se converte em passatempo, renega imperativos e conquista importâncias outras. Aí baixa nelas uma lula colossal. Sobe, ela emendou, sobe uma lula colossal.

27/06/2010

vir.

27/06/2010

Última coisa a fazer. Escrever um pouco. Exercitar os sonhos que estão por vir.

woman

26/06/2010

O corpo se estende. Abre delongas na descompostura e comprime as beiradas. Achega todo o organismo, os tecidos. O imaginário é tramado de forma a exaltar suas freqüentações com o chão, que lhe massageia cada tamanho de intensidade. O olhar, aqui, é total. Entrevê tudo. Muito tempo que eu não lhe habitava. Os primeiros momentos do ensaio de hoje constituem folias. As mãos sempre à mostra. Os pés e o rosto. Langorosa e demorada é a fala que invade o texto e o conduz a uma espécie de cultura do inominado. Beirando cada célula. Reunindo as extremidades. A dança ordena coisas inacreditáveis. Corpos palavreando organizações espontâneas. Animando a musculosidade da coluna. Despalhando pelo chão a sola dos pés. Para uma troca respiratória. Hoje eu fiquei pensando, para ensaiar é preciso resguardo. Não se ensaia em qualquer lugar. É necessária alguma segurança para ocasionar uma tal licença. Alguma longitude suficientemente incontestável para se estabelecer um mundo figurado por ordens outras. Num sábado pela manhã nem uma mosca interrompe o que ali tem lugar. Muita concentração para abrir o corpo às intermitências do ser. Comovendo-nos pela difusão das articulações, pela energia que circula. O espaço está vivo. Está com ela. Ela altera meu corpo. O espaço tem densidade. Eu enxergo tudo. Hoje presenciei os hábitos de uma trama que infunde ao corpo a coerência de uma brincadeira ao longo da qual, afetado pelo próprio afeto, o belo se torna difuso. Os mesmos movimentos, completos e inacabados. Trilha: give me a reason to love you, give me a reason to be a woman.

25/06/2010