23/04/2011

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sem querer os pés

23/04/2011

“aqui não se economizam recursos, viva o povo belga”. o pretexto quem deu foi o general miúdo. a idéia o seu rebento pançudo, esse mesmo que se apruma, soberbo, à frente de todos. eu, desmascarado, apontei a câmera, divisei o quadro, e por um instante de terror cerrei os olhos. aquelas imagens funestas, voltadas a mim como a um espelho, pareciam pressagiar que eu, ora extinto, eternizava-me presente no vazio da minha ausência. quando contudo o silêncio finalmente se transfigurou no estalido seco do clique, o transe se desfez. tudo passou. as máscaras caíram e eu fui-me embora sem contar ao balofinho que lhe cortara sem querer os pés.

23/04/2011

no estúdio, sob a falsidade do fundo, a franqueza de uma linhagem tão retilínea quanto uma régua. o pai matemático, a mãe mãe. já nem tão exatos assim os números dos sapatos, herdadolados, maiores sempre, para durarem mais. o que não é o caso da menina, visto que foi a primeira [e última, me assegurou a senhora]. à genealogia, o primeiro: edipiano típico, um perturbado, se traumatizou. o segundo: muito afeito ao quarto, com quem partilha constantemente a mesma boca aberta de bocoió. o terceiro: cópia escritinha do pai, a mesma mão mole, a mesma curiosidade pelo fora de campo. por fim, uma anedota de família: quando nasceu o primogênito houve muita controvérsia, pois nascera loiro feito o vizinho. já os outros, ninguém fez caso quando nasceram, também loiros. Já se sabia entre o casal, que com o tempo, ia escurecendo o cabelo dos seus rebentos.

23/04/2011

me exibia

23/04/2011

outono é a época dos triângulos amorosos. as galhas secam e os corações frutescem atrevimentos. mas o garoto, este que lhe sorri treslumbrado, nunca passou de um pretexto seu. astuciosa, ela o trazia conosco para que posassem ambos, sempre, de modo a bem disfarçar-lhe o que a mim tão bem me exibia.

23/04/2011

mais do que devia

23/04/2011

era uma vez uma mulher delirante que achava que as coisas podiam dar certo entre ela e o seu avestruz. o pescoço alto e delgado, a face inclemente, o torso rechonchudo, o avestruz, ela imaginava encantada, era a própria encarnação de seu falecido bill. o fotógrafo da cidade, que era amigo do morto e vez ou outra aparecia para saborear a comida fina da senhora herlington, foi quem sacou esta foto. naquele dia, em seu diário, ele registrou: “acho que ela bem pode ter razão. bill e o avestruz são mesmo idênticos. e ele, pelo visto, ainda não lhe perdoou por aquele atraso fatídico, que o causou acelerar o carro mais do que devia”.

O meu amor elementar atendia pelo nome de Fedra Pires da Mesquita. Eu a quis como um desvairado. Sua carne cosia todos os dotes concebíveis, era perfeito o seu corpo e tínhamos quinze anos. Eu lhe apetecia feito um demente. E ela também a mim. Praticávamos as maiores e melhores imprudências e custou-nos sorte não havermos sido apanhados em paixão flagrante. A primeira boceta em que pus a mão à primeira garota a dominar o meu pau e a primeira que sorvi a primeira a chupar-me. Uma vez [dois mil anos após o nascimento de cristo] detivemo-nos os dois sozinhos num segundo andar. Seus peitos eu os lambia afortunado. A calcinha branca, muito pouca, a cor rosácea o centro gravitacional do universo. Senti-me livre, insinuei-me, ela disse não. Tinha medo.

Ocorreu o terceiro ano e por outra terminei com Fedra. A renúncia primeira minha. A culpa ou seja minha. O ato meu.

Algum tempo depois voltamos jamais ao mesmo. Eu lhe havia ferido, com o que ela passou a fustigar-me reiteradamente. No dia em que finalmente foi ela quem rompeu comigo morri finei e a extremidade da história foi uma noite de praia no espírito santo, metade lembramento metade invenção. Já não éramos juntos e eu navegava à sua procura ao passo que ela beijava um abrutalhado de boné pra trás monstruosamente revestido de uma blusa de time de hockey. Entrei num estado verdadeiramente mórbido. Solucei, padeci e desde então meu coração é apenas um vestígio daquele amor-e-ódio.

Fedra danou sua virgindade naquela noite e eu não sei como cheguei a saber disso, mas inventei e creio que foi ela mesma quem me disse, por desforra.

Hoje meu embaraço sou eu que não sei o que digo. Uma pedra trincada no peito nômade e relação qualquer me repara. Há muito nem sequer ouço falar dela, mas pensei em lhe escrever. Pensei em dizer a ela que talvez devêssemos enfim trepar e untar essa úlcera, pois um esteta que jamais fruiu de fato a beleza absoluta não passa de um platãozinho de merda.